Pablo
Eu vi quando ela entrou.
Não foi difícil.
No meio de tanta gente, de tanto movimento… ela ainda conseguia se destacar.
Como se não pertencesse àquele lugar.
Mas, ao mesmo tempo…
Como se estivesse começando a pertencer.
Fiquei parado por um instante, só observando.
Ela já não tava mais travada como da primeira vez.
Tava solta.
Rindo, dançando, se deixando levar pelo som.
E isso chamou mais atenção ainda.
— É ela, né? — um dos caras comentou do meu lado.
Nem respondi na hora.
Continuei olhando.
Analisando.
— Nunca vi por aqui antes — ele continuou.
— Nem eu — falei, seco.
Mas não desviei o olhar.
Porque tinha alguma coisa ali.
Alguma coisa diferente.
E eu não gostava de coisa que eu não entendia.
Passei a mão no queixo, pensativo.
— Fica de olho no movimento — falei pro cara, sem tirar os olhos dela.
— Já é.
Mas eu já não tava mais focado no movimento.
Tava nela.
Errado.
Eu sabia.
Mas mesmo assim…
Continuei.
Ela tava dançando com as amigas, rindo de alguma coisa, completamente à vontade.
E isso me pegou.
Porque ninguém ali ficava assim… de verdade.
Sempre tinha segunda intenção.
Sempre tinha interesse.
Mas nela…
Parecia diferente.
Ou talvez eu que tava querendo ver assim.
Soltei o ar devagar.
— Para com isso… — murmurei pra mim mesmo.
Não era o tipo de distração que eu podia ter.
Não naquele momento.
Não naquela vida.
Mas aí…
Ela parou.
Por um segundo.
E virou.
Direto pra mim.
Como se sentisse.
Como se soubesse.
E quando nossos olhos se encontraram…
Já era.
Não desviei.
Nem ela.
Ficamos assim por alguns segundos.
Sem pressa.
Sem disfarçar.
E aquilo disse mais do que qualquer palavra.
— Quer que eu chame? — o cara perguntou de novo.
Balancei a cabeça na hora.
— Não.
Dei um leve sorriso de canto.
— Deixa.
Porque eu queria ver.
Queria entender.
Até onde ela ia.
Até onde aquilo ia.
E não demorou.
Ela começou a andar.
Na minha direção.
Sem olhar pros lados.
Sem hesitar.
Passo por passo.
Firme.
Aquilo me fez prestar mais atenção ainda.
A maioria ali vinha com intenção clara.
Ela não.
Ela vinha como se… só estivesse seguindo.
Quando ela parou na minha frente, eu já sabia:
Aquilo não era comum.
Nem pra mim.
Nem pra ela.
— Você de novo — ela falou.
Direta.
Sem medo.
Soltei um meio sorriso.
— Você também.
Fiquei olhando por mais um segundo.
De perto, dava pra ver melhor.
Jeito, roupa, postura…
Ela não era dali.
Nem de perto.
— Você vem sempre aqui agora? — perguntei.
Ela cruzou os braços de leve.
— Não sei… tô vendo ainda.
Inclinei a cabeça, analisando.
— Perigoso isso.
— O quê?
— Gostar rápido demais.
Ela sentiu.
Eu vi.
Mas não recuou.
— E você? Também tá aqui.
Soltei um ar leve.
— Eu já tava.
Silêncio.
Mas não aquele silêncio vazio.
Era pesado.
Cheio de coisa por trás.
— Então… — ela começou — você só fica olhando ou fala mais alguma coisa?
Cheguei um pouco mais perto.
Só o suficiente.
Vi o jeito que ela reagiu.
Mas não perdi o controle.
— Depende.
— De quê?
Olhei direto nos olhos dela.
Segurei por um segundo a mais.
E então…
Afastei.
— Do que vale a pena.
E saí.
Sem olhar pra trás.
Sem parar.
Porque eu sabia exatamente o que tava acontecendo ali.
E também sabia…
Que não podia deixar ir além.
Caminhei pelo meio da multidão, como se nada tivesse acontecido.
Mas por dentro?
Já não tava tão tranquilo assim.
Passei a mão no rosto, tentando me recompor.
— i****a… — murmurei baixo.
Aquilo não era pra mim.
Ela não era pra mim.
E quanto mais cedo eu entendesse isso…
Melhor.
Mas, mesmo assim…
Antes de sair de vez da área principal, eu parei.
Só por um segundo.
E olhei.
Ela ainda tava lá.
Parada.
Me olhando.
E foi aí que eu tive certeza:
Aquilo não tinha acabado.
Tava longe disso.
Na verdade…
Tava começando a complicar.
Eu devia ter ido embora dali.
