Capítulo 23

1132 Words
Depois que desliguei a ligação com a Verônica, o silêncio do meu quarto pareceu maior do que nunca. Eu deixei o celular de lado e fiquei olhando pro teto. Parada. Sem coragem de pensar… mas pensando em tudo ao mesmo tempo. A discussão com meus pais ainda estava presa na minha cabeça. Cada palavra. Cada olhar. Meu pai gritando. Minha mãe decepcionada. E eu… eu enfrentando os dois pela primeira vez na vida. Eu fechei os olhos devagar. O peito apertou. Porque a verdade é que… eu entendia eles. Talvez esse fosse o pior. Minha mãe cresceu dentro daquele mundo. Aparência, educação, postura, regras… ela aprendeu que precisava ser perfeita pra sobreviver naquele meio. E meu pai… meu pai passou a vida inteira construindo o nome dele. O respeito. A imagem. Eu sabia disso. Sabia que, na cabeça deles, estavam me protegendo. Protegendo a família. Protegendo o futuro que sonharam pra mim. Então por que parecia tão errado? Uma lágrima escorreu antes mesmo que eu percebesse. Eu passei a mão no rosto rapidamente, soltando um riso fraco. — Ótimo… agora eu tô chorando. Mas eu não consegui parar. Porque eu estava cansada. Cansada de tentar ser a filha perfeita. Cansada de sorrir em jantares que eu odiava. Cansada de ouvir o que era “adequado”. Cansada de viver uma vida onde tudo já parecia decidido antes mesmo que eu pudesse escolher. Eu virei de lado na cama, abraçando o travesseiro. E, por alguns segundos… me senti culpada. Culpada pela minha mãe. Porque eu sabia que ela devia estar chorando também. Sabia que ela estava decepcionada. E isso doía. Mas então… eu lembrei do baile. Da música alta. Das pessoas dançando sem medo. Da sensação de liberdade queimando dentro de mim. E meu coração apertou de outro jeito. Porque eu queria aquilo de novo. Mesmo com medo. Mesmo sabendo do risco. Eu queria viver. Queria descobrir coisas novas. Queria sair da bolha onde sempre me prenderam. Queria cometer erros meus. Não viver acertando pelos outros. Eu fiquei olhando pro quarto. Tudo impecável. Perfeito. Frio. Aquela cama enorme. Os móveis caros. As paredes claras. Tudo tão bonito… e eu me sentindo presa dentro daquilo. Engraçado. Passei a vida inteira ouvindo que eu tinha tudo. Mas por que parecia que faltava alguma coisa? Fechei os olhos mais uma vez. E sem querer… lembrei dele. Pablo. O jeito que ele me olhava parecia diferente de todo mundo. Sem falsidade. Sem tentar impressionar. Só… intenso. Eu franzi levemente a testa. Porque aquilo não fazia sentido. Eu nem conhecia ele. Nem sabia quem ele realmente era. Mesmo assim… meu pensamento voltava. Toda hora. — Isso é loucura… — murmurei. Talvez fosse mesmo. Porque tudo naquele mundo era o oposto do meu. E talvez fosse justamente isso que me atraía tanto. Eu respirei fundo, limpando o rosto. Precisava dormir. Precisava esquecer. Precisava voltar ao normal. Mas, no fundo… eu já sabia. Eu não queria mais o normal. E talvez… esse fosse o verdadeiro problema. Eu não lembro exatamente quando dormi. Só lembro de estar olhando pro teto… pensando demais… até meu corpo simplesmente apagar de cansaço. Quando acordei, o quarto estava claro. O sol atravessava as cortinas, iluminando tudo daquele jeito calmo demais que minha casa sempre tinha pela manhã. Mas a calma era só aparência. Porque, dentro de mim… nada estava calmo. Eu fiquei alguns segundos parada na cama, encarando o teto mais uma vez, tentando criar coragem pra descer. Depois da noite anterior… eu não sabia o que esperar. Briga. Silêncio. Indiferença. Talvez tudo junto. Respirei fundo e levantei. Quando cheguei na cozinha, os dois já estavam lá. Meu pai lendo alguma coisa no tablet. Minha mãe tomando café em silêncio. Nenhum dos dois sorriu quando me viram. E eu também não. — Bom dia — falei, baixo. Minha mãe respondeu primeiro: — Bom dia. A voz fria. Controlada. Meu pai apenas levantou os olhos por um segundo antes de voltar pro tablet. O clima estava pesado. Desconfortável. Eu me sentei devagar, pegando uma torrada só pra ocupar as mãos. Ninguém falava nada. E aquilo era pior que gritos. Até que meu pai quebrou o silêncio: — Nós vamos viajar amanhã. Eu levantei os olhos automaticamente. — Viajar? — Acre — respondeu ele. — Tenho reuniões importantes com alguns deputados e governadores. Sua mãe vai comigo… e você também. Eu fiquei quieta por um instante. Acre. Dias fora. Presa com eles praticamente vinte e quatro horas. Meu primeiro impulso foi reclamar. Dizer que não queria ir. Mas eu já tinha causado problema demais. Então só perguntei: — Quantos dias? — O necessário — respondeu ele, seco. Eu abaixei o olhar novamente. Claro. Sempre respostas assim. Minha mãe finalmente falou: — Vai ser bom pra você se afastar um pouco daqui. Eu quase ri. Ela achava mesmo que o problema era “a cidade”. Não era. Era a vida que eu levava nela. Mas eu estava cansada demais pra discutir de novo. Então apenas assenti. — Tá bom. Os dois pareceram surpresos pela falta de resistência. E, sinceramente… eu também estava. Mas, naquele momento, eu preferi me calar. Depois do café, subi pro quarto em silêncio. Assim que fechei a porta, soltei o ar preso nos pulmões. — Acre… sério? Passei a mão no rosto, andando até o closet. A ideia daquela viagem me incomodava mais do que eu queria admitir. Parecia castigo. Ou talvez uma tentativa desesperada dos meus pais de me puxarem de volta pro mundo deles. Eu abri a mala em cima da cama. Comecei a separar roupas automaticamente, sem nem pensar direito no que estava colocando ali. Vestidos. Saltos. Roupas “adequadas”. A mesma Dalila de sempre. Mas agora parecia estranho olhar praquilo. Como se já não combinasse completamente comigo. Peguei o celular no meio das roupas espalhadas e liguei pra Verônica. Ela atendeu rápido. — Amiga? — Eu vou sumir uns dias. — O quê? Como assim? Eu me sentei na cama, suspirando. — Meus pais vão viajar pro Acre por causa de umas reuniões políticas… e eu vou junto. — Ah não… — ela reclamou na hora. — Você vai mesmo? — Vou. Ficou um pequeno silêncio. — Você tá bem? Eu olhei ao redor do quarto. Pra mala aberta. Pra minha vida inteira organizada daquele jeito perfeito. E respondi baixo: — Não sei. Verônica suspirou do outro lado. — Quantos dias? — Também não sei. — Que saco… Eu deixei escapar um pequeno sorriso. — É. Mas ele desapareceu rápido. Porque, no fundo… o que realmente me incomodava… não era a viagem. Era a sensação de estar sendo puxada de volta pra uma vida que eu já tinha começado a questionar. E, pior ainda… pela primeira vez em muito tempo… eu não queria ir embora.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD