Na manhã seguinte, eu acordei com a cabeça ainda pesada da noite anterior. O corpo cansado… mas a mente já ligada. Aqui não tem muito espaço pra ficar parado pensando. Ou você levanta e segue… ou fica pra trás.
Joguei uma água no rosto e fiquei alguns segundos me olhando no espelho. Às vezes eu ainda me perguntava como cheguei ali… mas a resposta sempre vinha rápida: escolha. Ou falta dela.
— Foco… — murmurei pra mim mesmo, secando o rosto.
Nem deu tempo de pensar muito. Bateram no portão.
— Pablo! — gritou um dos caras lá de fora.
Abri.
— Timóteo quer você lá.
Só assenti. Nem perguntei o motivo. Aqui, quando o chefe chama, você vai.
Me arrumei rápido e desci. O caminho já era conhecido, mas a sensação… diferente. Antes eu andava ali tentando não chamar atenção. Agora, os olhares já eram outros. Mais respeito… mas também mais cobrança.
Quando entrei, vi o Timóteo sentado, tomando café como se nada tivesse acontecido nos últimos dias. Como se aquele mundo fosse normal.
— Chegou — ele disse, sem nem me olhar.
— Mandou chamar.
Ele fez um gesto com a mão.
— Senta. Hoje não é bronca… nem teste pesado.
Aquilo me pegou de surpresa. Mesmo assim, sentei.
Timóteo apoiou os braços na mesa, tranquilo… mas dava pra ver que tinha algo ali.
— Eu tô expandindo umas coisas… abrindo mais espaço, mais movimento.
Levantei o olhar, atento.
— E tô precisando de alguém de confiança pra cuidar de uma parte.
Aquilo já mudou o peso da conversa.
— Que parte? — perguntei.
Ele me encarou direto.
— Organização. Dinheiro entrando, saindo… gente trabalhando… tudo funcionando sem erro.
Fiquei em silêncio por um segundo.
Aquilo não era pequeno.
Era responsabilidade de verdade.
— E por que eu? — perguntei.
Ele deu um leve sorriso de canto.
— Porque você não age por impulso. E sabe observar antes de agir.
Aquilo ficou na minha cabeça.
Respirei fundo.
— E o que eu ganho com isso?
Ele se inclinou levemente, como se já esperasse a pergunta.
— Mais espaço. Mais dinheiro… e mais poder.
Direto.
Sem rodeio.
E naquele mundo… isso falava alto.
Assenti devagar.
— Eu faço.
Ele bateu de leve na mesa.
— Eu sabia.
Saí dali diferente.
Não era mais só sobre obedecer. Agora… eu começava a mandar também.
Horas depois, já tava no meio do movimento, circulando, observando, organizando. Gente me olhando diferente. Alguns com respeito… outros tentando entender até onde eu tinha ido.
Eu sentia.
O peso aumentou.
Mas junto com ele… veio uma coisa que eu não sentia há um tempo:
Controle.
Só que junto disso… vinha o risco.
Porque quanto mais alto você sobe ali… mais gente quer te ver cair.
E no fundo, eu sabia…
Aquilo era só mais um passo.
E não tinha volta.
Enquanto isso.
O sol entrou pelas cortinas do quarto de Dalila, mas, diferente de outros dias, ela não acordou com aquela sensação de rotina.
Ela abriu os olhos devagar… e a primeira coisa que veio na mente foi o baile.
A música. As luzes. A liberdade.
Virou de lado na cama, pegando o celular. O grupo das meninas estava cheio de mensagens.
“Quando vamos de novo?”
“Dalila, você arrasou!”
“Tem outro baile sexta 👀”
Um leve sorriso apareceu no rosto dela.
Mas durou pouco.
A porta se abriu sem aviso.
— Já acordou? — perguntou a mãe, entrando com aquele tom de sempre. — Hoje você tem compromisso à tarde, não esqueça.
Dalila se sentou na cama, o sorriso desaparecendo aos poucos.
— Que compromisso?
— Um almoço com a família do doutor Henrique. O filho dele voltou de viagem… é uma ótima companhia pra você.
Dalila nem precisou pensar muito pra entender.
Mais uma tentativa de encaixar ela na vida perfeita.
— Eu não quero ir — disse, direta.
A mãe parou por um segundo, surpresa com a resposta.
— Não é sobre querer, Dalila. É sobre o que é melhor pra você.
Dalila respirou fundo, segurando a irritação.
— Ou o que é melhor pra vocês?
O clima no quarto pesou.
— Cuidado com o tom — disse a mãe, mais fria. — Você sabe o que representa essa família.
Dalila desviou o olhar.
Mas dessa vez… ela não cedeu por dentro.
Horas depois, ela estava sentada à mesa do tal almoço.
Tudo impecável. Elegante. Perfeito demais.
Conversas ensaiadas, risadas contidas, assuntos previsíveis.
O tal “filho ideal” falava sobre viagens, estudos, planos de futuro… tudo muito certo.
E completamente sem vida.
Dalila sorria por educação, respondia quando precisava… mas a mente estava longe dali.
Muito longe.
Ela pegou o celular discretamente debaixo da mesa.
Uma nova mensagem no grupo apareceu:
“Hoje à noite tem outro 👀”
O coração dela acelerou na hora.
Ela levantou os olhos, observando aquela mesa… aquelas pessoas… aquela vida toda organizada.
E tomou uma decisão.
Pequena… mas perigosa.
Digitou rápido:
“Eu vou.”
Guardou o celular.
E, pela primeira vez naquele lugar…
Sorriu de verdade.