Alina Castro - O sonho
Acordei com o som suave do sertanejo vindo do rádio velho na cozinha. Minha tia Helena já estava de pé, como sempre, mesmo que eu implore para que ela se resguarde e descace, todos os dias ela insiste em preparar o café da manhã. O aroma do pão de queijo recém-assado se mistura com o cheiro da brisa matinal que entra pela janela e do café fresco passando no coador. A vida em Minas Gerais tem seu próprio ritmo, um compasso tranquilo que me acalma, mesmo nos dias mais difíceis e olha que nos últimos anos eles têm sido frequentes.
Desde que minha mãe faleceu, quando eu era apenas uma menina de 05 anos, tia Helena assumiu todos os papéis em minha vida. Ela era mãe, pai, amiga e mentora. E a exatos dois anos, depois de uma m*l estar e uma visita ao hospital recebemos a pior noticia que podíamos esperar e a batalha contra o câncer se tornou nossa luta diária. Tia Helena é a mulher mais forte que conheço e mesmo quando eu me rendo ela está lá forte e resiliente, ela nunca deixou que a doença a abatesse. Seu espírito indomável é a minha inspiração, por ela aprendi a ser uma rocha e para vê-la bem eu faria qualquer coisa.
Foi com tia Helena que descobri minha maior paixão, a costura. Esse amor começou ainda pequena, enquanto observando minha tia transformar pedaços de tecido em obras de arte, eu pegava seus retalhos e com toda paciência e carinho minha tia foi me passando seus ensinamentos e, bom, minhas bonecas estavam sempre estilosas. À medida que crescia, meu amor pela moda também cresceu. Meu sonho é ser uma estilista famosa, não dessas super badaladas, mas do tipo que é reconhecida como artista, que vê suas obras inspirando, encantando ... mas a nossa realidade financeira me mantém com os pés bem fincados no chão. Eu não posso arcar com os custos de um curso de moda, muito menos deixar minha tia sozinha nesse momento, ela é minha prioridade e assim como se doou a mim quando eu mais precisei eu devoto meus dias a ela, minha heroína.
"Alina, venha tomar seu café!" – a voz doce de tia Helena ecoou pela nossa casa simples.
Termino de amarrar meus cabelos em um r**o de cavalo e corro ao encontro do banquete que tenho sei que vou encontrar na cozinha. Sento à mesa e troco sorrisos calorosos com titia, eu a amo. Eu sei que, apesar de nossas dificuldades, ela se orgulha de mim e da mulher que me tornei. Ela é minha inspiração e em dupla com minha melhor amiga, Camila, é minha maior incentivadora. Por falar em Camila...a bomba colorida que chamo de parceira explode pela porta da sala cheio de energia.
"Aliiiiii ouviu falar do concurso de moda que está acontecendo em São Paulo?" – Pergunta animada, enquanto sacoleja um papel em frente ao meu rosto como se aquele fosse o santo graal.
Sorrio, sabendo que ela está sempre ligada nas novidades, afinal como ela mesma diz a “a fofoca edifica” e minha amiga leva esse mantra bem a sério. Ela é sem sombra de dúvidas uma força incontida da natureza e alegra meus dias desde a pré-escola.
"Sim, as meninas da igreja me falaram a respeito, mas não é o momento, Cami." Respondo sem querer transparecer a frustação em minha voz, não quero que minha tia se sinta um peso para mim.
"Não seja boba”. - Ela desdenha. “Você tem talento garota e o mundo precisa conhecer suas criações ... eu preciso que suas criações sejam conhecidas, afinal eu sou sua melhor modelo, preciso brilhar! Vou te inscrever e pagar a taxa. Você merece essa chance Alina, e não sou eu quem vai privar o universo dessas suas mãos de fada garota." - Como eu disse elas me amam, olho para minha tia e vejo expectativas no seu olhar, mas eu realmente não posso deixa-la sozinha neste momento, nem posso aceitar que Camila gaste seu dinheiro comigo.
“Eu não posso Camila, tia Helena precisa de mim por aqui e tem as encomendas que preciso entregar para a butique de Santa Luz, não dá para abandonar tudo por um concurso que eu não tenho a mínima chance de ganhar e pior se por um milagre eu ganhasse, o que faria com o prêmio? Eu não tenho direito de minar as chances de quem realmente poderá usufruir dele.” - Falo decidida para que ela entenda como as coisas estão complicadas.
