Capítulo 02

1617 Words
O senhor da casa deixou com que todos ali conversassem, moravam separados e ainda era apegados entre si. Se ficasse ali não receberia atenção alguma, por isso direcionou-se para a cozinha onde mexia nos armários preparando uma lista de compras. Naquela mesma tarde deveria ir ao mercado, lembrava a si mesmo com força. Uma terceira buzina soava, era a chegada do filho mais velho. Abriu a porta e encontrou a nora e a neta mais velha, por volta dos vinte anos. As duas mulheres sempre gostaram do senhor da casa adorando visitá-lo, e por outro lado tinham antipatia pela sogra. Por isso elas se davam muitíssimo bem com Lucius e Oliver. A última pessoa a entrar na casa era Benjamin, o filho de quarenta e um anos que abraçava o pai cordialmente. Ele fora o único que vivenciou todas as brigas dos pais e que ainda juntava as peças para poder entender aquele relacionamento. Mesmo depois de casado, Benjamin não sabia ao certo se deveria seguir os caprichos da mãe, que dizia se sentir solitária, ou do pai que nunca dissera uma palavra. No final das contas, tanto Benjamin quanto Héctor estavam afastados do pai precisando de muitas explicações. Durante a adolescência, detestavam o pai por conta das brigas que fazia sua mãe chorar. Mesmo que os rapazes fossem até si brigar, o senhor da casa erguia a voz e dava a última palavra. Ninguém poderia entender aquele pai. Até o nascimento de Lucius e a revelação de sua sexualidade. Os três irmãos conversavam na sala, animados pelo reencontro. O senhor da casa olhava para aquele cômodo tão cheio de vida e então percebeu. O que o mantinha naquela vida eram seus filhos. Pegando seu chapéu e o ajeitando sobre a cabeça, o senhor da casa apenas pigarreou chamando a atenção dos demais. ― Irei dar comida aos cavalos. Fiquem à vontade que logo voltarei. ― Quero ir junto vovô. ― Ah eu também quero vovô! As quatro crianças acabaram por seguir o avô, enquanto os adultos permaneciam observando a porta se fechar. ― Não entendo o porquê dele fugir quando estamos aqui para ver ele ― Resmungava Héctor se jogando no sofá. ― Não adianta o que a gente faça, nada vai melhorar ― Sussurrava Benjamin espiando a janela. ― Vocês que são cabeças duras. ― Lucius caminhava até a estante de livros sorrindo com o tanto de exemplares que haviam nas prateleiras. ― Já repararam que aqui tem tantos livros? Mas nunca vi o nosso pai ler. Benjamin se encostava na parede cruzando os braços. Recordava-se de quando jovem, seu pai jamais deixou que mexesse naqueles livros. Em especial o de Alice no País das Maravilhas. Entretanto houve um dia, o único dia que o homem recordava ser a lembrança mais feliz com o pai. Nos seus oito anos teve pesadelos e o pai lera aquele livro da Alice até o garoto dormir. ― Nunca o vi ler um livro. ― Verdade, para que tanto livro se esse velho nem lê? Lucius virou-se para Héctor se aproximando para desferir um t**a em seu rosto. ― Aquele velho é o seu pai, tenha mais respeito por ele. O rapaz soltou uma risada abafada. Via o irmão mais novo com as bochechas avermelhadas, mas com a respiração acelerada e os olhos vidrados em si. Estava com tanta raiva. ― Respeito? Por que deveria? ― Héctor por favor ― A esposa pedia ― Estamos aqui para visitá-lo e Lucius disse que tinha algo para nos contar. Será que esse ano não poderíamos viver como uma família de verdade? ― Cristal está certa ― Millena, esposa de Benjamin, acariciava o braço da filha que olhava em volta sem entender o motivo dos homens estarem tão alterados ― O pai de vocês sempre viveu sozinho após a separação da vossa mãe. Não podemos alegrá-lo esse ano? Lucius suspirava voltando sua atenção para a estante de livros. Ao se aproximar dedilhou cada exemplar na procura de um em especial. Era observado pelos irmãos, que estavam curiosos ao repararem um sorriso imenso em seu rosto. ― Enquanto morei aqui descobri que o papai nunca gostou de ler, e que mesmo assim esses livros eram preciosos para ele. ― O rapaz pegara o exemplar de Alice no País das maravilhas e um outro caderno de capa amarelada ― Ele nunca brigou comigo por mexer nos livros. E quando perguntei sobre cada um deles, papai disse que esses dois eram os mais importantes. ― Você sempre foi o filho preferido dele ― Benjamin encostava a cabeça na parede e suspirava. ― Não sou o preferido ― Lucius folhava as páginas do caderno ― Esses livros pertenciam a alguém muito especial ao nosso pai. Os olhares repleto de curiosidade recaíram em Lucius. Oliver apenas sorria de lado enquanto observava