Dante
Meu nome é Danilo Carvalho, pouca gente sabe disso. Na verdade, se alguém chegar ao Morro da Esperança perguntando por Danilo, provavelmente vai receber olhares confusos ou até uma risada. Aqui, quase ninguém me conhece pelo nome que minha mãe escolheu quando nasci. Para todo mundo, eu sou Dante.
Esse foi o nome que ganhou força nas ruas.
O nome que veio antes da minha reputação.
nome este que passou a carregar tudo aquilo que eu me tornei. Tenho trinta e seis anos e aprendi cedo que, nesse lugar, idade não significa experiência. O que realmente conta é tudo aquilo que você sobreviveu. Eu sobrevivi a muita coisa antes de chegar ao lugar onde estou agora. Aprendi a desconfiar das pessoas, a observar antes de falar e a nunca demonstrar fraqueza diante de quem está esperando exatamente por isso.
Nunca fui um homem de muitas palavras, sempre preferi observar. Enquanto os outros gritavam, eu calculava. Enquanto alguns agiam por impulso, eu esperava,foi assim que consegui chegar até aqui.
Mas ninguém chega sozinho e a pessoa que mais influenciou o homem que me tornei foi Miguel. Conheci Miguel quando ainda era muito mais novo. Eu tinha pouco mais de vinte anos quando nossos caminhos se cruzaram de verdade. Naquela época, eu ainda não era ninguém dentro do morro. Era apenas mais um homem tentando sobreviver em um lugar onde qualquer erro poderia custar caro.
Miguel enxergou alguma coisa em mim até hoje, não sei exatamente o que foi. Talvez ele tenha percebido que eu não tinha medo de tomar decisões difíceis. Talvez tenha visto que eu conseguia permanecer calmo quando todo mundo ao redor estava perdendo a cabeça. Ou talvez simplesmente tenha confiado em mim.
O fato é que ele me deu uma oportunidade e eu nunca esqueci disso. Comecei pequeno. Fazendo o que precisava ser feito, aprendendo como as coisas funcionavam e observando Miguel comandar o morro. Ele não era perfeito longe disso mas sabia conquistar respeito. Com o tempo, passei a estar ao lado dele em praticamente tudo.
Quando havia problema, eu estava lá.
Quando surgia uma ameaça, eu estava lá.
Quando alguma negociação precisava ser feita, eu estava lá.
Quando a guerra começou, eu estava ao lado dele.
Foi assim que deixei de ser apenas Danilo e passei a ser Dante. O vulgo surgiu de uma maneira que hoje parece até simples demais para a dimensão que ganhou. Um dos homens começou a me chamar assim depois de uma situação complicada durante uma operação. O apelido pegou. Depois outro passou a usar. Em pouco tempo, todo mundo estava me chamando de Dante.
Eu não questionei.
Aceitei.
Talvez porque Danilo pertencesse ao homem que eu era antes.nDante pertencia ao homem que eu precisava ser e esse homem não podia ter medo.
Não podia hesitar.
Não podia amar.
Essa última parte foi a mais difícil porque, apesar de tudo que construí nas ruas, existia uma coisa que eu nunca consegui controlar.
Alana.
Eu conheci Alana por causa de Miguel. No começo, ela era apenas a mulher que acompanhava o homem que eu considerava meu irmão. Eu a via chegar, sorrir, conversar com ele e depois desaparecer dentro de casa.
Nunca imaginei que aquela mulher ocuparia tanto espaço dentro da minha cabeça, muito menos dentro do meu coração. Eu deveria ter parado no primeiro momento em que percebi o que estava acontecendo.
Mas não parei.
Passei a reparar nela mais do que deveria. No jeito como ela prendia o cabelo quando estava irritada na forma como ficava preocupada quando Miguel demorava para voltar. Na maneira como ela conseguia sorrir mesmo depois de passar o dia inteiro cercada pelos problemas daquele lugar.
Eu conhecia os riscos, ela era a mulher do meu irmão, a mulher que ele amava. E, por mais que eu sentisse alguma coisa por ela, nunca ultrapassei aquela linha.
Nunca toquei nela.
Nunca falei.
Nunca dei a menor esperança.
Guardei tudo para mim e era o certo pelo menos era o que eu repetia para mim mesmo.
Quando Miguel falava dela, eu fingia que não sentia nada.
Quando ele contava alguma coisa sobre os dois, eu ouvia como um amigo deveria ouvir.
Quando ela me agradecia por alguma coisa, eu respondia com poucas palavras e me afastava.
Eu fiz isso durante anos.
Anos.
Talvez ela nunca tenha percebido.
