Capítulo 17

1088 Words
Na manhã seguinte, o sol entrou pelas cortinas do quarto de Dalila, mas, diferente de outros dias, ela não acordou com aquela sensação de rotina. Ela abriu os olhos devagar… e a primeira coisa que veio na mente foi o baile. A música. As luzes. A liberdade. Ela virou de lado, pegando o celular. O grupo das meninas estava cheio de mensagens. “Quando vamos de novo?” “Dalila, você arrasou!” “Tem outro baile sexta 👀” Um leve sorriso apareceu no rosto dela. Mas logo a porta se abriu. — Já acordou? — perguntou a mãe, entrando sem esperar resposta. — Hoje você tem compromisso à tarde, não esqueça. Dalila se sentou na cama, o sorriso sumindo aos poucos. — Que compromisso? — Um almoço com a família do doutor Henrique. O filho dele voltou de viagem… é uma ótima companhia pra você. Dalila já entendeu. Mais uma tentativa de “encaixar” ela na vida perfeita. — Eu não quero ir — disse, direto. A mãe travou por um segundo. — Não é sobre querer, Dalila. É sobre o que é melhor pra você. Dalila respirou fundo, segurando a irritação. — Ou o que é melhor pra vocês? O clima pesou. — Cuidado com o tom — disse a mãe, mais fria. — Você sabe o que representa essa família. Dalila desviou o olhar. Mas dessa vez… ela não concordou. Do outro lado da cidade, Pablo acordava mais tarde. A cabeça ainda pesada da noite anterior, mas o corpo já acostumado com aquela rotina intensa. Ele levantou, passou água no rosto e ficou alguns segundos se olhando no espelho. — Foco… — murmurou. Logo alguém bateu no portão. — Pablo! — gritou uma voz do lado de fora. Ele abriu. — Timóteo quer você lá. Pablo assentiu. — Já tô indo. Minutos depois, ele entrou no mesmo lugar de sempre. Mas dessa vez, o clima era mais tranquilo. Timóteo estava sentado, tomando café, como se nada tivesse acontecido nos últimos dias. — Chegou — disse ele, sem olhar. Pablo se aproximou. — Mandou chamar. Timóteo fez um gesto pra ele sentar. — Senta. Hoje não é bronca… nem teste pesado. Pablo estranhou, mas sentou. Timóteo apoiou os braços na mesa. — Eu tô expandindo umas coisas… abrindo mais espaço, mais movimento. Olhou direto pra Pablo. — E tô precisando de alguém de confiança pra cuidar de uma parte. Pablo ficou atento. — Que parte? — Organização. Dinheiro entrando, saindo… gente trabalhando… tudo funcionando sem erro. Aquilo não era pequeno. Era responsabilidade grande. — E por que eu? — perguntou Pablo. Timóteo deu um leve sorriso. — Porque você não age por impulso. E sabe observar antes de agir. Pablo ficou em silêncio por um segundo. — E o que eu ganho com isso? Timóteo se inclinou levemente. — Mais espaço. Mais dinheiro… e mais poder. A proposta era clara. Pablo assentiu devagar. — Eu faço. Timóteo bateu de leve na mesa. — Eu sabia. Horas depois, Pablo já estava circulando, começando a assumir essa nova posição. Mais respeito. Mais olhares. Mais responsabilidade. Mas também… mais risco. Enquanto isso, Dalila estava sentada no tal almoço. Ambiente chique, conversas ensaiadas… exatamente como sempre. O tal “filho perfeito” falava sobre viagens, estudos, planos… tudo muito correto. E completamente sem graça. Dalila sorria por educação… mas por dentro, só pensava em outra coisa. No baile. Na sensação de ontem. Na liberdade. Ela pegou o celular discretamente debaixo da mesa. Uma nova mensagem no grupo: “Hoje à noite tem outro 👀” O coração dela acelerou. Ela levantou os olhos, olhando aquela mesa… aquelas pessoas… aquela vida. E tomou uma decisão ali mesmo. Uma pequena… mas perigosa decisão. Respondeu: “Eu vou.” Guardou o celular. E, pela primeira vez naquele ambiente… Sorriu de verdade. Sem saber que, naquela mesma noite. O jantar ainda nem tinha terminado quando Dalila já tinha tudo planejado na cabeça. Ela mantinha a postura, sorria quando precisava, respondia com educação… mas por dentro, só pensava em como sair dali. Quando finalmente chegaram em casa, a mãe ainda tentou puxar conversa: — Você se comportou bem hoje. O Henrique pareceu interessado… Dalila forçou um sorriso. — Que bom. — Amanhã podemos— — Eu tô cansada, mãe — interrompeu, já subindo as escadas. — Vou descansar. Sem esperar resposta, entrou no quarto e fechou a porta. O coração começou a acelerar. Era agora. Ela foi direto pro guarda-roupa, abrindo sem pensar duas vezes. Dessa vez, não olhou nem de longe as roupas “certas”. Pegou algo mais justo, mais ousado… algo que combinava com o que ela tinha sentido na noite anterior. Se trocou rápido. Depois foi até a janela. Olhou pra fora. O jardim… o muro alto… o portão fechado. Respirou fundo. — Você consegue… — sussurrou pra si mesma. Pegou o celular. “Já tô indo”, mandou no grupo. A resposta veio na hora: “Estamos te esperando!” Dalila abriu a porta do quarto devagar, prestando atenção em qualquer som pela casa. Silêncio. Desceu as escadas na ponta dos pés, evitando qualquer barulho. Cada passo parecia mais alto do que realmente era. Passou pela sala… Nada. Cozinha… Vazia. Chegou até a porta dos fundos. Parou por um segundo. Aquilo era novo pra ela. Errado… perigoso… mas também emocionante. Um leve sorriso apareceu. Ela abriu. Saiu. Minutos depois, já do lado de fora, encontrou as amigas na esquina. — EU NÃO ACREDITO! — disse Verônica, rindo e abraçando ela. — Você veio mesmo! Dalila riu, ainda com a adrenalina no corpo. — Eu falei que vinha. — E seus pais? — Acham que eu tô dormindo. As meninas se entreolharam, animadas. — Hoje você vai viver de verdade então — disse uma delas. Dalila sorriu. — Hoje… eu vou. O caminho até o baile parecia mais rápido dessa vez. Talvez porque ela já sabia o que esperar. Ou talvez porque estava ansiosa demais. Quando o som começou a ficar alto, o coração dela acelerou de novo. Mas dessa vez… não era nervosismo. Era vontade. Quando chegaram, o cenário já estava tomado pela energia da noite. Luzes, música, gente dançando… tudo intenso, vivo. Dalila nem parou na entrada. Entrou direto. Como se já fizesse parte daquilo. As amigas riram. — Olha ela! Dalila começou a dançar, se soltando mais rápido que da última vez. O corpo acompanhava o ritmo, o sorriso vinha fácil. E, como antes… Os olhares começaram. Mas agora ela não estranhava. Ela gostava.
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