Prólogo
Murilo Ferreira
Não sei por onde começar, não sei se levo todas as minhas roupas, se levo apenas algumas. Não sei o que fazer na verdade.
Terminar um relacionamento onde você era apenas um apetrecho barato, é doloroso, ainda mais quando você descobre ser só um objeto.
Diogo, ah! eu realmente pensei que ele me amava, mas não passei de algo para ele descontar suas frustrações, era constantemente xingado e humilhado. O conheci tem uns 3 anos, e no primeiro mês de namoro ele já demonstrou ser abusivo, não sei como continuei com ele durante todos os outros 10 meses. Respiro fundo, tentando não trazer memórias ruins. Ele aos poucos estava apagando meu brilho, me obrigando a usar coisas que eu não gostava, me proibia de sair com meus amigos. Até mesmo deixei de falar frequentemente com meu irmão, barra, melhor amigo. Fui fraco em aguentar tudo.
Sei que tudo terminou já faz um ano, mas parece que foi ontem, durante todos esses 12 meses eu não vivi, apenas sobrevivi, tinha pesadelos todas as noites com ele, não estou conseguindo dormir direito. Então resolvi me mudar, na verdade, voltar para o Brasil.
Nunca contei nada do que vivi a Bruno, tenho certeza de que ele sairia da sua casa e viria bater aqui na minha porta. Contei para minha mãe, já perto de quando realmente tive coragem para pôr um fim aos abusos dele, quando escutei minha querida mãe chorar por tudo o que eu relatava a ela, vi que não estava deixando ele ser monstruoso apenas comigo, isso estava afetando a felicidade da minha mãe também. Então terminei tudo. Lógico que ele fez um escândalo, mas fui firme, tinha medo de que ele me batesse, nunca chegou nisso, apenas empurrões, mas me senti apavorado de que daquela vez ele levantasse a mão para mim, sorte de estamos em um local público. Depois disso mudei a senha da porta de casa, e me sinto mais seguro, não menos com medo.
Não é por causa dele que estou indo embora. Apenas sinto que aqui não é mais meu lugar. Minha loja faz sucesso aqui, mas vou transferir tudo para o Brasil. Aprender tudo o que tinha que aprender aqui, colecionei muitas experiências. Quero levar tudo isso para o lugar onde meu coração manda eu voltar. Noto que enquanto lembrava de coisas de um passado não tão distante, coloquei todas as peças de roupas na mala, graças a deus que coube, me esforço um pouco e ela fecha. Em uma caixa, coloco meus poucos livros. Do autor brasileiro Valério Junior, nunca fui muito chegado a livros, mas por acaso passeando numa livraria aqui perto onde moro assim que cheguei nos EUA, me deparei com o livro As incríveis estrelas no céu desse autor, eu comecei a ler lá mesmo e me apaixonei, hoje tenho todos os livros do Valério, não sei o que tem, mas a escrita dele parece chamar por mim. Me peguei mais surpreso ainda por gostar por se tratar de um romance científico, as vezes não entendo nada com alguns termos, mas são cada cenário lindo que ele descreve, um romance impossível eu diria para meros humanos. Me pego sempre me questionando de onde ele tirou tanta imaginação para criar coisas como as que eu encontro no livro, lugares mágicos onde os casais sempre se encontram, poderes e intrigas, a escrita dele sempre me prende. Acho que o autor ver o romance como algo impossível, por isso ele escreve coisas surreais para os casais, acho que Valério busca um amor, um amor que ele acha impossível de encontrar, com tanta confiança, parceria, lealdade, eu diria que eu estou que nem ele, estou começando a pensar ser apenas um conto esse tal de amor verdadeiro.
A vida me machucou de várias maneiras, eu não precisei levar uma surra do meu ex para ter traumas, pois as palavras ficaram presas na minha mente, no meu coração, acho que nunca vou ser capaz de amar novamente.
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Estou olhando nesse exato segundo para um céu escuro, estou dentro do avião, voltando para o Brasil. Depois de terminar meu curso de moda na França, eu resolvi voltar para casa, para os braços do meu irmão, Bruno, e para minha mãe.
Nos separamos a muito tempo, e em todos esses anos que estava estudando, eu não o vi uma vez. Pensei que minha vida estaria na França, mas me enganei, tinha um trabalho bom lá, uma casa linda e grande para morar, mas era vazia demais, me sentia sufocado dentro daquelas paredes.
E de uma hora para outra, aqui estou eu, vou chegar em São Paulo daqui a algumas horas, mas ainda não avisei Bruno que estava voltando, quero fazer uma surpresa para ele e meu cunhado, e ver de perto as bochechas fofas de Ana e dos gémeos, m*l acreditei quando meu irmão disse que adotariam gémeos, eles gostam mesmo de serem pais, conheci Ana pelo celular quando ela ainda tinha 1 ano, os meninos ainda não vi, mas logo os verei pessoalmente, já se passaram dois anos desde que os conheci e meu irmão se casou, eu nem mesmo fui para ver ele se casar, me arrependo disso, mas ele entendeu, pois no dia eu estava cheio de trabalho, e ainda achava que fora do Brasil era o meu lugar. Mas eu deixei minha família em segundo plano. Sei que tenho que ganhar dinheiro também para me sustentar, mas deixei tudo isso me consumir e não estive ao lado de Bruno num dos dias mais especiais da sua vida. Só vi através de fotos.
Já arrumei um apartamento e já tenho um espaço alugado no shopping para a minha própria loja que quero abrir. Estou ansioso para esse novo passo na minha vida. Quero poder ser feliz nesses novos planos que estou fazendo. E esquecer de vez o passado.
Deito minha cabeça no encosto confortável da minha poltrona, e tento dormi. Admirando a imensa escuridão através da janelinha, eu adormeço.
Acordo um pouco atordoado quando sinto aquele frio na barriga por ter o avião pousando...está feito, estou em solo brasileiro!
Sinto um pouco de medo, sim, medo, está voltando aqui, recomeçar toda minha vida do zero, vai ser um pouco difícil, creio eu. Mas aqui, pelo menos vou ter meu irmão, meu lindo cunhado e sobrinhos bagunceiros para mimar. Não posso me permitir sentir de medo de um novo recomeço. Eu o pônei, pequeno, porém forte e cheio de brilho, não vou deixar que nada me tire isso.
Desço da aeronave, e sigo até o grande aeroporto, leva alguns minutos, mas consigo pegar minha pequena mala, sigo para a saída e com sorte encontro um táxi, assim que me encontro dentro do mesmo lhe dou meu endereço, no rádio do carro toca uma música da qual não sei o nome ou quem é o cantor, mas gosto de como ela soa, então encosto minha cabeça no vidro da janela e vou olhando os prédios altos e luzes brilhantes, é bom estar de volta, é bom me sentir em casa, mesmo que meu coração esteja batendo loucamente de medo.
Quando sinto o carro parar, pago o motorista que se despede com um sorriso gentil, fico
alguns segundos parados na calçada, olhando o grande e imponente prédio a qual passarei meus dias, não é muito longe da casa do meu irmão, posso até mesmo ir andando até lá.
Tomo uma respiração profunda e sigo até o portão, aperto o interfone e logo o porteiro fala.
-Quem deseja ver?
-Desculpe, sou o novo inquilino do 206 no décimo andar.
-Só um minuto. - Escuto o interfone ser desligado e logo o portão é aberto, assim que entro para dentro vejo um pequeno jardim com algumas flores diversas e alguns bancos espalhados, ao lado direito vejo a pequena cabine, não sei como chama isso, mas vejo um senhor de mais ou menos uns 40 anos sair pela portinha, ele veste uma camisa social e calças sociais também, deve ser o porteiro. Sigo em sua direção e nos encontramos em frente a porta do prédio, que dá direto para o elevador.
-Seja bem-vindo senhor Ferreira. - Ele diz gentil.
-Apenas Murilo, por favor. - Ele sorri gentil.
-Ok, Murilo, preciso checar sua identidade. - Pego minha bolsa de costas e abro minha carteira, lhe entregando.
-Ótimo, está tudo certo, suas coisas chegaram hoje cedo, as caixas estão todas em ordem, chequei tudo e não falta nenhuma, se precisar de ajuda só interfonar. Suas chaves, a da porta, do portão aqui de baixo e a da porta que dá para a garagem.
-Muito obrigado, o senhor é muito gentil. - Ainda mais por não me olhar estranho por eu estar usando jeans e um cropped rosa de mangas. Pego minhas chaves e olho o senhor de cabelos já um pouco grisalho. - Seu nome, por favor.