Talvez tenha percebido e escolhido ignorar.
Eu preferia acreditar na primeira opção, porque seria muito mais fácil.
Até aquela noite,a noite em que tudo acabou.
Eu lembro de cada detalhe.
A chuva.
Os trovões.
Os fogos.
O rádio.
A voz dos homens avisando que o Morro do Alvorada estava avançando,e o Miguel saindo daquela casa mesmo depois de Alana implorar para que ele não fosse.
Eu estava em outra parte do morro quando recebi a primeira informação, a invasão não aconteceu como esperávamos.
Foi rápida demais.
Organizada demais.
Eles sabiam por onde entrar.
Sabiam onde estavam os homens.
Sabiam quais pontos estavam mais vulneráveis.
Naquele momento eu já sabia que havia alguma coisa errada, não era apenas uma invasão, alguém tinha passado informações.
Eu tentei reorganizar os homens enquanto Miguel avançava por outro lado e foi quando comecei a perceber que estávamos perdendo homens demais.
Eu gritava ordens pelo rádio.
Mandava fechar as entradas.
Mandava avançar.
Mandava recuar quando necessário.
Mas uma coisa não saía da minha cabeça.
Alana estava dentro do cofre esperando Miguel voltar eu precisava terminar aquilo.
tinha que encontrar o Miguel,precisava garantir que ele chegasse vivo em casa.
Não consegui.
Quando encontrei Miguel, ele já estava ferido.
Eu me lembro de ter corrido até ele.
Lembro do sangue.
Lembro da chuva misturando tudo.
Lembro de ter chamado pelo nome dele.
Mas não houve resposta, naquele momento, uma parte de mim morreu também Miguel não era apenas meu patrão.
Era meu irmão.
Era o homem que tinha confiado em mim quando ninguém mais confiava e eu tinha falhado.
Mas ainda havia Alana,eu precisava contar para ela. Essa foi uma das coisas mais difíceis que já fiz na minha vida.
Quando cheguei ao cofre, eu sabia que ela entenderia apenas pelo meu rosto. Ela perguntou onde estava Miguel e eu não consegui responder, só abaixei a cabeça e eu fui suficiente, eu vi o momento em que ela entendeu.
Vi o corpo dela estremecer.
Vi a mulher que eu amava desabar diante de mim por causa do homem que eu considerava meu irmão.
E eu não podia fazer nada.
Nada.
Ela passou por mim correndo,eu fui atrás. Quando encontrei Alana ajoelhada ao lado do corpo de Miguel, eu fiquei parado.
Ela chorava.
Gritava.
Implorava para ele acordar e eu senti uma culpa que até hoje não consegui abandonar.
Eu deveria ter protegido Miguel.
Eu deveria ter percebido antes.
Eu deveria ter descoberto quem tinha passado aquelas informações.
Mas, principalmente, eu deveria ter impedido aquela invasão.Depois do enterro, o morro ficou diferente todos estavam esperando uma decisão.
Os homens precisavam de alguém.
Os rivais estavam esperando uma oportunidade.
E eu sabia que, se ninguém assumisse o comando, o Morro da Esperança seria destruído.
Miguel confiava em mim e eu não podia abandonar aquilo que ele construiu, por isso aceitei e a assumi o comando.
Não porque queria o poder.
Não porque desejava ocupar o lugar dele.
Eu fiz isso porque era necessário e porque tinha uma promessa para cumprir.
Proteger Alana.
Eu sabia que ela não entenderia,sabia que provavelmente me odiaria e também sabia que ela poderia pensar que eu queria tomar tudo de Miguel.
Mas não me importava, eu preferia que ela me odiasse viva do que me perdoasse depois de morta foi por isso que tomei a decisão de levá-la para minha casa.
Ela não gostou, claro que não Alana nunca aceitaria alguma coisa sem lutar eu conhecia aquela mulher.
Sabia que ela discutiria.
Sabia que me enfrentaria.
E estava certo quando falei que ela ficaria comigo, ela disse que me odiava e eu não respondi nada além de que sabia.
Porque eu sabia mesmo.
Talvez aquele fosse o único sentimento que eu merecia receber dela, eu tinha acabado de assumir o lugar do homem que ela amava.
Como ela poderia olhar para mim de outra maneira? O que ela não sabia era que eu nunca quis o lugar de Miguel.
Nunca.
Eu queria que ele estivesse vivo.
Queria que ele estivesse naquela casa com ela.
Queria que eu continuasse sendo apenas o braço direito dele.
Queria voltar para a época em que meu maior problema era esconder aquilo que sentia.
