Rebeca recolheu a mão imediatamente e a limpou na sua blusa.
— Não encoste em mim com essa sua mão suja de tráfico e essa boca que fuma maconha. A gente não fez nada de errado, só se perdeu por causa do puto do gps. Libera a gente.
— Quem é o gostosão? — Carolina abraçou a amiga por trás. — Ele vai matar a gente?
— Não se preocupa, Carol. Cão que ladra, não morde. Mas esse aí nem para latir presta.
— Tá tirando uma com a cara do chefe? — O da metralhadora preparou a arma, as pessoas em volta se afastaram. — Tu tá ficando doida?
— Abaixa a arma, Dudu — Miguel só precisou mandar uma vez e o da metralha se pôs no seu lugar. Denis também guardou seu revólver.
— A gente quer nosso celular de volta — disparou Rebeca. — Os dois marginaizinhos pegaram. Isso e nosso carro. A gente vai embora, não chamamos a polícia e fingimos que nunca estivemos aqui.
— Então você está negociando comigo? — Miguel sorriu, seus olhos brilhando de divertimento. — Você acha que está em uma boa posição para isso?
— Sim, nós estamos com sono, estávamos indo para casa, não queremos nos envolver com nada de gangue que vocês fazem aqui.
— Dudu e Denis — chamou Miguel. — Entreguem-me os celulares das meninas.
— Tá na mão chefe — Denis entregou os dois iPhone para o chefe.
— Esse é o seu? — ele mostrou um à Rebeca.
— Sim, pode me devolver...
Miguel jogou o celular no chão, sacou sua arma e atirou no dispositivo, que ficou fumaçando. Depois o homem guardou a arma tão rápido que foi como se não a tivesse tirado.
— E esse é o seu? — O chefe do morro ergueu o celular da Carolina, que estendeu a mão para pegar. — Vai pegar.
Ele arremessou o iPhone na piscina. Carol tentou ir pular, mas Rebeca a conteve.
— Você deve se achar muito engraçado né, seu arrombado? Não havia necessidade disso.
— Vai saber — ele deu de ombros. — É bem possível que alguém poderoso viesse bater à nossa porta, não é? Considerando quem é seu pai.
— Ela é riquinha? — Denis quis saber.
— É burguesinha, só o filé? — Dudu lambeu os beiços e esfregou as mãos.
Outras pessoas se aproximavam para escutar a conversa.
— Vamos entrar — chamou Miguel. — Conversar com mais privacidade.
— Não. Fala o que você quer aqui mesmo — Rebeca segurou sua amiga firmemente para ela não se afastar. — Seja rápido e nos libere, queremos nosso carro.
— Nada disso. O carro fica. É nosso agora.
— Fala sério, ladrão. O que a gente fez demais?
— Vocês entraram no meu morro — Miguel del Rey abriu os braços, um sorriso de dentes perfeitos no rosto, quase uma afronta. — Você pode andar para onde quiser em Paris, Dubai, Londres, Nova York, as cidades que sua laia é acostumada, mas no Rio de Fevereiro é assim. Você está no Brasil agora, esse pedaço de mundo é o meu pedaço de mundo. Ninguém entra ou sai sem a minha permissão, você está entendendo?
— f**a-se — Rebeca deu de ombros. — Você não é dono do mundo, nem sequer de um pedaço de merda dele.
A jovem cuspiu no chão, diante dos pés do chefe do morro. O barulho de várias armas sendo engatilhadas se ouviu, Carolina se tremeu toda, mas Rebeca não olhou ao redor, seus olhos azuis estavam presos nos verdes mar de Miguel.
O homem de um e noventa de altura sorriu, olhando para baixo com a cabeça inclinada para o lado como se descobrisse uma criatura curiosa.
— Gostei de você, Rebeca Diamantino — disse ele.
— Como você sabe quem eu sou?
— Reconheci na hora, mas pensei que era engano. Depois que você disse o seu nome e os meus vigias mandaram a foto do seu carro... só podia ser uma riquinha que pode limpar a própria b***a com um maço de dólares.
— Nojento — Rebeca fez cara de nojo.
— Não pega na minha b***a — resmungou Carolina, sem saber direito o que estava acontecendo.
— Você não respondeu minha pergunta — insistiu a outra jovem. — Como um vagabundo como você o meu nome?
— Porque eu a vi nas notícias — Miguel abriu o celular no i********: e mostrou uma postagem salva. A loira aparecia nas imagens de óculos escuros e cabeça baixa, roupa de grife e bolsa cara, sendo levada por dois polícias. Na matéria, lia-se:
“Recém-chegada ao Brasil, filha de CEO da tecnologia é presa após ser acusada de roubo em shopping no Rio de Fevereiro.”
Rebeca leu à notícia envergonhada.
— Olha lá — Denis riu —, a patricinha bandidinha.
— E atava se achando melhor que nós — Dudu riu mais ainda.
— Isso foi um engano — defendeu-se a jovem.
— Não — disse Miguel. — Nós dois sabemos que não foi. Você é bilionária, minha flor, fez isso porque gosta de emoção. Por isso foi para o baile funk em uma cidade que não conhece.
— Mentira
— Verdade, princesa — ele segurou o queixo dela com uma mão grande, que poderia esconder totalmente o rosto dela. — Quer emoção? Fica no meu morro.
— Nunca que eu ficaria em meio a toda essa balbúrdia — ela bateu na mão dele e indicou os arredores, paredão de som, churrasco, mesas atoladas de cerveja. Gente brincando e dançando, transando em áreas mais escuras.
— O que você chama de balbúrdia eu chamo de a melhor parte da vida — Miguel continuou sorrindo, provocando-a em cada sílaba.
— Devolve meu carro, por favor, eu quero ir embora daqui.
— Vocês não vão a lugar nenhum — o sorriso sumiu, seu rosto ficou sério, então pareceu um chefe de morro de verdade. — Levem as duas para dentro da mansão.