Capítulo 19

911 Words
Capítulo Dalila Eu não consegui me concentrar em nada o dia inteiro. Era como se meu corpo estivesse ali… mas minha cabeça não. As vozes ao meu redor pareciam distantes, as conversas sem sentido. Minha mãe falando sobre compromissos, meu pai no telefone resolvendo coisas importantes… e eu só existindo no meio disso tudo. Mas por dentro? Um caos. Porque, pela primeira vez em muito tempo… alguma coisa tinha me despertado. E eu sabia exatamente o quê. Ou melhor… Quem. Pablo. Só de pensar no nome, senti um arrepio leve subir pela minha pele. Fechei os olhos por um segundo, tentando afastar aquilo. — Você nem conhece ele… — murmurei pra mim mesma. Mas não adiantava. Porque não era sobre conhecer. Era sobre sentir. E eu senti. De um jeito que eu nunca tinha sentido antes. Levantei da cama e fui até o espelho. Fiquei me olhando por alguns segundos, em silêncio. A imagem era a mesma de sempre. Cabelo arrumado. Roupa perfeita. Tudo no lugar. Mas… não parecia mais eu. Ou talvez… Nunca tenha sido. — Dalila! — a voz da minha mãe veio do andar de baixo. — Você tem compromisso mais tarde, não esqueça! Revirei os olhos, mesmo sabendo que ela não podia ver. — Já sei! — respondi, sem esconder o desânimo. Mais um compromisso. Mais um jantar. Mais gente importante. Mais sorrisos falsos. Suspirei fundo, encostando a mão na penteadeira. — Até quando…? — sussurrei. Peguei o celular quase sem pensar. O grupo das meninas já estava cheio de mensagens. “Hoje tem de novo 👀” “Você vem, né?” “Dalila, tu não pode furar!” Meu coração acelerou. Fiquei alguns segundos olhando pra tela. Sabia o que aquilo significava. Mentir de novo. Sair escondida. Desobedecer tudo que me ensinaram. Mas, ao mesmo tempo… Viver. De verdade. Mordi levemente o lábio, sentindo a decisão se formar dentro de mim. “Eu vou.” Enviei. E, dessa vez… Não me arrependi nem por um segundo. A tarde passou arrastada. O tal compromisso foi exatamente como eu esperava: entediante, previsível, sufocante. Pessoas falando de coisas que eu não me importava. Risadas calculadas. Olhares avaliando cada detalhe meu. — Você está linda — disse uma mulher, sorrindo de forma ensaiada. — Obrigada — respondi, automática. Mas por dentro? Vazia. Olhei ao redor da mesa. Tudo perfeito. Tudo no lugar. Tudo… sem vida. E, sem perceber, minha mente fugiu. Pro som alto. Pra liberdade. Pra sensação de estar no meio de algo real. E então… Pra ele. Balancei a cabeça de leve, tentando disfarçar. — Está tudo bem? — minha mãe perguntou, observando. — Tá sim — respondi rápido demais. Ela não pareceu convencida. Mas também não insistiu. Melhor assim. Quando finalmente cheguei em casa, a única coisa que eu queria era sair de novo. Subi pro quarto sem dar muita conversa. — Eu tô cansada — falei, antes que minha mãe começasse qualquer coisa. — Tudo bem — respondeu ela. — Descanse. Mal sabia ela… Sorri sozinha assim que fechei a porta. Fui direto pro guarda-roupa. Mas dessa vez, não olhei pras roupas “certas”. Ignorei tudo aquilo. Peguei algo que combinava comigo… ou com quem eu estava me tornando. Mais leve. Mais ousado. Mais… eu. Me troquei rápido. Fui até o espelho de novo. E dessa vez, quando me olhei… Eu me reconheci um pouco mais. — Agora sim… — murmurei. Esperei o momento certo. A casa ficou em silêncio. Meus pais ocupados. O mundo perfeito deles funcionando como sempre. E eu? Saindo dele. Abri a porta devagar, sem fazer barulho. Desci as escadas na ponta dos pés. Cada passo parecia alto demais. Meu coração batia forte. Mas não de medo. De adrenalina. Passei pela sala. Nada. Cozinha. Vazia. Cheguei até a porta dos fundos. Parei por um segundo. Respirei fundo. — Vai… — sussurrei pra mim mesma. E fui. Minutos depois, já na rua, encontrei as meninas. — EU NÃO ACREDITO! — Verônica veio correndo, me abraçando. — Você veio mesmo! Eu ri, ainda sentindo a adrenalina. — Eu falei que vinha. — E seus pais? — Acham que eu tô dormindo. As meninas riram, animadas. — Hoje você tá perigosa — disse uma delas. Sorri. — Hoje eu tô viva. O caminho até o baile parecia mais curto dessa vez. Ou talvez fosse só a minha vontade. Quando o som começou a ficar alto, meu coração acelerou de novo. Mas não era nervosismo. Era expectativa. Quando entrei… Tudo voltou. A música. As luzes. As pessoas. A energia. Mas dessa vez… eu não me senti deslocada. Eu me senti parte. Comecei a dançar quase na mesma hora. Sem pensar. Sem medo. Sem me preocupar com quem estava olhando. E, claro… Os olhares vieram. Mas agora? Eu não me incomodava. Eu gostava. Porque, ali… Eu não era a filha perfeita. Não era a imagem da família. Não era a menina controlada. Ali… Eu era só eu. E pela primeira vez… Isso era mais do que suficiente. Mas no meio de tudo isso… Eu senti. Aquela sensação de novo. Como se alguém estivesse me observando. Meu corpo reagiu antes da minha mente. Virei o rosto devagar. E procurei. Sabendo exatamente o que ia encontrar. E quando encontrei… Meu coração disparou. Ele. De novo. Pablo. Do outro lado. Me olhando. Do mesmo jeito. Firme. Direto. Sem desviar. E, naquele instante… Nada mais importou. Nem a música. Nem as pessoas. Nem o mundo. Só aquele olhar.
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