“Alina, não seja boba, eu estou bem minha filha e te ver realizando seu sonho, ganhando o mundo, será minha maior alegria. Não faça isso com você, não faça isso comigo! Aceita o presente que a doidinha da Camila está te dando e pelo menos participa do concurso. Não quero te ver arrependida por não tentar, essas chances são raras em nossas vidas querida, tente, por mim.” - Tia Helena levanta da cadeira e me pega pelas mãos, fazendo questão de me olhar nos olhos enquanto fala, ela me mostra sua alma através do olhar. Sinto as mãos agora magrinhas e frágeis, eu tudo que penso é que não posso perde-la, engulo o choro que tenta sair.
“Não dá tia, você precisa de mim aqui! Eu quero estar aqui. Quando você se curar eu poderei, de cabeça tranquila posso me tornar uma estilista. Hoje meu sonho é cuidar de você, a pessoa mais importante da minha vida.”
“Ei...” - Escuto Camila resmungar enquanto seca uma lagrima fujona. Ela se faz de forte, mas é uma manteiga derretida, daquelas que chora vendo desenho animado ou lendo romances melosos. - “Eu tô nesse trem ai uai, sou também a mais importante, não aceito ser relegada assim não, oxi ... tia Helana, briga com ela!”- Completa com um bico digno de uma tromba de elefante.
Rimos da maluquinha que virou parte da nossa família desde o primeiro oi trocando,a chamamos para um abraço em grupo. Somos pobres sim, mas há tanto amor que toda a riqueza do mundo é pouca para comprar o que há no nosso abraço.
“Amiga, participa do projeto, por favor! Eu cuido da tia Helena, na verdade já até falei com meus pais e eles acharam super da hora eu me mudar e ficar aqui coma a tia, eu cuido dela enquanto você estiver nos Estaites, sendo fina e estilista chique!” - Camila fala da forma mais natural do mundo que está disposta a mudar sua vida para que eu realize meu sonho e isso é uma das maiores provas de amor que ela poderia me dar.
“Ah... Cami, eu te amo, você é a irmã que o destino me deu, mas não posso te pedir isso, não é justo.”
“Seu ** que não é justo, poxa Alina, tô tentando ser legal aqui e não te obrigar a aceitar o inevitável. Já tá resolvido eu vou me mudar e meus pais vão dar todo suporte que precisarmos e você vai conquistar o mundo sendo a estilista fodona que encanta geral que a gente sabe que você é.”
“É verdade minha filha, já está tudo resolvido e eu sou lucida garota não me trate como uma invalida, eu nunca me perdoaria se você perdesse essa oportunidade. Tente Alina, eu estou te implorando.” - Tia Helena praticamente implora.
“Tudo bem! Vocês venceram, faz a minha inscrição Cami, eu vou participar. Não tem como eu ganhar mesmo, então boralá” - Falo de forma desdenhosa, mas por dentro a vontade de conseguir e a esperança de viver o meu sonho me atingem, eu as controlo, não posso sonhar com algo que não vai acontecer, vai doer muito se não der certo e eu não posso lidar com isso, não agora. Claro que eu sou boa, mas não tenho estudo para isso e sei que o pessoal que participa desses concursos são bons, muito bons, eu não vou ter chance nenhuma. Indiferente a minha insegurança Camila suspira aliviada levando as mãos ao coração.
“Ai que tudoooo... uffat, que bom que topou, porque eu já te inscrevi e tia Helena me ajudou a selecionar suas criações mais maravilindas! A gente mandou ontem pelos correios para o júri do concurso.” - Camila solta a bomba como se não fosse nada demais.
“Vocês duas não valem nada! Não acredito que fizeram isso pelas minhas costas e pior ainda fizeram o maior drama, como se negar a participação fosse uma escolha. O que eu faço com você duas abelhudas? “ - Questiono as meliantes irritada, e assumo a típica pose de mãe rabugenta, só falta as havaianas nas mãos.
As descaradas me olham com sorrisos estampados no rosto. Sem a melhor vergonha na cara, me dando as costas Cami fala.
“Nos ama uai, somos maravilhosas e merecemos muito amor, roupitchas maravilhosas e glamour” - Ela rouba alguns pãezinhos e sai correndo pela porta, enquanto morde um dos pãezinhos. - “p***a esse trem tá bom demais da conta tia, beju!”.
Mal sabia eu que essa loucura mudaria minha vida para sempre.