-Ah, desculpas, acabei esquecendo. - Ele sorri tímido, acho até o senhor um fofo. - Me chame de Alberto.
-Prazer Alberto. - Lhe estendo minha mão a qual ele aperta.
-O prazer é meu, espero que se sinta em casa.
Com um sorriso, nos despedimos, subo pelo elevador e aperto o número do meu apartamento. Assim que saio do mesmo, vejo que tenho apenas dois vizinhos, sigo para a porta com a numeração 206, a olho por alguns segundos.
É real! Eu realmente estou aqui!
Respiro fundo e abro a porta, a sala é espaçosa, mas tem algumas caixas espalhadas, um sorriso se abre em meus lábios. Me coloco para dentro e fecho a porta atrás de mim. É uma sensação louca a que sinto nesse momento. É como está de volta ao lugar a qual você sempre pertenceu. Não é loucura? Rio sozinho, talvez não.
Abro meus braços e rodo em meus próprios pés olhando para o teto, um sorriso enorme em minha boca, pareço uma criança de dez anos que acabou de ganhar um quarto cheio de brinquedos de todos os tipos. Me jogo no sofá, é macio, muito macio, prevejo muitas noites aqui assistindo meus Doramas. Vai ser incrível!
Me levanto e sigo até a cozinha ao lado, é espaçosa e tem uma ilha linda em mármore preto, passo minha mão pela superfície gelada, vejo algumas caixas com o nome cozinha, eu gosto de cozinhar, mas não como um chefe profissional que é meu irmão Bruno, cozinho apenas pela minha própria alimentação.
Sigo em direção aos quartos, no corredor tem três portas, meu quarto, e o outro que vou fazer de estúdio para que eu possa desenhar à vontade minhas roupas, abro a porta e o espaço é maravilhoso, dá para colocar um manequim e minha escrivaninha e máquina de costura, já posso visualizar tudo perfeitamente.
Sigo para a outra porta, aqui é o banheiro de visitas, é espaçoso também, e muito bonito com azulejos brancos com alguns golfinhos desenhados. Saio do mesmo e sigo para o meu quarto. Tem um closet, não muito grande, mas o suficiente para todas as minhas roupas, tem também um banheiro próprio, que é aconchegante e minha enorme cama de casal, na qual eu me jogo e fico encarando o teto.
Vou começar uma nova vida aqui, serei feliz e completo, cercado pelas pessoas que amo e que me amam. Prevejo momentos lindos a serem vividos, pessoas novas a serem conhecidas, tenho altas expectativas.
Posso parecer um louco sonhador, mas apenas tenho fé, que vou realmente encontrar a felicidade de novo. Eu vou ser realizado. Vou vender minhas roupas, fazer novos amigos quem sabe, e talvez eu até possa encontrar meu escritor favorito, eu sei que ele mora aqui em São Paulo, posso ter a chance de ver ele de pertinho, sei que ele não aparece em público, tipo nunca, jamais, mas eu posso investigar e acabar descobrindo quem ele é, não para invadir a privacidade dele, se eu realmente descobrir quem ele é, lógico que vou falar com ele se tudo bem eu... Espera, acho que estou viajando na batatinha, não posso fazer isso com ele, não posso invadir a vida dele assim. Que d***a! Queria conhecer o rosto por trás das histórias que eu leio, me viro sobre a cama, ficando de barriga para baixo, sinto o bico se formar me meus lábios, esse homem deve ser um chato, ou um velho que não tem autoestima o suficiente para mostrar a cara, fala sério, o que tem demais em mostrar o rosto aos seus fãs? Sei que muitos perdem muitas coisas por se tornarem famosos, mas poxa, isso me irrita, pois eu só queria ver o rosto dele uma vez, por mais que eu saiba que seja errado impor minha vontade como fã, eu não posso deixar de desejar isso.
Que d***a, estou pensando demais, tenho pilhas e mais pilhas de caixas para desempacotar e arrumar, vai ser uma tarde longa, muito longa. Me levanto às pressas, vou começar arrumando minhas roupas, procuro pelas caixas que se encontram a maioria das minhas roupas e começo a colocar sobre a cama, para depois irem para o cabide e arrumadas no closet, será uma luta árdua que farei sozinho apenas com meus pensamentos
Ah! Que minha vida comece.
Bem-vindo a sua nova casa, pônei!