1- CONHECENDO A LÍVIA
CAPÍTULO 1
LÍVIA NARRANDO
Se tem uma coisa que eu aprendi desde cedo é que as pessoas nunca esquecem de te lembrar quando você não se encaixa e eu nunca me encaixei.
Meu nome é Lívia. Tenho 24 anos, sou enfermeira, moro no Morro da Fé e… sou gorda. Sim, eu falo assim mesmo, sem rodeio, sem diminuir a palavra pra parecer mais bonita. Porque, durante muito tempo, eu tentei suavizar quem eu era pra caber no olhar dos outros. E não adiantou de nada. Pra eles, eu sempre fui só isso.
A gordinha.
A fofinha.
A “até que é bonita de rosto”.
Aquela que ninguém escolhe primeiro.
Aquela que serve pra amiga, nunca pra ser desejada.
Crescer sendo assim não é fácil. Não é nem um pouco. Eu lembro de quando era criança e ainda não entendia direito o porquê das risadinhas. Eu achava que estavam rindo comigo, até perceber que era de mim. Na escola, era sempre a mesma coisa. Apelidos, piadinhas, olhares. Tinha dia que eu fingia que tava doente só pra não ir. Mas minha mãe nunca deixou.
— Tu vai sim, Lívia. O mundo não vai parar porque você tá com medo dele.
Na época, eu achava ela dura. Hoje eu entendo, ela tava tentando me preparar. Mas ninguém te prepara de verdade pra crescer ouvindo que você é “demais” — demais de gorda, demais de grande, demais de tudo.
Adolescência então? Nem se fala.
Enquanto minhas amigas começavam a namorar, a beijar, a viver aquelas coisas normais da idade, eu ficava ali, no canto. Observando. Fingindo que não me importava.
Mas importava.
Importava quando ninguém me chamava pra dançar nas festinhas. Importava quando os meninos faziam aposta pra ver quem teria coragem de ficar comigo. Importava quando eu chegava em casa e me olhava no espelho tentando entender o que tinha de tão errado em mim.
Eu tentei mudar, claro que tentei.
Dieta, academia, chá milagroso, ficar sem comer, tudo que você imaginar. Mas nunca era suficiente. Porque o problema nunca foi só o meu corpo.
Era o jeito que as pessoas me enxergavam.
E o jeito que eu comecei a me enxergar também.
Mas teve uma vez, uma única vez que eu achei que podia ser diferente.
Eu tinha 19 anos quando conheci o Rafael.
Ele não era o cara mais bonito do mundo, nem o mais popular. Mas foi o primeiro que me olhou de verdade. Que conversou comigo sem maldade, sem piada, sem aquele olhar de julgamento.
E eu me apaixonei.
Idiota, né? Mas eu me apaixonei.
Ele me fez acreditar que eu podia ser amada. Que alguém podia me querer do jeito que eu era. E, pela primeira vez na vida, eu me senti suficiente.
A gente namorou por quase um ano.
Quase um ano acreditando que eu finalmente tinha encontrado o meu lugar. Até o dia que ele olhou pra mim com uma cara diferente. Fria. Distante.
— A gente precisa conversar.
Eu já devia saber.
— Eu não tô mais sentindo a mesma coisa, Lívia…
Clássico.
Mas ele não parou por aí.
— E… sei lá… você podia se cuidar mais também, né?
Eu lembro de ter ficado em silêncio. Não porque não tinha o que falar, mas porque parecia que alguém tinha enfiado a mão no meu peito e apertado meu coração até doer.
— Como assim?
— Ah, você sabe… emagrecer um pouco… se esforçar mais…
Ali, naquele momento, eu entendi que nunca foi amor. Era só conveniência e quando deixou de ser confortável pra ele ele foi embora.
Simples assim.
Eu não chorei na frente dele. Não dei esse gostinho. Esperei ele sair, fechar a porta, e aí eu desabei. Chorei tudo que tava entalado há anos.
Chorei pela menina que eu fui. Pela adolescente invisível. Pela mulher que achou que, finalmente, tinha encontrado alguém que a enxergava de verdade.
Depois daquele dia, eu prometi uma coisa pra mim mesma: Nunca mais deixar ninguém me fazer sentir pequena daquele jeito. Foi aí que eu decidi focar na minha vida. Estudar. Trabalhar. Ser alguém por mim mesma.
A enfermagem entrou na minha vida meio que sem querer, mas acabou sendo a única coisa que realmente fez sentido. Cuidar das pessoas, ajudar, salvar quando dava, aquilo me fazia sentir útil. Importante. Necessária.
Coisa que eu nunca senti sendo só “a gordinha”.
Eu me formei com muito esforço. Muito mesmo. Trabalhava de dia, estudava à noite, chegava em casa exausta, mas não desisti.
Porque, pela primeira vez, eu tava fazendo algo por mim e foi assim que eu vim parar no Morro da Fé. Não foi sonho, não foi escolha planejada, foi oportunidade.
Quando surgiu a vaga no postinho daqui, ninguém quis. Área “perigosa”, como eles dizem. Lugar “complicado”. Gente “difícil”.
Eu aceitei na hora.
Porque, pra quem já passou a vida inteira sendo julgada, medo deixa de ser prioridade. Aqui, no começo, também não foi fácil. Claro que não foi.
Olhares. Comentários. Risadinhas. Isso nunca muda completamente.
Mas tem uma diferença.
Aqui, as pessoas precisam de você.
E quando alguém precisa, pouco importa o tamanho do seu corpo. Importa o que você faz.
Importa o que você é capaz de fazer por elas e eu faço. Eu cuido. Eu ajudo. Eu me viro do jeito que dá. Já teve dia de faltar material, de faltar remédio, de faltar estrutura, mas nunca faltou vontade.
Porque, no meio de tanta coisa errada, eu encontrei um lugar onde, pelo menos por alguns momentos, eu não sou só a “gordinha”.
Eu sou a enfermeira.
A Lívia.
A que resolve.
A que segura na mão.
A que não vira as costas.
E, mesmo com tudo, eu aprendi a gostar de quem eu sou.
Não todos os dias, claro.
Tem dia que ainda dói.
Tem dia que eu ainda me olho no espelho e escuto todas aquelas vozes antigas ecoando na minha cabeça. Mas tem outros dias, que eu só respiro fundo e sigo. Porque a vida não parou pra mim e eu também não vou parar por causa dela.
Continua.....