Miguel del Rey se sentou à mesa depois delas. O seu escritório era limpo, cheiroso e bem organizado. Bem a cara do dono, Rebeca Diamantino não conseguiu evitar o pensamento.
— Vamos direto ao ponto — ele apoiou os cotovelos na mesa e uniu as pontas dos dedos abaixo do queixo. — Como todo mundo gosta.
— Fala de uma vez, cretino — mandou ela.
— Queria um queijinho — Carolina se esparramava na sua cadeira, sentando-se com as costas toda torta.
— Eu não vou deixar vocês irem embora — revelou o dono do morro. — Vocês vão ficar aqui, na minha casa.
— Se é pela forma que eu falei com o senhor, do fundo do meu coração, peço perdão — a loira tentou reverter a situação.
— Não é por causa disso, consigo lidar com palavrões.
— Então vai à merda, arrombado — Rebeca ralhou de uma vez. — Que é que você vai fazer, estuprar a gente e cortar em pedaços? É disso que sua gentalha nojenta gosta, né?
— Não — Miguel negou. — Se alguém estuprar e cortar mulheres no meu morro, eu mesmo arrancarei o p*u e as mãos antes de abrir a cabeça do infeliz com um machete. Isso eu te prometo.
O homem falou com tanta intensidade que a deixou sem palavras.
— Bom — a loira conseguiu dizer depois de alguns segundos. — Isso é bom mesmo. Então o que você quer? Pedir um resgate milionário ao meu pai? Se não tivesse quebrado meu celular, eu mesma te passava uns dez milhões no pix agora mesmo.
— Juro que não havia pensado nisso, mas vou considerar sua proposta — ele considerou como se fosse um bom acordo.
— Meu Pai do céu, me arrebata logo — Rebeca olhou para o forro do teto.
— Você é engraçada — Miguel sorriu. E dessa vez ela adorou de verdade, seu peito esquentou um pouco com o elogio.
— Mas você que é o palhaço — a jovem rebateu, difícil de ser conquistada. Ele gostava. — Por que vai me manter aqui então, se é tão burro que nem pensou em me sequestrar?
— Ah, certo — o dono do morro lembrou de que iria direto ao ponto. Rebeca revirou os olhos nesse meio tempo. — Não posso deixar você ir por dois motivos.
— Estou esperando, senhor príncipe — Rebeca cruzou as pernas. — Ou senhor del Rey?
— Eu amo Lana del Rey — Carolina falou, praticamente deitada no chão.
— Se ajeita, menina, daqui estou vendo seus fundos — a loira ajudou a morena a se sentar novamente. — Pronto, pode continuar aí, seu Rey.
— Me chama de Miguel — ele olhou preocupado para Carolina e então voltou a atenção para Rebeca. — Como eu dizia, há dois motivos para que eu as mantenha aqui contra a própria vontada.
— Sim, sim, direto ao ponto, fala de uma vez por todas.
— Estou falando e você só me interrompendo — o coitado abriu os braços, impaciente.
— A culpa agora é minha? Você não viu que a Carol caiu no chão?
— Ela escorregou porque quis! — Miguel disse o óbvio.
— Porque ela encheu o cu de pinga.
— Chega — o dono do morro colocou sua arma sobre a mesa. — Mais uma interrupção e eu dou um tiro na sua cara e na dessa vagabunda.
Rebeca engoliu em seco. Carolina ficou quieta.
— Então você se revelou de verdade — a loira falou, as feições firmes, sem medo. — Direto ao ponto, Miguel del Rey.
— Não vou deixar vocês saírem. Primeiro motivo: o morro está sendo vigiado pela facção rival do Morro Peneirinha. Viram o carro de vocês entrando aqui, é provável que encham vocês de tiro quando saírem. Tanta bala que vão ficar parecendo peneirinhas, vocês entenderam?
— Nunca mais saio com você, Beca — Carolina choramingou.
— Desculpa, amiga — Rebeca beijou a testa da amiga. — Vai ficar tudo bem. E o segundo motivo.
— O segundo não é muito diferente do primeiro — explicou Miguel. — Eu tenho espiões no Morro Peneirinha. Estão preparando uma invasão ao nosso há uma semana. Não posso deixar vocês saírem porque podem morrer perseguidas por eles.
— E não pode deixar a gente sair também porque seus rivais podem atacar a qualquer momento — completou Rebeca.
— Para uma mimadinha, você entende rápido — o chefe sorriu.
— Vocês estão tão tensos que até deram uma festa — a loira ironizou.
— Sabíamos que a invasão não seria hoje. Bons soldados merecem uma boa refeição antes de irem para guerra.
— Sim — ela assentiu, em vez de criticar sua analogia, chamando os “soldados” dele de bandidinhos desgraçados. — O resumo da ópera, até onde vai meu interesse, é que estamos duplamente fodidas.
— Eu já fiz com dois — Carolina chupava seu dedão.
Rebeca e Miguel arregalaram os olhos com a revelação, mas não comentaram nada.
— E agora? — Perguntou a loira.
— Eu quero dormir — resmungou a morena, morrendo de sono.
— Agora — disse Miguel — vamos procurar quartos para vocês, mas creio que vai ser difícil porque eu não estava esperando visitas.
— Não somos suas visitas — Rebeca tratou de esclarecer —, somos suas reféns.
— Se são minhas reféns, vou amarrá-las, amordaçá-las e jogá-las no porão.
— Na verdade, somo suas visitas mesmo — ela tentou consertar a tempo.
— Então levanta — Miguel se ergueu. — E traz essa cu de pinga com você, vou encontrar seus quartos.