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A Geometria de Laços de Sangue

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Blurb

Algumas linhas nunca deveriam ser cruzadas. Alguns segredos nunca deveriam ser despertados.

Nesse horror cósmico impiedoso, o universo ao acaso escolheu eles...

Em 2018, na sufocante São Paulo, Alan e Flora compartilham muito mais do que um sobrenome. Criados como irmãos desde o berço — adotivos, mas inseparáveis —, construíram uma cumplicidade tão profunda que o mundo exterior sempre pareceu distante. Ele se refugia nas telas como YouTuber; ela tenta manter o equilíbrio como secretária. Uma vida comum, quase confortável.

Porém, desde a morte do marido, a tia Camila mergulha em um luto sombrio e silencioso que preocupa toda a família. Os pais de Alan e Flora os convencem a passar alguns dias com ela em sua cidade, Chapada Alta, em Minas Gerais. “Vai fazer bem a ela”, dizem. Camila reluta, mas acaba aceitando.

O que deveria ser uma visita simples de alguns dias se revela bem diferente ao chegarem à propriedade. Engolida pela mata cerrada e longe do núcleo urbano, a casa é cercada por um silêncio que parece vivo, atento. Enquanto ajudam a organizar os pertences do falecido tio Antônio, eles encontram um objeto estranho: um fragmento geométrico, impossível, que desafia qualquer lógica.

Não demora para perceberem a horrível verdade: aquela coisa não pertence a este mundo.

O que começa como mera curiosidade mórbida logo se transforma em algo muito pior: A Equação de Sangue do Nascimento.

Sob a influência daquela estranha presença, o vínculo fraternal e familiar entre os três ganha contornos proibidos, obsessivos, quase inevitáveis.

A entidade adormecida exige um preço para renascer. E parece ter escolhido os três como peças de uma equação macabra — uma equação escrita em sangue, carne e segredos que nunca deveriam ter sido revelados.

Correndo contra o tempo e qualquer força, natural ou não, eles veem que o verdadeiro horror não é apenas o que foi libertado.

É o que está despertando dentro deles.