Mas o tempo não volta, Miguel estava morto e o morro está em guerra.E Alana agora está sob minha proteção.
O problema é que proteger aquela mulher está ficando cada vez mais difícil.
Não por causa dos inimigos mas,por minha causa.Porque estar perto dela depois de tantos anos escondendo o que sinto é uma tortura.
Eu consigo controlar homens armados.
Consigo negociar com inimigos.
Consigo entrar em uma situação de guerra sem demonstrar medo.
Mas não sei o que fazer quando Alana olha para mim com aqueles olhos cheios de raiva.
Não sei como agir quando ela fala meu nome.
Não sei como ignorar a vontade de me aproximar quando ela está perto demais.
E, principalmente, não sei quanto tempo vou conseguir esconder a verdade.
Porque existe algo que Alana ainda não sabe.
Naquela noite, antes de Miguel morrer, ele me disse uma coisa.
Uma coisa que não contei a ninguém nem mesmo a Alana. Miguel já desconfiava que havia alguém dentro do próprio círculo passando informações, ele sabia que a invasão poderia acontecer e havia começado a investigar,mas não conseguiu descobrir quem era. Eu continuei essa investigação depois da morte dele e foi aí que encontrei coisas que não deveriam existir.
Nomes.
Conversas.
Movimentações.
Informações que só poderiam ter saído de dentro do morro mas ainda não sei quem é o traidor,mas sei que ele está perto muito mais perto do que gostaria. E existe outra coisa que me preocupa ainda mais.
Quanto mais eu procuro respostas, mais o nome de Miguel aparece ligado a pessoas que eu jamais imaginei. Por isso não posso contar tudo para Alana.
Ainda não.
Ela precisa acreditar que estou apenas tentando protegê-la.
Mesmo que, para isso, eu tenha que suportar o ódio dela até mesmo que precise vê-la me olhar como se eu fosse o pior homem que já conheceu. Porque existe uma verdade que eu ainda não estou preparado para revelar.
Eu amo aquela mulher,amo há anos,talvez desde antes mesmo de entender o que aquilo significava. E agora ela está dentro da minha casa.
Debaixo do mesmo teto,dormindo a poucos metros de mim. A mulher que eu passei anos tentando esquecer está finalmente perto demais. E eu sei que isso pode acabar destruindo tudo.
Porque Alana não confia em mim,ela acredita que existe algo errado naquela história.
E está certa.
Existe.
Só ainda não sabe o quê.
Eu estava no escritório quando ouvi o carro parar diante da casa. Olhei pela janela e vi Alana descendo. Ela carregava apenas uma pequena bolsa porque os homens já tinham levado o restante das coisas dela.Olhou para a casa como se estivesse entrando em um lugar que odiava.
Talvez fosse exatamente isso,saí do escritório e desci as escadas. Quando abri a porta, encontrei os olhos dela imediatamente.
Raiva.
Dor.
Desconfiança.
Tudo estava ali.
— Entre — falei.
Ela não se mexeu.
— Eu ainda posso voltar para minha casa.
— Não pode.
— Dante...
— Alana, entra.
Ela apertou a bolsa contra o corpo.
— Eu não quero estar aqui.
Eu sabia.
— Eu também não queria que você precisasse estar.
Ela pareceu surpresa com a resposta,fiquei alguns segundos olhando para ela.
Depois saí da frente da porta.
— Seu quarto está pronto.
— Meu quarto?
— Sim.
Ela entrou lentamente,passou por mim sem dizer nada. Quando senti o perfume dela, precisei controlar a respiração. Aquilo era ridículo,eu tinha enfrentado uma guerra inteira naquela semana. E estava ali tentando controlar o próprio coração porque Alana tinha passado por mim.
Fechei a porta.
Ela parou no meio da sala e olhou ao redor.
— Você realmente acha que eu vou ficar aqui?
— Acho.
— E se eu não quiser?
Olhei para ela.
— Você pode me odiar.
Ela sustentou meu olhar.
— Eu já odeio.
Aquelas palavras doeram mais do que deveriam.
Mas eu apenas assenti.
— Então estamos entendidos.
Subi alguns degraus da escada e parei,antes de continuar, olhei para trás ela ainda estava parada no mesmo lugar. A mulher que eu amava estava dentro da minha casa. E eu sabia que, a partir daquela noite, nada voltaria a ser como antes.
Nem para ela.
Nem para mim.
Porque eu podia controlar o morro.
Podia controlar meus homens.
Podia controlar uma guerra.
Mas não sabia se conseguiria continuar controlando o sentimento que escondia durante tantos anos.
E, pela primeira vez na vida, eu tinha medo de perder o controle.