Capítulo 2 — José Vicente

1003 Words
O problema do Herus sempre foi esse: ele acha que pode tudo. E pior, ele consegue quase tudo. Desde pivete, aquele sorriso dele me dava nos nervos. Era igual agora, encostado na esquina feito dono do mundo, camisa aberta, corrente brilhando e aquela cara de quem não tem medo nem da morte. E eu? Eu nunca fui muito de fazer cena. Sempre fui mais calado, na minha, observando. Mas com ele era diferente. Com ele, o sangue fervia. A real é que a gente foi criado junto, né? Minha mãe e a tia Maju são unha e carne desde sempre. O Fabão, pai dele, é quase irmão do meu pai, braço direito do Falcão desde os tempos que ninguém aqui nem sonhava em nascer. Tudo família misturada, tudo embolado. E mesmo assim, eu e o Herus nunca se engolimos. Desde moleque ele me provocava. Achava graça em tudo que me tirava do sério. Mas ano passado foi a gota d’água. Tinha uma mina aqui do morro, a Letícia. Eu tava fechando com ela, já tinha até levado no baile, apresentado pros cria… Adivinha quem apareceu dando em cima só de s*******m? Ele mesmo. O bonito. O engraçadão. Fez de propósito, na minha cara. Brigamos feio. Por pouco não saiu tiro naquela noite. Nossos pais quase quebraram a amizade por causa disso. Só não desandou porque minha mãe é braba e a tia Maju chorou horrores pedindo pra gente parar. Ficou aquele clima. E aí, né? Acordo de paz: um finge que não vê o outro. Só aparência. Mas Herus não sabe ficar quieto. Ele adora cutucar. E hoje ele cutucou o que ele não devia. Minha irmã. Minha irmã, parceiro. Minha Sophia. A única pessoa que eu faço de tudo pra proteger. Ele sabe o quanto ela é minha fraqueza. E mesmo assim tava ali, chamando de “princesa”, olhando pras pernas dela como se fosse um desses moleque babaca que só pensa em s*******m, na verdade ele é desses. E pra piorar... a Milena ali também. A Milena é fogo puro. Toda cheia de si, fala o que quer, faz o que quer. Desde que eu bati o olho nela, vi que ela era problema, mas problema daquele tipo que a gente quer resolver devagarinho, na malícia. Só que ver o Herus chamando ela de “loira” daquele jeito foi a faísca que faltava pro barril de pólvora. Quando a Sophia entrou no carro da Milena e seguiu pro colégio, eu já tava com os punhos fechados. — Vem cá, Cachorrão — chamei baixo, sorrindo de canto. Ele olhou, levantando uma sobrancelha. Deboche puro. — Quer falar comigo, doutorzinho? — o maluco sempre me chamava assim por causa da faculdade de Direito. m*l sabe ele o que eu sou capaz de fazer longe dos livros. Fui andando devagar até ele e puxei pelo colarinho, levando pro beco ali do lado. Ninguém por perto, só o eco da cidade acordando. — É o seguinte, Herus. — Falei baixo, firme. — Tu pode brincar com quem tu quiser. Pode rodar o morro todo. Mas minha irmã e a Milena não são diversão tua. Fala gracinha pra uma delas de novo e eu te quebro todo, parceiro. Não quero nem saber quem é teu pai, quem é tua mãe, quem é afilhado de quem. Te quebro e pronto. Ele riu. Riu. A audácia dele me dava vontade de meter a cara dele na parede ali mesmo. — Tá apaixonadinho, Zé? Tá ferrado, hein? A loira ali não é do tipo que usa coleira, tá ligado? Tu não vai aguentar não — falou, se afastando devagar. Na saída ainda me deu um empurrão de leve, só pra mostrar que era folgado. Saiu andando como se nada tivesse acontecido. E eu? Fiquei ali, no escuro do beco, respirando fundo. Se eu partisse pra cima, ia ser problema pro meu pai, pra minha mãe, pra família toda. Eu tinha que pensar na frente, pensar na proteção da Sophia. A raiva fervia, mas eu voltei pra casa. --- Mais tarde, lá pra hora do pôr do sol, fui buscar minha irmã na escola. Peguei a moto, capacete jogado de lado, bermuda, camiseta básica e chinelo. Só o básico. Minha moto era minha fuga. O barulho do motor me ajudava a organizar os pensamentos. Fiquei parado na frente do colégio esperando, encostado na moto. Vi primeiro a Milena vindo, andando como quem desfila numa passarela particular. Short jeans justo, tênis branquinho, óculos escuros. Um perigo ambulante. — E aí, doutorzinho — ela sorriu. — Veio buscar a princesinha? — Devia ter vindo buscar você, né? — respondi, sorrindo de canto, daquele meu jeito torto, meio sério, meio brincando. Ela soltou uma risada baixa, aproximando devagar. A Milena tem esse jeito de falar com o corpo. Cada movimento dela é pensado pra tirar a paz de quem tá por perto. — Me passa teu @ aí… vai que eu preciso de um advogado negrão e gostoso um dia desses. — Ela piscou. Brincadeira, mas com segunda intenção. Passei meu arroba pra ela no celular. Ela salvou como “Zé Advogado”. Moleca. Sophia chegou logo depois, com um sorriso malicioso no rosto. — Imagina que lindo a Milena sendo minha cunhada… Ia amar — ela falou, toda safadinha. Revirei os olhos. — Menor, cuida da tua vida. Bora logo — resmunguei, colocando o capacete nela. Milena riu, acenou e entrou no carro dela. Eu e Sophia na moto, descendo as ruas em silêncio, o vento bagunçando o cabelo ruivo dela. Por fora eu tava sereno. Mas por dentro, meu pensamento era só um: eu precisava dar um jeito nesse Herus antes que ele bagunçasse tudo de novo. E dessa vez… se ele cruzasse a linha, ninguém ia conseguir segurar. Nem minha mãe. Nem a tia Maju. Nem Deus. Fim do jogo limpo. Agora era guerra fria. E eu não costumo perder. ME AJUDE: DEIXANDO COMENTÁRIOS BILHETE LUNAR SEGUINDO MEU PERFIL DREAME Se desejar siga no insta: @crisfer_autora
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD