Capítulo 22

1293 Words
O portão abriu devagar… e, naquele momento, eu já sabia. Nada ia terminar bem. O carro entrou na garagem e, quando eu levantei os olhos, eles estavam lá. Me esperando. Meu pai em pé, com aquela postura rígida de sempre. Minha mãe ao lado, braços cruzados, o olhar já cheio de julgamento. Eu respirei fundo antes de abrir a porta. Mas quando desci… Eu senti. O olhar deles mudou na hora. Desceu pelo meu corpo inteiro. Short curto. Top. Maquiagem. Ali… acabou qualquer chance de acreditarem em mim. — Então… — a voz do meu pai veio baixa, controlada. — Era assim que você estava “ajudando sua amiga”? Eu engoli seco, mas levantei o queixo. — Pai— — NÃO MENTE PRA MIM! — ele gritou. O som da voz dele bateu direto no meu peito. Minha mãe se aproximou, a expressão dura. — Você saiu escondida, no meio da noite, vestida desse jeito… e acha que vamos acreditar nisso? Naquele momento… alguma coisa dentro de mim virou. Eu cansei. — Eu não sou obrigada a dar satisfação de tudo! — eu disse, antes mesmo de pensar. O silêncio foi pesado. — Enquanto você morar nessa casa… é sim — meu pai respondeu, frio. Eu ri, sem humor nenhum. — Claro… porque aqui eu não vivo. Eu obedeço. O olhar dele escureceu. — Onde você estava? Eu hesitei. Por um segundo. Mas depois… — Num baile. Eu vi o impacto. Minha mãe levou a mão à boca, chocada. — Você tá andando em morro agora, Dalila?! — ela disse, quase sem acreditar. E eu só pensei… “E daí?” — E se eu estiver? — respondi. Meu pai deu um passo na minha direção. — Você perdeu completamente o juízo?! — Não! — minha voz saiu mais alta do que eu esperava. — Eu só tô cansada! — Cansada de quê?! — ele retrucou. — De ter tudo?! Aquilo me fez rir. Mas não foi um riso leve. Foi amargo. — Tudo? — repeti. — Vocês chamam isso de tudo? Eu apontei ao redor. — Isso aqui é uma prisão bonita! Tudo é sobre aparência! Sobre nome! Sobre o que os outros vão pensar! Minha mãe tentou intervir: — Isso é responsabilidade— — Não! — eu cortei. — Isso é viver uma vida que não é minha! Minha respiração estava pesada. Meu coração acelerado. Mas eu não ia parar. Não dessa vez. — Lá fora… — eu disse mais baixo, mas mais firme — as pessoas vivem de verdade. Meu pai riu, desacreditado. — Aquilo não é vida. Aquilo é perigo. Eu segurei o olhar dele. — Pelo menos é real. O silêncio que veio depois… Foi diferente. Pesado. Final. — A partir de hoje — ele disse, controlando cada palavra — você não sai mais sem nossa autorização. Eu fechei os olhos por um segundo. Respirei. Quando abri… Eu já não era mais a mesma. — A gente vai ver. Eu virei as costas. E subi. Sem pedir. Sem olhar pra trás. Quando entrei no meu quarto, fechei a porta com força. Meu corpo ainda tremia. Eu caminhei até a cama… e me joguei. Olhando pro teto. Tentando entender o que eu tinha acabado de fazer. Mas, no fundo… Eu sabia. Eu não podia mais voltar. Eu me joguei na cama como se meu corpo inteiro tivesse desistido de funcionar. O teto branco parecia me encarar… silencioso demais depois de tudo. A discussão ainda ecoava na minha cabeça. A voz do meu pai. O olhar da minha mãe. As palavras que eu nunca tinha tido coragem de dizer… e que agora eu não podia mais tirar de volta. Eu fechei os olhos por um segundo. — O que eu fiz… — murmurei. Mas, no fundo… Eu sabia. Eu só parei de fingir. Meu celular vibrou do meu lado. Eu nem precisei olhar pra saber quem era. Verônica. Atendi na hora. — Amiga, o que aconteceu?! — a voz dela veio rápida, preocupada. — Você saiu correndo e depois sumiu! Eu soltei um suspiro longo, passando a mão no rosto. — Deu tudo errado… — Seus pais descobriram? Eu ri sem humor. — Descobriram nada… eles já estavam me esperando. — Mentira… — Queria que fosse — respondi, olhando pro teto. — Meu pai tava lá, parado… minha mãe também… parecia até cena de filme. — E aí?! Eu virei de lado na cama, abraçando o travesseiro. — Aí veio o interrogatório… gritos… aquela coisa de sempre. Só que pior. — Você contou? Eu hesitei por um segundo. — Contei. — Dalila… você tá louca? — Talvez — respondi, com um leve sorriso cansado. — Mas eu não aguentava mais mentir. O silêncio do outro lado da linha durou um instante. — E o que eles fizeram? — Me proibiram de sair… como sempre — disse, revirando os olhos. — Mas agora tá mais pesado. — Eu imagino… Eu fiquei quieta por um momento, encarando o nada. — Eu falei tudo que eu penso, Verônica. — Tudo tipo… tudo mesmo? — Tudo — confirmei. — Que eu tô cansada… que aquela vida não é minha… que eu quero viver. Ela soltou um riso baixo. — Caramba… você mudou mesmo. Eu fiquei em silêncio. Porque, pela primeira vez… Eu senti que era verdade. — Tá… mas agora me responde uma coisa — disse ela, mudando o tom. Eu já conhecia aquela voz. Curiosa. — O quê? — Quem era aquele cara? Eu franzi a testa, mesmo sabendo exatamente de quem ela tava falando. — Que cara? — Não se faz de doida! — ela riu. — O do baile! O que falou com você… que te puxou… que ficou te mandando ir embora! Meu coração deu uma batida mais forte. Do nada. A imagem veio na minha cabeça na hora. O olhar dele. Forte. Direto. Como se ele estivesse sempre vendo além. Eu engoli seco. — Eu não sei. — Como assim você não sabe?! — Eu não conheço ele — respondi, sincera. — A gente só… se falou lá. — Amiga… — a voz dela ficou mais séria. — Ele não é qualquer um. Eu me sentei na cama, interessada sem querer demonstrar. — Como você sabe? — Dá pra ver! — ela disse. — O jeito dele… ninguém chega daquele jeito e fala com todo mundo como se mandasse ali. Eu fiquei em silêncio, lembrando. Era verdade. Ele não parecia parte daquilo… Ele parecia… acima daquilo. — Ele parecia diferente — eu disse, mais pra mim mesma do que pra ela. — Diferente como? Eu demorei um pouco pra responder. Tentando entender o que eu tinha sentido. — Como se ele estivesse sempre no controle… mas ao mesmo tempo… distante. Verônica soltou um “hmm” do outro lado. — E você gostou. Eu revirei os olhos automaticamente. — Para com isso. — Gostou sim — ela insistiu, rindo. — Eu vi o jeito que você olhou pra ele! Eu deixei escapar um sorriso… mas logo balancei a cabeça. — Não é isso. — Então é o quê? Eu fiquei quieta. Pensando. Sentindo. Sem saber explicar direito. — Eu só… fiquei curiosa. — Curiosidade em homem assim dá problema, viu — ela disse. Eu me joguei de volta na cama. — Minha vida já tá um problema mesmo. — E você ainda quer voltar? Eu nem precisei pensar. — Quero. O silêncio veio… mais pesado dessa vez. — Então se prepara — disse Verônica, mais séria. — Porque da próxima vez… não vai ser igual. Eu fiquei olhando pro teto. Sabendo que ela tinha razão. Mas, mesmo assim… Eu queria. Queria aquele mundo de novo. Queria aquela sensação. E, sem conseguir evitar… Queria entender… Quem era ele.
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