Capítulo 2
Alana
Fazia seis dias que Miguel tinha sido enterrado, mas para mim parecia que aquela noite ainda não tinha terminado. Eu continuava acordando no meio da madrugada com a impressão de ouvir sua voz pela casa, às vezes chegava a pensar que ele tinha acabado de abrir a porta e que a qualquer momento apareceria no corredor chamando pelo meu nome. Depois lembrava que aquilo nunca mais aconteceria e a realidade voltava como uma pancada no peito.
A casa estava silenciosa desde o velório.
Silenciosa demais.
As coisas de Miguel continuavam exatamente onde ele tinha deixado. A jaqueta preta permanecia pendurada atrás da porta do quarto, os relógios continuavam sobre a cômoda e até o perfume dele ainda estava no banheiro. Eu não tinha coragem de mexer em nada. Parecia que, se eu tirasse qualquer objeto do lugar, estaria aceitando que ele realmente não voltaria. Naquela manhã, eu estava sentada na varanda olhando para o morro quando ouvi o movimento lá embaixo.
Homens armados caminhavam pelas vielas.
Alguns moradores conversavam em pequenos grupos carros entravam e saíam.
O Morro da Esperança estava diferente desde a morte de Miguel.
Mais tenso.
Mais silencioso.
Todos sabiam que uma guerra estava apenas começando.
Eu sabia também.
A morte de Miguel não tinha encerrado nada.
Tinha aberto espaço para uma disputa.E eu não queria fazer parte dela, eu só queria meu marido de volta.Ou pelo menos queria que aquela dor diminuísse o suficiente para conseguir respirar sem sentir que alguma coisa estava apertando meu peito.
Foi quando ouvi alguém atrás de mim.
— Patroa.
Olhei por cima do ombro.
Era Jonas, um dos homens que trabalhava com Miguel havia anos.
— O que foi?
Ele ficou alguns segundos em silêncio antes de falar.
— O Dante pediu para avisar que vai ter uma reunião hoje.
Meu coração apertou só de ouvir aquele nome.
— Que reunião?
— Com os homens.
— E por que ele está me avisando?
Jonas desviou os olhos.
— Porque a senhora precisa estar presente.
Soltei uma risada sem humor.
— Eu não preciso estar em lugar nenhum.
— Patroa...
— Meu marido morreu há seis dias, Jonas. Eu não estou interessada em reunião nenhuma.
Ele abaixou a cabeça.
— Eu sei.
— Então diga ao Dante que não vou.
Jonas permaneceu parado.
— Ele disse que é importante.
— Eu não me importo.
Ele respirou fundo.
— É sobre o comando do morro.
Fiquei em silêncio.
Aquela frase foi suficiente para fazer todo o resto desaparecer por alguns segundos.
Comando.
Desde que Miguel morreu, aquela palavra aparecia em todas as conversas.
Quem assumiria?
Quem teria força para manter os homens unidos?
Quem impediria os rivais de invadirem?
Eu já sabia a resposta.
Só não queria aceitar.
— Dante vai assumir?
Jonas confirmou com a cabeça.
— Os homens já decidiram.
Meu estômago revirou.
— Eles decidiram?
— O Dante era o braço direito do Miguel era o Sub. Ele conhece os homens, conhece as rotas, conhece tudo que precisa ser protegido.
Eu me levantei.
— E eu deveria simplesmente aceitar?
— Não estou dizendo isso.
— Parece que está.
Jonas não respondeu.
Passei a mão pelos cabelos e olhei novamente para as vielas.
Dante.
Desde a noite em que Miguel morreu, aquele homem tinha se tornado uma presença constante na minha cabeça.
Eu lembrava dele entrando no cofre.
Molhado.
Coberto de sangue.
Abaixando a cabeça quando perguntei pelo meu marido.
Eu lembrava daquele silêncio.
E, acima de tudo, lembrava que ele nunca tinha me contado exatamente o que aconteceu naquela noite.
Talvez fosse por isso que eu não conseguia confiar nele.
Talvez porque alguma coisa dentro de mim dissesse que havia algo errado.
— Onde vai ser essa reunião?
— No galpão.
— Que horas?
— Daqui a uma hora.
Assenti.
— Pode ir.
Jonas pareceu surpreso.
— A senhora vai?
— Vou.
Ele saiu sem dizer mais nada, eu fiquei sozinha na varanda, olhando para o morro.
Uma hora depois, coloquei uma roupa preta simples e desci. O caminho até o galpão pareceu mais longo do que realmente era. As pessoas me observavam enquanto eu passava.