a janela, onde o senhor da casa parecia se divertir com as crianças que queriam acariciar a crina dos cavalos. ― Está se referindo a amante dele? Lucius reconhecia aquela história. Sua mãe havia contado que o pai tivera tantas amantes que poderia ter mais filhos pelo mundo sem que soubesse. Todavia ao se mudar para a casa do pai soubera da verdade, e então começou a se sentir enojado. Uma repulsa crescia dentro de si, desejando nunca mais queria saber sobre sua mãe. ― Nosso pai nunca traiu a mamãe ― Sussurrava o rapaz encarando os irmãos ― Mesmo não a amando, ele nunca a traiu. ― E você sabe de tudo isso? Você sempre diz que o nosso pai teve um motivo para viver desse jeito, mas nunca falou sobre. ― É por isso que estamos aqui ― Sussurrava Emma, a neta mais velha ― O vovô tem mais história do que parece. Benjamin olhava para a filha com desdém, a menina encolhera os ombros se encostando na mãe, que repreendia o marido com o olhar. ― Que história seria? Lucius erguia o caderno e sorria como se tivesse uma carta na manga. ― O diário do papai de quando tinha dezesseis anos. Olhando o caderno por fora, era perceptível as folhas amareladas com algo preso nelas. Algumas páginas estavam com clipe tendo anexado alguma foto, papel de bala, bilhetes. Lucius sorria tocando em uma das fotos, como queria conhecer aquela pessoa. A porta de casa fora aberta pelo senhor da casa. Não demorou para que sentisse a atmosfera tensa entre os filhos e as noras. Emma se levantou do sofá indo até o avô sorrindo para o mesmo. O velho senhor não entendia o motivo de tudo parecer tão intenso. Notando o diário na mão do filho caçula, um arrepio passara em sua espinha. ― Vovô, hoje farei o almoço. Minha mãe me ensinou uma receita que eu tenho certeza que o senhor irá gostar. O senhor da casa desviou a atenção para a neta soltando uma risada baixa e envergonhada. Suas mãos estavam suando e estava nervoso por rever aquele diário. ― Tudo bem, a cozinha é toda sua. Seguindo para a sala o senhor da casa voltou com sua fisionomia séria. Os três homens ajeitavam a postura. Sempre que o pai estava daquele jeito seria sinal de que estaria bravo. E como lhes foram ensinados, deveriam demonstrar sinal de respeito. O senhor fora até o filho caçula fitando o diário, e então soltou um suspiro sendo alvo da sedenta curiosidade dos rapazes. ― O que está acontecendo? Por que o rosto de Héctor está vermelho? ― Olhou entre os irmãos e ergueu a voz ― Andaram brigando? Mesmo sendo homens feitos, estão brigando como moleques? ― Desculpa papai ― Lucius tomava a frente ― Héctor faltou com respeito e acabei por dar o t**a. ― Faltei com respeito? ― O rapaz citado novamente ria abafado, dessa vez incrédulo ― Não posso se quer expressar minha opinião e já sou esbofeteado no rosto. ― Se vieram aqui para brigar então arrumem suas coisas e saiam ― Resmungava o velho senhor ― Não tenho mais idade para isso. ― De quem são esses livros? O senhor da casa, que teria se virado para sair do cômodo, apenas parou ao ouvir a pergunta do filho mais velho. O mesmo sempre fora quieto e observador, mas isso não significava que deixaria quieto algum tipo de assunto que lhe incomodasse. O idoso se virou e encarou a estante de livros. As recordações que tinha ali eram numerosas e não sabia ao certo como se organizar. ― É uma grande história. Se retirando da sala e indo à cozinha para ver sua neta, o senhor da casa procurava por algo que distraísse da onda de saudade que tinha em sua mente. Os três apenas observavam aquele homem enrugado e cheio de tatuagens, Lucius tão breve se aproximou dos irmãos e sussurrou. ― Lembram quando a nossa mãe e o pai brigaram por minha causa? Papai nos abrigou aqui, certo? ― Os dois outros irmãos assentiam, sem muito entusiasmo ― Fiquei curioso em saber o motivo daquela atitude dele. Quando perguntei papai apenas disse uma coisa. Os irmãos haviam se inclinado para frente, ansiosos em ouvir a resposta que pai teria dado ao seu irmão. ― “Porque eu já passei por isso, e não tive a quem recorrer”. Os dois irmãos franziam a testa curiosos para saber mais. Porém, Lucius não era alguém que simplesmente contava os segredos. Se afastando, o caçula dos irmãos seguia para a cozinha, ajudar a sobrinha e o pai a fazerem o almoço. Não teriam outra escolha a não ser perguntar ao pai. Mas isso só poderia ocorrer após o almoço, quando as crianças fossem brincar no gramado com suas mães. Somente então teriam um momento entre pai e filhos.
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