Capítulo 17

846 Words
Na manhã seguinte, eu acordei com a cabeça ainda pesada da noite anterior. O corpo cansado… mas a mente já ligada. Aqui não tem muito espaço pra ficar parado pensando. Ou você levanta e segue… ou fica pra trás. Joguei uma água no rosto e fiquei alguns segundos me olhando no espelho. Às vezes eu ainda me perguntava como cheguei ali… mas a resposta sempre vinha rápida: escolha. Ou falta dela. — Foco… — murmurei pra mim mesmo, secando o rosto. Nem deu tempo de pensar muito. Bateram no portão. — Pablo! — gritou um dos caras lá de fora. Abri. — Timóteo quer você lá. Só assenti. Nem perguntei o motivo. Aqui, quando o chefe chama, você vai. Me arrumei rápido e desci. O caminho já era conhecido, mas a sensação… diferente. Antes eu andava ali tentando não chamar atenção. Agora, os olhares já eram outros. Mais respeito… mas também mais cobrança. Quando entrei, vi o Timóteo sentado, tomando café como se nada tivesse acontecido nos últimos dias. Como se aquele mundo fosse normal. — Chegou — ele disse, sem nem me olhar. — Mandou chamar. Ele fez um gesto com a mão. — Senta. Hoje não é bronca… nem teste pesado. Aquilo me pegou de surpresa. Mesmo assim, sentei. Timóteo apoiou os braços na mesa, tranquilo… mas dava pra ver que tinha algo ali. — Eu tô expandindo umas coisas… abrindo mais espaço, mais movimento. Levantei o olhar, atento. — E tô precisando de alguém de confiança pra cuidar de uma parte. Aquilo já mudou o peso da conversa. — Que parte? — perguntei. Ele me encarou direto. — Organização. Dinheiro entrando, saindo… gente trabalhando… tudo funcionando sem erro. Fiquei em silêncio por um segundo. Aquilo não era pequeno. Era responsabilidade de verdade. — E por que eu? — perguntei. Ele deu um leve sorriso de canto. — Porque você não age por impulso. E sabe observar antes de agir. Aquilo ficou na minha cabeça. Respirei fundo. — E o que eu ganho com isso? Ele se inclinou levemente, como se já esperasse a pergunta. — Mais espaço. Mais dinheiro… e mais poder. Direto. Sem rodeio. E naquele mundo… isso falava alto. Assenti devagar. — Eu faço. Ele bateu de leve na mesa. — Eu sabia. Saí dali diferente. Não era mais só sobre obedecer. Agora… eu começava a mandar também. Horas depois, já tava no meio do movimento, circulando, observando, organizando. Gente me olhando diferente. Alguns com respeito… outros tentando entender até onde eu tinha ido. Eu sentia. O peso aumentou. Mas junto com ele… veio uma coisa que eu não sentia há um tempo: Controle. Só que junto disso… vinha o risco. Porque quanto mais alto você sobe ali… mais gente quer te ver cair. E no fundo, eu sabia… Aquilo era só mais um passo. E não tinha volta. Enquanto isso. O sol entrou pelas cortinas do quarto de Dalila, mas, diferente de outros dias, ela não acordou com aquela sensação de rotina. Ela abriu os olhos devagar… e a primeira coisa que veio na mente foi o baile. A música. As luzes. A liberdade. Virou de lado na cama, pegando o celular. O grupo das meninas estava cheio de mensagens. “Quando vamos de novo?” “Dalila, você arrasou!” “Tem outro baile sexta 👀” Um leve sorriso apareceu no rosto dela. Mas durou pouco. A porta se abriu sem aviso. — Já acordou? — perguntou a mãe, entrando com aquele tom de sempre. — Hoje você tem compromisso à tarde, não esqueça. Dalila se sentou na cama, o sorriso desaparecendo aos poucos. — Que compromisso? — Um almoço com a família do doutor Henrique. O filho dele voltou de viagem… é uma ótima companhia pra você. Dalila nem precisou pensar muito pra entender. Mais uma tentativa de encaixar ela na vida perfeita. — Eu não quero ir — disse, direta. A mãe parou por um segundo, surpresa com a resposta. — Não é sobre querer, Dalila. É sobre o que é melhor pra você. Dalila respirou fundo, segurando a irritação. — Ou o que é melhor pra vocês? O clima no quarto pesou. — Cuidado com o tom — disse a mãe, mais fria. — Você sabe o que representa essa família. Dalila desviou o olhar. Mas dessa vez… ela não cedeu por dentro. Horas depois, ela estava sentada à mesa do tal almoço. Tudo impecável. Elegante. Perfeito demais. Conversas ensaiadas, risadas contidas, assuntos previsíveis. O tal “filho ideal” falava sobre viagens, estudos, planos de futuro… tudo muito certo. E completamente sem vida. Dalila sorria por educação, respondia quando precisava… mas a mente estava longe dali. Muito longe. Ela pegou o celular discretamente debaixo da mesa. Uma nova mensagem no grupo apareceu: “Hoje à noite tem outro 👀” O coração dela acelerou na hora. Ela levantou os olhos, observando aquela mesa… aquelas pessoas… aquela vida toda organizada. E tomou uma decisão. Pequena… mas perigosa. Digitou rápido: “Eu vou.” Guardou o celular. E, pela primeira vez naquele lugar… Sorriu de verdade.
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