Algumas baixavam a cabeça, outras cochichavam eu sabia o que estavam pensando.
A viúva do dono morro.
A mulher que tinha perdido o marido.
A mulher que agora estava sozinha.
Quando entrei no galpão, encontrei dezenas de homens reunidos e ele estava lá.
Dante estava no centro.
E pela primeira vez eu o enxerguei de uma maneira diferente. Ele usava uma camisa preta, as mangas dobradas até os antebraços. O rosto estava sério e os olhos percorriam o ambiente com atenção. Não havia hesitação nele.
Parecia que já tinha nascido preparado para aquele momento. Quando me viu entrar, os olhos dele encontraram os meus.
Por alguns segundos, ninguém falou.
Eu continuei andando até ficar diante de todos.
Dante foi o primeiro a quebrar o silêncio.
— Alana.
Não respondi.
Ele me observou por alguns segundos antes de olhar para os homens.
— Todo mundo sabe por que estamos aqui.
Ninguém interrompeu.
— O Miguel morreu deixando uma guerra aberta. Os homens que invadiram o morro não desapareceram. Eles estão esperando uma oportunidade para voltar.
Alguns homens assentiram.
— Enquanto eu estiver aqui, ninguém vai entrar e tomar o que é nosso.
Meu coração apertou ao ouvir aquilo.
Ele continuou.
— A partir de hoje, eu assumo o comando do Morro da Esperança.
Um murmúrio percorreu o galpão.
Eu permaneci imóvel.
Dante olhou diretamente para mim.
— E vou fazer o que for necessário para proteger esse lugar.
Eu dei um passo à frente.
— Proteger?
Todos olharam para mim.
Dante não desviou os olhos.
— Sim.
— Foi isso que você disse que estava fazendo naquela noite?
O ambiente ficou pesado.
Ninguém respirava direito.
Dante ficou em silêncio.
— Porque enquanto você estava mandando seus homens avançarem pelo rádio, meu marido estava morrendo em alguma rua desse morro.
Um homem tentou falar alguma coisa, mas Dante levantou a mão.
— Deixa ela falar.
Eu ri sem humor.
— Que generoso.
Ele continuou me olhando.
— Você quer saber o que aconteceu naquela noite?
— Quero.
— Então um dia eu vou te contar.
— Um dia?
Minha voz subiu.
— Meu marido morreu há seis dias e você ainda está me dizendo que um dia vai contar?
Dante apertou a mandíbula.
— Porque algumas coisas ainda precisam ser descobertas.
— Ou escondidas.
Os olhos dele ficaram mais escuros.
— Eu não matei o Miguel.
Meu coração disparou.
— Eu não disse que matou.
— Não precisava dizer.
Ele deu um passo na minha direção.
— Está escrito no seu olhar.
Eu sustentei o olhar dele.
— Talvez porque você nunca me deu motivo para pensar diferente.
Dante ficou em silêncio.
Depois virou-se para os homens.
— A reunião acabou.
Todos começaram a sair.
Eu permaneci no lugar.
Quando o último homem deixou o galpão, Dante ficou diante de mim.
— Você não deveria ter vindo.
— E você não deveria ter assumido o lugar do meu marido.
Ele respirou fundo.
— Eu não assumi o lugar dele.
— Para mim parece exatamente isso.
— Eu jamais poderia substituir o Miguel.
A maneira como ele falou aquilo me fez ficar em silêncio.
Dante se aproximou um pouco.
— Ele era seu marido. Meu irmão de guerra. O homem que confiou a vida dele a mim.
— Então por que ele morreu?
A pergunta saiu quase como um sussurro.
Dante fechou os olhos por um instante.
— Porque naquela noite alguém abriu uma porta que nunca deveria ter sido aberta.
Meu coração acelerou.
— O que isso significa?
Ele abriu os olhos.
— Significa que a invasão não aconteceu por acaso.
Antes que eu pudesse perguntar mais, ele se afastou.
— Volta para casa.
— Dante...
— Eu disse para você voltar para casa.
— Essa é a minha casa.
Ele me encarou.
— Por enquanto.
Franzi a testa.
— O que você quer dizer?
Dante demorou alguns segundos para responder.
— Você não pode continuar sozinha naquela casa.
— Eu estou muito bem sozinha.
— Não está.
— Você não sabe nada sobre mim.
— Sei o suficiente.
— Então fala.
Ele ficou em silêncio.
— Fala, Dante.
— Os rivais sabem que você está sozinha.
