A noite tinha sido leve.
Boa de verdade.
Daquelas que a gente ri sem perceber o tempo passar, que o vinho vira parte da conversa e, quando vê, já passou da hora de ir embora… mas ninguém quer.
Na volta pra casa, eu e a Sophia estávamos em sintonia.
Nem precisava falar muito. Os olhares diziam tudo. Um sorriso aqui, outro ali… como se só existisse nós dois dentro daquele carro, como se o resto do mundo tivesse ficado pra trás.
Quando entramos em casa, o silêncio veio… mas não incomodou.
Era um silêncio cheio.
Cheio da gente.
Eu puxei ela pela cintura, e ela sorriu daquele jeito que eu já conheço. Como se já soubesse o que ia acontecer.
O beijo começou calmo.
Lento.
Mas foi ficando intenso… mais forte… mais verdadeiro.
Como se a gente precisasse sentir aquilo.
Como se fosse só nosso.
E, naquele momento… era mesmo.
Depois, deitados, ainda próximos, sentindo um ao outro, Sophia passou a mão pelo meu peito e se levantou.
— Vou tomar um banho… já volto.
— Vai lá… — respondi, ainda meio perdido naquele clima.
Ela entrou no banheiro, e o som do chuveiro começou.
O quarto ficou em silêncio.
E foi aí que tudo mudou.
O celular dela, ali do lado da cama… acendeu.
Eu olhei.
Fiquei alguns segundos só olhando.
Sabendo que não devia.
Mas… fui.
Peguei o celular.
A tela ainda estava acesa.
Mensagem.
De Mateus.
Meu coração acelerou na hora.
Eu abri.
“Gostei muito de hoje… mas confesso que não consegui parar de reparar na Sophia.”
Eu senti meu corpo gelar.
De verdade.
Fiquei parado, olhando praquilo… como se, de alguma forma, as palavras fossem mudar.
Mas não mudaram.
E aquilo começou a crescer dentro de mim.
Um incômodo.
Uma dúvida.
Algo que eu não queria sentir… mas já estava ali.
O som do chuveiro continuava.
E, pela primeira vez naquela noite…
Eu não estava mais tranquilo.
Respirei fundo.
Apaguei a conversa.
Sem pensar muito.
Coloquei o celular no mesmo lugar.
E me joguei na cama.
Tentando fingir que nada tinha acontecido.
Mas tinha.
E eu sabia.
Quando Sophia saiu do banheiro, com o cabelo molhado, aquele sorriso leve de sempre… eu fiz o possível pra parecer normal.
— Já deitou?
— Já… tô cansado.
Ela deitou ao meu lado, encostou em mim.
Silêncio.
Mas agora… diferente.
— Você tá estranho… aconteceu alguma coisa?
Eu pensei em falar.
Por um segundo.
Mas não falei.
— Não… coisa do trabalho.
Ela me olhou… daquele jeito que parece enxergar mais do que eu digo.
Mas só assentiu.
— Tá bom… mas se quiser falar…
— Eu sei.
Mas eu não falei.
E naquela noite…
Eu não dormi.
Fiquei olhando pro teto, com aquela frase repetindo na minha cabeça.
“Não consegui parar de reparar na Sophia…”
De novo.
E de novo.
E de novo.
Cada vez mais pesada.
Era só um comentário?
Ou tinha mais ali?
E ela…
Será que percebeu?
Será que gostou?
Aquilo começou a me consumir.
Devagar… mas constante.
No dia seguinte, acordei antes do normal.
Quase não comi.
Sophia tentou puxar assunto… mas eu não tava presente.
— Tem certeza que tá tudo bem?
— Tô… só coisa do banco.
Nem eu acreditava nisso.
No trabalho, então…
Pior ainda.
Eu, que sempre resolvo tudo… não conseguia focar.
Errei coisa simples.
Perdi linha de raciocínio.
Fiquei encarando o nada.
A imagem dela… a mensagem dele…
Não saíam da minha cabeça.
E a desconfiança…
Crescendo.
Silenciosa.
Pesada.
E pela primeira vez em muito tempo…
Eu senti que algo dentro de mim estava mudando.
Com ele.
E talvez… com ela também.
No dia seguinte, meu celular tocou cedo.
Quando vi o nome…
Mateus.
Pensei em não atender.
Mas atendi.
— Fala, irmão!
Como se nada tivesse acontecido.
— Tô indo pra casa de praia hoje… vem com a Sophia. Vai ser bom relaxar.
Fiquei em silêncio por um instante.
A mensagem veio na hora.
Mas mesmo assim…
— Pode ser… vou falar com ela.
Quando contei, Sophia sorriu na hora.
— Eu topo! Vai ser ótimo.
Assenti.
Mas por dentro… eu já não tava em paz.
Horas depois, estávamos na estrada.
Por fora, tudo normal.
Por dentro…
Eu tava atento a tudo.
Cada detalhe.
Cada palavra.
Quando chegamos, Mateus veio como sempre.
Abraço forte.
Sorriso fácil.
— Que bom que vieram!
E lá estava ela também.
A mesma mulher da outra noite.
Bonita.
Confiante.
Daquelas que chamam atenção sem esforço.
— Prazer de novo — ela disse pra Sophia.
Eu observei.
Tudo.
O jeito que Mateus falava.
O jeito que Sophia respondia.
Os olhares.
Os gestos.
Nada parecia errado.
E isso…
Era o que mais me incomodava.
A tarde foi passando.
Sol, piscina, bebida… risadas.
Mateus brincava.
Sophia ria.
Tudo parecia leve.
Mas eu…
Eu não conseguia desligar.
Segurava o copo… mas nem bebia direito.
Meu olhar ia de um pro outro o tempo todo.
Antes, aquela leveza dela me encantava.
Agora… me incomodava.
Em um momento, Sophia levantou pra pegar gelo na cozinha. A mulher foi junto com ela.
Ficamos só eu e o Mateus.
Silêncio.
Curto.
Pesado.
— E aí… tá quietão hoje, hein — ele disse, bebendo.
— Só cansado.
Ele me olhou por um segundo.
Como se tivesse percebido.
Mas não insistiu.
— Relaxa, cara… aproveita.
Assenti.
Mas relaxar era a última coisa que eu conseguia fazer.
Quando elas voltaram, rindo, conversando… eu observei de novo.
O jeito que Sophia se aproximou.
O sorriso.
A naturalidade.
E, por um instante…
Eu cruzei o olhar com o Mateus.
E naquele segundo…
Eu senti.
Tinha alguma coisa ali.
Talvez só na minha cabeça.
Talvez não.
Mas uma coisa era certa…
Eu já não era mais o mesmo de antes.
E, a partir dali…
Eu sabia que não ia conseguir simplesmente ignorar o que estava começando a crescer dentro de mim.