A música batia tão forte que parecia dentro de mim.
Grave. Luz. Gente.
Tudo misturado.
Eu já não pensava mais em nada… nem nos meus pais, nem na casa, nem nas regras. Era só o momento. Eu dançava, ria com as meninas, sentia o corpo leve… livre.
Livre de verdade.
— Agora sim! — gritou Verônica no meu ouvido, rindo.
Eu ri também, jogando o cabelo pra trás.
— Eu precisava disso!
E precisava mesmo.
Pela primeira vez… eu não estava sendo observada, julgada, moldada.
Eu só… estava vivendo.
Mas, em algum momento…
Algo mudou.
Não foi a música.
Nem o lugar.
Foi sensação.
Aquela mesma de antes.
Como se alguém estivesse me olhando.
Eu virei o rosto devagar… tentando entender.
E vi.
Ele.
Pablo.
Parado mais afastado, no meio da multidão… mas diferente de todo mundo. O olhar fixo, sério, como se nada ali realmente o distraísse.
E… ele estava olhando pra mim.
De novo.
Meu coração falhou por um segundo.
Eu não sei explicar.
Mas tinha algo naquele olhar…
Que prendia.
Que desafiava.
Que mexia comigo de um jeito estranho.
Eu desviei o olhar primeiro.
Mas senti.
Ele continuou.
— Amiga… — disse Verônica, me cutucando. — Ele tá aqui de novo.
— Eu vi — respondi, tentando parecer normal.
— Você vai falar com ele?
Antes que eu pudesse responder…
Meu celular vibrou.
Eu nem ia olhar.
Mas vibrou de novo.
E de novo.
Algo dentro de mim gelou.
Eu puxei o aparelho do bolso.
“Pai”
O mundo pareceu parar.
— Não… — sussurrei.
— O que foi? — perguntou uma das meninas.
Eu mostrei a tela.
— Meu pai.
O celular continuava vibrando na minha mão.
Insistente.
Pesado.
Errado.
— Atende! — disse Verônica.
— Aqui não — respondi na hora, já sentindo o desespero subir. — Eu não posso atender aqui!
Parou.
Por um segundo.
E começou de novo.
Meu coração disparou.
— A gente precisa sair — falei rápido. — Agora.
— Vamos!
A gente começou a se mover no meio da multidão, empurrando, desviando, tentando sair o mais rápido possível.
A música parecia mais alta agora.
Ou talvez fosse só o meu coração.
Eu olhei uma última vez por cima do ombro…
E vi.
Pablo.
Ainda lá.
Observando.
Ele percebeu.
Eu tinha certeza.
Mas eu não parei.
Quando finalmente saímos do baile, o silêncio da rua bateu estranho depois de tanto barulho.
Eu parei, tentando recuperar o ar.
As mãos tremendo.
O celular ainda tocando.
— Atende agora — disse Verônica, mais séria.
Eu respirei fundo.
Uma vez.
Duas.
E atendi.
— Alô…
— ONDE VOCÊ ESTÁ?! — a voz do meu pai veio como um soco.
Eu fechei os olhos na hora.
— Pai, calma—
— NÃO ME PEDE CALMA! VOCÊ SUMIU DE CASA!
Minha garganta secou.
Eu tentei pensar.
Rápido.
— Eu… eu saí porque a Verônica não tava bem… ela passou m*l…
Eu olhei pra ela de canto de olho.
Ela me encarou, sem falar nada.
— E você achou que podia sair escondida por causa disso?! — ele continuou, furioso.
— Eu não quis acordar vocês… já era tarde… — minha voz saiu mais baixa, mais controlada. — A gente acabou dormindo… mas eu já tô indo pra casa.
Silêncio.
Do outro lado.
Pesado.
Aquele tipo de silêncio que dá mais medo do que grito.
— Você tem cinco minutos pra entrar nesse carro — ele disse, frio. — Ou eu vou até aí.
A ligação caiu.
Eu fiquei parada.
O celular ainda na mão.
O coração fora do ritmo.
— Dalila… — disse Verônica, mais baixa agora. — Isso deu r**m.
Eu respirei fundo.
Tentando me segurar.
— Eu sei.
Mas, mesmo assim…
Antes de entrar no carro…
Eu olhei.
Instintivo.
Pro lado do baile.
E, mesmo de longe…
Eu vi ele.
Pablo.
Parado.
Observando.
Em silêncio.
Como se já soubesse…
Que aquilo não ia terminar bem.
O caminho até em casa nunca pareceu tão longo.
Pareço que eu nunca tinha dirigido tão de vagar,as luzes passavam rápidas, borradas… assim como meus pensamentos.
Meu coração ainda estava acelerado.
Minha mão ainda tremia um pouco.
E a única coisa que não saía da minha cabeça era:
“O que eu vou falar?”
Segurei firme no volante, respirando fundo.
— Pensa, Dalila… pensa…
Eu podia mentir.
Já estava mentindo.
Era só continuar.
“Verônica passou mal.”
“A gente ficou lá.”
“Eu não quis acordar vocês.”
Simples.
Fácil.
Seguro.
…mentira.
— Eles não vão acreditar… — sussurrei.
E eu sabia disso.
Eles já tinham visto.
A roupa.
A maquiagem.
O horário.
Nada batia.
Nada fazia sentido.
Eu passei a mão no rosto, nervosa.
— Então fala a verdade?
A ideia veio… e ficou.
Pesada.
Perigosa.
Se eu falasse…
Acabava tudo.
Confiança. Liberdade. Qualquer chance de sair de casa.
Eles iam me prender de vez.
Controlar cada passo.
Cada respiração.
Eu encostei a cabeça no banco, sentindo o peito apertar.
— Mas eu já não tô presa?…
O silêncio dentro do carro respondeu por mim.
Eu lembrei do baile.
Da música.
Da sensação.
Do jeito que eu me senti… viva.
De verdade.
E então…
Eu lembrei dele.
Pablo.
O olhar.
O jeito que ele falou comigo.
— “Você não devia estar aqui.”
Eu franzi levemente a testa.
— Quem é você…? — murmurei, mais uma vez.
Ele não parecia assustado.
Não parecia perdido.
Ele parecia… acostumado.
Como se aquele mundo fosse dele.
E, de alguma forma…
Aquilo me puxava.
Mesmo eu sabendo que não devia.
O carro fez uma curva.
E eu reconheci a rua.
Minha casa estava perto.
Meu estômago revirou na hora.
— Não… ainda não…
Eu queria mais tempo.
Mais alguns minutos pra decidir.
Mas não tinha.
Nunca tinha.
— Tá… pensa — falei comigo mesma, em voz baixa.
Opção um: mentir até o fim.
Opção dois: falar a verdade e enfrentar tudo.
Opção três…
Eu parei.
Não tinha terceira opção.
Sempre era isso.
Obedecer.
Ou enfrentar.
E, pela primeira vez…
Eu não queria obedecer.
Mas também não sabia se estava pronta pra enfrentar tudo.
O carro diminuiu a velocidade.
O portão da minha casa já estava à vista.
Iluminado.
Imponente.
Como sempre.
Mas, dessa vez…
Parecia diferente.
Parecia…
um limite.
Eu respirei fundo.
Sentindo o coração bater forte no peito.
— Seja o que for… acabou.
Não dava mais pra voltar atrás.
Não dava mais pra fingir que eu era a mesma.
Eu não era.