Meu sangue gelou.
— E daí?
— Daí que você virou um alvo.
— Eu sou a viúva do antigo dono. Claro que sou um alvo.
— Não. Você não está entendendo.
Ele se aproximou.
— Eles podem tentar sequestrar você para chegar até mim.
— Até você?
— Até o comando.
Balancei a cabeça.
— Então coloca homens na porta da minha casa.
— Já coloquei.
— Ótimo. Problema resolvido.
— Não.
— Por quê?
Dante respirou fundo.
— Porque você não vai continuar morando naquela casa.
Eu fiquei olhando para ele.
— O quê?
— Você vai ficar comigo.
Soltei uma risada incrédula.
— Nem morta.
— Alana...
— Eu não vou morar na sua casa.
— Não é um pedido.
— Você não manda em mim.
— Nesse caso, não estou mandando. Estou tentando manter você viva.
— Eu consigo me proteger.
— Não consegue.
Aquelas palavras me irritaram ainda mais.
— Você acha que eu sou uma mulher indefesa?
— Não.
Ele me encarou.
— Acho que você é uma mulher que acabou de perder o marido e que ainda não percebeu que a guerra não terminou.
Eu fiquei calada.
— Você pode me odiar o quanto quiser — ele continuou. — Pode desconfiar de mim, pode acreditar em tudo que falam sobre mim, mas enquanto essa guerra estiver acontecendo, você vai ficar onde eu conseguir proteger você.
— E onde seria isso?
Dante respondeu sem hesitar.
— Na minha casa.
Meu coração bateu forte.
— Eu não vou morar com você.
— Vai.
— Não vou.
— Alana, eu não estou pedindo.
— E eu não estou aceitando.
Dante ficou parado diante de mim.
Por alguns segundos, parecia que estávamos travando uma guerra silenciosa.
Até que ele falou:
— Você pode me odiar todos os dias pelo resto da sua vida. Eu não me importo.
Ele se aproximou o suficiente para que eu pudesse sentir o perfume dele.
— Mas eu não vou deixar você morrer.
Meu corpo inteiro ficou tenso.
Eu me afastei.
— Eu não preciso que você cuide de mim.
— Talvez não.
Ele pegou as chaves sobre a mesa.
— Mas eu preciso garantir que você continue viva.
— Por quê?
Dante parou.
Por um instante, algo diferente passou pelo olhar dele.
Algo que eu não consegui entender.
Mas desapareceu rápido demais.
— Porque foi isso que eu prometi ao Miguel.
Aquelas palavras me atingiram.
Eu não respondi.
Dante passou por mim e saiu do galpão.
Eu fiquei parada, tentando entender por que aquelas quatro palavras tinham mexido tanto comigo.
Prometi ao Miguel.
Talvez fosse apenas isso.
Uma promessa.
Uma obrigação.
Nada além disso.
Eu ainda não sabia que estava errada. Naquela mesma tarde, quando voltei para casa, encontrei minhas coisas sendo retiradas dos armários.
— O que está acontecendo?
Um dos homens se virou.
— O Dante mandou levar suas coisas.
Meu coração disparou.
— Para onde?
Ele respondeu como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
— Para a casa dele.
Eu fiquei imóvel.
Olhei para as caixas sendo carregadas.
Para os meus vestidos.
Para os objetos que tinham pertencido a mim e a Miguel. Minha vida inteira parecia estar sendo colocada dentro de caixas sem que ninguém tivesse perguntado se eu queria.
Peguei o celular e liguei para Dante.
Ele atendeu no segundo toque.
— O que você está fazendo?
— Protegendo você.
— Mandando tirar minhas coisas da minha casa?
— Alana...
— Eu não vou morar com você.
— Você vai.
— Eu odeio você.
Houve silêncio do outro lado.
— Eu sei.
A resposta calma dele me deixou ainda mais irritada.
— Então por que está fazendo isso?
Dante demorou alguns segundos.
— Porque odiar alguém é melhor do que enterrá-la.
Desligou.
Eu fiquei olhando para o telefone.
E naquele momento entendi que minha vida tinha acabado de mudar novamente. Miguel tinha sido enterrado seis dias antes.
Agora Dante Carvalho era oficialmente o novo dono do Morro da Esperança.
E eu, a viúva do antigo dono, estava sendo levada para morar sob o mesmo teto que o homem em quem eu menos confiava.
Sem saber que, dentro daquela casa, eu descobriria que algumas verdades eram muito mais perigosas do que os boatos que circulavam pelo morro.