Devia ter seguido a noite como qualquer outra… conferindo o movimento, vendo quem entra, quem sai, resolvendo o que tivesse que resolver.
Mas não fui.
Fiquei.
E isso já dizia muita coisa.
Encostei mais pro lado, perto do bar, peguei outra bebida só pra disfarçar. Dei um gole devagar, mas nem senti o gosto direito.
Minha atenção continuava voltando pra ela.
Sempre.
Como se tivesse um ímã puxando.
— Tá viajando, é? — um dos caras falou do meu lado.
— Tô trabalhando — respondi, automático.
Ele riu.
— Sei…
Ignorei.
Mas não adiantava negar.
Nem pra mim.
Olhei de novo.
Ela já tava dançando outra vez com as amigas, tentando entrar no ritmo como se nada tivesse acontecido.
Mas eu percebi.
Ela não tava igual.
De vez em quando, parava.
Olhava.
Procurava.
Por mim.
Soltei o ar devagar, passando a mão na nuca.
— Já deu… — murmurei.
Mas não saí.
Fiquei ali.
Observando.
Porque, no fundo, eu queria entender até onde aquilo ia.
E foi aí que aconteceu.
Um cara se aproximou dela.
Jeito errado.
Olhar errado.
Mão indo onde não devia.
Eu vi na hora.
Meu corpo reagiu antes da cabeça.
Dei um passo à frente… depois outro.
Sem pensar.
Só indo.
Ela tentou se afastar, mas o cara insistiu, puxando ela pelo braço.
— Qual foi, gatinha, tá se achando?
Ela puxou o braço de volta.
— Me solta.
A voz dela não tremia.
Mas eu vi.
Ela não tava acostumada com aquilo.
E era exatamente isso que me irritou.
Cheguei perto.
Perto demais.
— Perdeu alguma coisa aqui? — falei, firme.
O cara me olhou.
Reconheceu.
Na hora.
Soltou o braço dela.
— Foi m*l, chefe… não sabia que—
— Agora sabe — cortei.
Sem levantar a voz.
Nem precisava.
O clima mudou.
Rápido.
Ele recuou.
Sumiu no meio da multidão como se nunca tivesse estado ali.
Fiquei em silêncio por um segundo.
Olhando pra ela.
Ela ainda tava com a respiração um pouco acelerada… mas firme.
— Tá tudo bem? — perguntei, mais baixo dessa vez.
Ela assentiu.
— Tá.
Mas não saiu.
Nem se afastou.
Ficou ali.
Me olhando.
Mais perto do que antes.
— Você sempre aparece assim? — ela perguntou.
Franzi levemente a testa.
— Assim como?
— Como se resolvesse tudo.
Soltei um leve riso sem humor.
— Não resolvo tudo.
— Resolveu isso.
Dei de ombros.
— Faz parte.
Silêncio de novo.
Mas dessa vez… diferente.
Mais próximo.
Mais perigoso.
— Você não é daqui — falei, direto.
Ela sustentou meu olhar.
— E você já falou isso.
— E continuo certo.
Ela desviou o olhar por um segundo… mas voltou.
— E se eu quiser estar aqui?
Aquilo me fez travar por dentro.
Porque não era só curiosidade.
Tinha decisão ali.
— Então você não sabe onde tá se metendo — respondi, firme.
Ela deu um pequeno passo mais perto.
— Então me diz.
Aquilo me pegou.
Mas eu não podia.
Não devia.
Passei a mão no rosto, olhando pros lados por um segundo… como se precisasse me lembrar de onde eu tava.
— Esse lugar não é pra você — falei mais baixo.
— Por quê?
Olhei direto nos olhos dela.
— Porque gente como você… não sai daqui do mesmo jeito que entrou.
O silêncio caiu entre a gente.
Pesado.
Ela não respondeu na hora.
Mas eu vi.
Aquilo mexeu.
Mesmo assim…
Ela não recuou.
Pelo contrário.
— E você saiu? — perguntou.
A pergunta veio seca.
Direta.
Sem filtro.
Soltei um ar curto, sem responder.
Porque a resposta era óbvia.
Não.
Eu não saí.
Eu me perdi ali.
E ela tava começando a entrar.
Dei um passo pra trás.
Criando distância.
De novo.
— Vai pra casa — falei.
Ela franziu a testa.
— Você sempre manda assim?
— Quando precisa.
— E você acha que eu vou obedecer?
Segurei o olhar dela por mais um segundo.
E então balancei a cabeça de leve.
— Não.
Dei meia volta.
Mas antes de sair completamente, parei só o suficiente pra falar:
— Mas devia.
E fui.
Dessa vez, sem parar.
Sem olhar pra trás.