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CAPÍTULO I - PIZZA DORMIDA E CERVEJA
O ano era 2018, mês de junho, São Paulo, capital. O frio da temporada já dava alguns leves sinais em algumas extremidades da cidade, e, embora fosse apenas nove da manhã, o céu estava totalmente sem nuvens e o asfalto já retia o calor. No apartamento de Alan, as janelas fechadas e o ar-condicionado no modo de aquecimento com tudo que podia para espantar o fio interno, criavam uma atmosfera quente e pesada, que, pra ele, era tão confortável quanto um gato dormindo em cima das teclas do notebook. ​Flora estava esparramada no sofá, entregue àquele abafamento. Vestia um pijama rosa e folgado, com estampas do rosto da Hello Kitty repetidas em fileiras — o conjunto de dormir que sequer tinha pensado em trocar para ir ao apartamento de Alan. Largada de pernas abertas, como um garoto bancando o descolado, o pijama curto havia subido pela coxa. O desalinho da posição forçava o tecido leve a marcar a linha divisória de sua i********e de forma flagrante. ​Alan desviou o olhar após um ou dois segundos olhando, o choque visual fazendo seus efeitos sem escolher ninguém. Havia uma vulnerabilidade excessiva ali, uma crueza na exposição da irmã que a deixava em uma linha tênue de conforto extremo e falta de senso, especialmente porque o formato desenhado no tecido parecia, por um segundo, estranhamente detalhado. O contorno do monte, as curvas das bordas, a f***a. Fora que, mais acima, a blusa fina de alcinha modelava a folga sob a pele alva, revelando de uma forma muito sutil, mas ainda visível, uma cor translúcida mais escura de seus m*****s que criavam forma destacada devido ao tecido fino. Era uma exposição incômoda da qual ela sequer estava a par, ocupada demais checando as mensagens no celular. Flora abriu a boca num bocejo lento, olhos semiabertos e o cabelo preso de qualquer jeito, fora que, cresceram juntos, literalmente. A mãe de Flora a teve e logo o após o parto sofreu uma complicação clínica chamada hemorragia pós-parto por atonia uterina, forçando a remoção completa de seu útero, então, um ano depois, ela adotou o beê que agora seria Alan, do jeito que ela sempre sonhou, um casal de filhos. Fora isso, a compatibilidade fraterna dos dois era invejável, claro que em determinadas circunstâncias poderiam ter uma pequena discussão aqui e alí, mas o fato era que, mesmo agora com respectivos vinte e sete e vinte e seis anos dela e dele, eram tão unidos quanto café e queijo em Minas Gerais. ​Alan estava ainda só de short, tinha levantado não muito tempo e o calor interno do apartamento não fazia acontecer a necessidade de uma camisa. andou até a cozinha para recuperar o fôlego daquele desleixo, onde na própria ironia, não foi o seu próprio. ​— Só tem cerveja e pizza dormida na geladeira — disse. ​— Problema não. Traz aí — respondeu ela, sem desviar os olhos da tela. Ainda na cozinha, ele tirou quatro fatias da pizza dormida da caixa e as colocou no micro-ondas. Esperou o aparelho roncar, espalhando pelo ar quente do ar-condicionado o cheiro de queijo e gordura. Tirou o prato com a mão direita e, com a esquerda, pegou duas garrafas de cerveja pelos gargalos, que já suavam pelo choque térmico. ​Caminhou de volta para a sala. — Não vai abrir espaço pra mim sentar? — Ah… tem espaço de sobra. — ela disse, a voz arrastada, desviando o olhar da tela para Alan, não deixando de notar o ossinho do quadril segurando o short e os relevos dos músculos do abdómen sumindo pelo cós. Sem muita escolha, Alan sentou no pouco pedaço vão de sofá disponível, o espaço tão infimamente livre que seu quadril bateu contra as pernas de Flora. Ela não se moveu — só deixou o corpo ceder com preguiça igual um gato, sem pressa de fechar as pernas de forma minimamente decente enquanto ele forçava a se esparramar no assento como se fosse uma disputa territorial. Alan sentiu o calor da pele dela direto contra a sua, sua pele deu um leve arrepio e as cores contrastando o short rosa da Hello Kitty dela com seu short preto. Ele colocou o prato com as quatro fatias em seu colo e as cervejas no chão. — Então... — começou ele, puxando uma fatia onde o queijo derretido brilhava em óleo. — A gente vai amanhã mesmo? ​Flora ficou olhando para o teto por alguns segundos, a alça fina dando uma leve caída pela folga. ​— Por mim, sim, é bem conveniente, eu sei, mas a empresa vai ter uma parada técnica. Estão mudando a estrutura do escritório, então a gente recebeu um comunicado. Só os serviços essenciais vão permanecer. As demais... duas semanas remuneradas. ​— Ué — Alan mordeu a pizza e mastigou rápido — mas você não é secretária ou algo assim? Achei que era um serviço essencial. ​— Sou sim. Mas sabe como é — ela finalmente tirou os olhos do celular e coçou o nariz com as costas da mão. — Na verdade, nem eu entendo direito. Só sei que ganhei as duas semanas. E eu é que não vou reclamar. Vai que pensam duas vezes e me arrastam para lá, né? Eu tava até meio triste por ter que tirar férias só pra ir visitar a tia Camila, mas… olha só, o universo sorriu pra mim. — ela falou com um fraco sorriso triunfante enquanto virava um gole generoso da cerveja. ​Alan engoliu o pedaço. ​— É... faz sentido. Ele mordeu a pizza de novo, uma abocanhada generosa. O queijo esticou e ele puxou com o dente até arrebentar. ​— Mas e você? Tá livre? — Flora virou a cabeça no sofá, encostando a cabeça sobre o braço de Alan, mostrando um sorriso preguiçoso. — Quer dizer... você nem trabalha de verdade. ​— Engraçadinha... — ele apontou o pedaço de pizza na direção dela. — Eu ia começar a fazer uma saga de Assassin 's Creed. Começando desde o Altair e... Flora ergueu o rosto, o encarando com uma expressão que passava perfeitamente o “é sério?”. — Ah, quer saber? — Ele parou, a pizza suspensa no ar, e fez uma careta. — f**a-se. Vamos amanhã mesmo. ​— Decidido, então. — Flora esticou os braços para cima causando estalos, o movimento puxando sua blusa, expondo a faixa de pele da barriga e tensionando o tecido de forma mais evidente. Embaixo, as pernas abertas desalinhavam ainda mais o pijama, suas coxas exaltando os músculos forçados e mantendo a sua forma ainda mais evidente. ​Alan olhou por reflexo, mastigando devagar, sentindo o estômago pesado. ​— E quantos seguidores você já tem? — ela perguntou, abaixando os braços. — 400 mil? ​— 598 mil. Tô só esperando bater 600 mil para fazer um especial. Uma live, interagindo. Não pensei direito ainda. ​— Esse era o tipo de preocupação que eu queria ter... — Flora disse com a voz arrastada, os olhos quase fechando devido ao sono. ​— Que horas a gente sai então? — Alan pegou outro pedaço. A gordura do queijo brilhava no papel-toalha que forrava o prato. Ele limpou o óleo que ficou nos dedos direto na calça. — Olha, Lana... sinceramente... gosto bastante de viajar de noite, mas... não tô a fim de pegar uma estrada onde nunca passei antes de noite, então… que tal as dez da manhã? ​Ela arqueou uma sobrancelha. ​— Pode ser. Então fica assim. Amanhã a gente sai às dez. E.. seu carro tá ok? O meu tá na oficina ainda… — Bateu em qual poste dessa vez? — perguntou com um sorriso malicioso surgindo no rosto. — Vai se f***r, Alan. — ela ergueu o dedo do meio pra ele, rindo, mas era verdade, Flora era meio imprudente, já tinha acumulado tantas multas de excesso de velocidade que dava um álbum inteiro, e seu último acidente foi num poste durante um cruzamento, a sorte, apenas um g**o na testa que demorou três dias para sair. — Só espero que leve sua carteira de motorista porque eu não vou levar pontos por sua causa... — ele resmungou, terminando de mastigar. — Pode deixar! Eu vou ali arrumar minha mala então — Flora se levantou, os pés descalços afundando no tapete. Pegou a garrafa de cerveja do chão, enquanto curvava para pegar, não deixando de notar pelo reflexo o destaque do peitoral dele numa pele pálida que parecia até um vampiro. — Até depois. ​Ela andou até a porta do apartamento, segurando a garrafa de cerveja já pela metade. Abriu a porta de madeira e saiu. O corredor do condomínio do lado de fora estava escuro; apenas a luz amarela do sensor de presença acendeu, cortando a penumbra. Alan suspirou de preguiça enquanto a via cruzando o batente e desaparecer depois da porta. ​— Caramba… tomara que ninguém tenha visto ela com aquele pijama nos corredores… — Alan falou sozinho, olhando para a porta. ​A crueza daquele pijama desleixado e a falta de bom senso deixavam o ar da sala ainda mais denso. Ele olhou para o prato. Só restava uma fatia de pizza, a gordura já endurecida pelo tempo fora do micro-ondas. Pegou o pedaço com os dedos grudentos e mordeu a ponta, mastigando a massa massuda. ​— Melhor eu fazer as minhas malas também.

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