Capítulo 1
O sol ainda nem tinha aparecido direito quando eu abri os olhos. Nem precisei do despertador. Eu quase nunca preciso. A responsabilidade me acorda antes dele… e, pra ser sincero, eu já me acostumei com isso.
Virei o rosto devagar.
E lá estava ela.
Sophia ainda dormia, tranquila, com os cabelos espalhados pelo travesseiro, a respiração leve… como se o mundo lá fora não existisse. Fiquei alguns segundos só olhando. Em silêncio. Como faço quase todas as manhãs.
Quatro anos de casamento… e eu ainda sinto a mesma coisa.
Aquele aperto bom no peito.
Aquela paz.
— Eu daria tudo pra congelar esse instante…
Pensei… mas levantei logo em seguida.
A vida não espera.
Caminhei até a janela e encarei a cidade acordando. O Rio já começava a ganhar som, movimento… vida. O vento trouxe aquele cheiro de mar que, até hoje, às vezes ainda me parece estranho — ou talvez só me lembre de quem eu era antes de tudo isso.
Porque eu lembro.
Lembro bem do dia em que saí do interior de São Paulo com uma mala simples e um monte de dúvida na cabeça. Deixar minha cidade, minha família… não foi fácil.
Eu sempre fui determinado, mas nunca deixei de sentir medo.
Será que eu ia dar conta?
Será que o Rio era grande demais pra mim?
E foi aqui… no meio desse caos bonito… que eu encontrei ela.
Sophia não entrou na minha vida aos poucos.
Ela simplesmente aconteceu.
Com aquele sorriso fácil, aquele jeito firme… e uma teimosia que, em vez de me afastar, me prendeu de vez.
Ela não mudou só a minha rotina.
Ela mudou tudo.
Quatro anos juntos.
Construindo algo que, por muito tempo, eu nem sabia se seria possível pra mim.
E, mesmo assim… eu sinto que ainda estou só começando.
Fui pra cozinha, coloquei o café pra passar e apoiei as mãos na bancada. Respirei fundo.
O trabalho no banco não dá trégua. Ser gerente significa resolver problema o tempo todo — meta, cliente, erro… pressão. Às vezes eu chego no limite, mesmo sem mostrar.
Mas tem um motivo pra tudo isso.
Ela.
Eu quero dar uma vida boa pra Sophia. Quero construir algo de verdade.
Uma casa maior…
Talvez…
Filhos.
Acabei sorrindo sozinho.
— Um passo de cada vez… — murmurei.
O cheiro do café já preenchia o apartamento quando ouvi passos atrás de mim.
— Já acordado?
A voz dela, baixa, sonolenta… me fez virar na hora.
E lá estava Sophia… com uma blusa larga, cabelo bagunçado… linda de um jeito que ela nem percebe.
Meu peito aqueceu na hora.
— Sempre — respondi. — Você sabe como é.
Ela se aproximou e me abraçou pela cintura, encostando o rosto no meu peito. Fechei os olhos por um segundo, só sentindo aquilo.
Casa.
— Você trabalha demais… — ela disse.
Eu sei que ela se preocupa. Eu vejo.
— Eu sei… — respondi, passando a mão no cabelo dela — mas é por nós.
Ela levantou o olhar.
E foi aí que eu senti.
Tinha algo diferente.
Um peso… uma profundidade no olhar dela que eu não consegui entender na hora.
— A gente precisa conversar depois…
Franzi a testa.
— Conversar? Sobre o quê?
Ela hesitou.
E isso já foi o suficiente pra me deixar alerta.
— Depois… não quero estragar a manhã.
Aquilo ficou na minha cabeça.
O dia inteiro.
Mas eu deixei passar naquele momento.
O dia estava só começando… e eu não fazia ideia do que vinha pela frente.
Assim que cheguei no banco, foi como sempre — problema atrás de problema. Cliente insatisfeito, meta atrasada… e, pra piorar, um erro sério de um funcionário que podia virar algo grande.
Respirei fundo, ajeitei a gravata e fiz o que eu sempre faço.
Assumi o controle.
Por fora, eu sei que pareço firme. Seguro. Resolvido.
Mas por dentro…
Minha cabeça só voltava pra ela.
“O que será que a Sophia quer falar comigo?”
Assinava documento pensando nisso.
Respondia e-mail pensando nisso.
Não era uma conversa qualquer.
O jeito que ela falou…
Era importante.
Talvez… mudasse tudo.
Quando dei por mim, o dia já tinha acabado.
Saí do banco exausto, entrei no carro e fui pra casa. O trânsito nem me irritou como de costume. Eu só queria chegar logo.
Quando abri a porta…
Eu vi.
Sophia estava no sofá.
Linda, como sempre.
Mas diferente.
O olhar… carregado de algo que misturava nervosismo e expectativa.
Meu coração acelerou.
— Oi, amor — falei, me aproximando e beijando ela.
— Oi… — ela respondeu, sorrindo, mas eu senti a emoção ali.
Deixei minha pasta de lado e sentei ao lado dela.
— Você ficou o dia todo na minha cabeça… — falei, sincero. — O que você queria falar comigo?
Ela respirou fundo.
Ficou em silêncio por alguns segundos.
E eu senti.
Era agora.
— Eu venho pensando nisso há um tempo… — ela começou. — Pensando na nossa vida… no nosso casamento… no quanto a gente se ama.
Meu coração começou a bater mais forte.
— E…?
Ela segurou minha mão.
Firme.
— Eu acho que está na hora de dar um passo maior…
Eu prendi a respiração sem perceber.
— Eu quero engravidar, Pablo. Quero ter um filho seu.
O mundo parou.
Literalmente.
Por um segundo… eu não consegui reagir.
Não porque eu não queria.
Mas porque aquilo… dito assim, de repente…
Mexeu comigo de um jeito profundo.
Responsabilidade.
Mudança.
Futuro.
Tudo veio de uma vez.
Mas, junto disso…
Vieram imagens.
Uma casa com mais vida.
Risos.
Uma criança correndo.
Chamando por mim.
Olhei pra ela.
Sophia me encarava com medo.
Esperando.
Eu levei a mão até o rosto dela, devagar.
— Você tem certeza?
Minha voz saiu mais baixa do que eu esperava.
Ela assentiu.
Sem dúvida.
— Tenho. Eu sinto que é o momento… que a gente está pronto.
Respirei fundo.
E, aos poucos… algo dentro de mim se encaixou.
Um sorriso surgiu.
— Eu sempre sonhei com isso… — falei. — Só não esperava que fosse agora…
Ela riu, aliviada.
— Isso é um “sim”?
Eu não consegui responder com palavras.
Aproximei meu rosto do dela e beijei Sophia com tudo que eu estava sentindo naquele momento.
E era muito.
— É um “sim”… — murmurei depois, encostando minha testa na dela. — Um “sim” pra nós… pra nossa família.
Ela me abraçou forte.
E eu abracei de volta.
Naquele momento… tudo mudou.
Não era mais só sobre trabalho, metas ou responsabilidade.
Era sobre algo maior.
Sobre nós.
Sobre o futuro.
E, pela primeira vez naquele dia…
Eu parei de pensar no banco.
Porque agora… tudo que importava era o que a gente estava prestes a construir juntos.