Um mês antes de ser mandado para Roma, Ethan conheceu Penélope, que não pôde passar muito tempo a conhecendo para a sua infelicidade.
Ainda odiava a madrasta ao se lembrar que havia perdido a oportunidade de estar perto da mulher que amava, simplesmente por capricho dela.
Fechou os olhos, não queria se lembrar da maldade da esposa do pai, queria se lembrar da primeira vez que viu de perto aquele olhos.
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Mais uma vez Ethan fugiu de casa, correndo da fúria de sua madrasta que insistia em dizer que ele havia quebrado o notebook do seu filho caçula.
Theodore era perverso como a mãe e sempre fazia algo errado para colocar a culpa em Ethan e assim ele ser ainda mais odiado por sua mãe.
Ethan por sua vez nunca revidou os ataques do meio-irmão caçula, ainda que o odiasse de todo o seu coração, jamais faria algo do tipo contra ele.
Correu pelas ruas da cidade de Nova York com toda a sua força, sua respiração descompassada denunciava que estava correndo a muito tempo.
O fôlego faltava e a respiração era rápida, parou por um instante em um parque, sentou-se em um balanço e só aí percebeu que estava machucado.
No trajeto até ali havia caído por correr tanto e tropeçar em uma calçada, seus pés descalços estavam tão machucados quanto a sua mão.
Sentiu a pele arder pela dor mas não se importava, seu coração doía muito mais pelas coisas que sua madrasta havia falado antes de fugir de lá.
Sentir dor física era bom, assim se esqueceria da dor que sentia em seu coração, ao menos era assim que o próprio pensava.
Ao vê-lo ali, Penélope franziu as sobrancelhas, conhecia Ethan de vista, estudavam na mesma escola e sabia que ele era filho do presidente de uma empresa que não sabia o nome.
Queria entender o motivo pelo qual ele estava ali, afinal, o próprio morava a uma longa distância daquele lugar.
Se aproximou mais um pouco, lentamente, analisando a situação em que ele se encontrava, por um instante ele levantou a cabeça e a encarou.
Ela encarou de volta, o olhou de cima a baixo e percebeu que ele estava cheio de machucados por toda a parte.
--- Você está machucado.
--- Não há problemas nisso.
--- Espere aqui, não saia desse lugar, eu voltarei, por favor, não saia.
Pen correu atravessando o parque e sumindo da vista de Ethan em questão de segundos, não entendia o que estava acontecendo.
A coisa que mais reparou na garota que havia acabado de conhecer eram a cor dos olhos, nunca havia conhecido tal beleza no olhar de outra pessoa.
Já tinha ouvido falar sobre heterocromia, mas era a primeira vez que conhecia alguém com essa condição, e constatou que era imensuravelmente belo.
Tinha certeza que nem em milhões de anos poderia contemplar tal beleza, pois aquela era única e incomparável.
Por um instante se lembrou do rosto dela, era a irmã de um dos seus colegas de classe, viu algumas vezes eles saírem juntos da escola.
Nunca havia reparado que ela tinha a cor dos olhos diferente, devia ter notado isso antes, poderia ter conhecido aquela beleza muito tempo atrás.
Quase meia hora depois Pen voltou, uma maleta com seu kit de primeiros socorros e um par de tênis que julgava ser novos.
Primeiro ela limpou pacientemente cada machucado, passou os medicamentos que julgou ser os ideais e colocou band aid em seus machucados.
O ajudou a calçar os sapatos já que as mãos dele estavam machucadas, e sorriu ao constatar que tinha se saído muito bem.
Ethan olhou para seus machucados que agora estavam cobertos por band aid de ursinhos, sorriu, pela primeira vez recebeu cuidado de alguém.
--- Obrigado.
--- Tudo bem, deveria estar doendo, sentir dor é r**m.
--- Na maioria das vezes não.
Pen tentou entender o que Ethan dizia, mas não conseguiu compreender.
--- Esses sapatos são novos?
--- Acabei de comprar, meu irmão me ajudou experimentando já que ele tem o mesmo tamanho do pé que o seu.
--- Porque gastou seu dinheiro comigo?
--- Você saiu de casa sem pegar ao menos um sapato, meu pai sempre diz que as pessoas que fogem de casa sem sapatos é porque quer fugir até mesmo dos calçados que nunca lhe pertenceu.
--- Por que seu pai te diria algo assim?
--- Não sei, meu pai é o tipo de pessoa que ninguém entenderia.
--- Concordo com você.
--- Porque fugiu de casa?
--- Minha madrasta me odeia.
--- E vai fugir de alguma situação só porque alguém odeia você?
--- Não há o que fazer.
--- Você não pode aceitar, mas fugir da situação também não vai te ajudar a solucionar o problema, experimenta começar a ignorar a existência dela, as coisas ficarão melhores para você.
--- Pen, hora de voltar para casa.
--- Já estou indo pai.
--- Bom, volte para casa, viva bem e seja saudável, quanto a sua madrasta, quando for adulto mostre a ela que você é muito mais que um simples ódio que ela sente, enquanto isso, a ignore como puder, não se esqueça que existem pessoas que se importam com o seu bem estar, eu sou uma delas.
Pen correu para o pai, e Ethan ficou ali, sozinho, mas dessa vez não havia solidão alguma ao seu redor, como se Penélope havia expulsado de vez a solidão.
Sentiu que agora não estava mais sozinho em um mundo repleto de ódio pela sua existência, a garota que acabou de conhecer trouxe luz para sua vida.
Olhou para os pés, sorriu mais uma vez, estava sorrindo tanto naquele dia que nem se conhecia mais, um simples cuidado e conversa de alguém o ajudou e muito.
Pela fisionomia de Pen, soube que ela ainda era uma criança, mas a mentalidade dela era muito maior que a idade.
Se levantou do balanço, voltaria para casa, não fugiria mais, dessa vez iria ignorar tudo que não fosse bom para si e continuaria vivendo.
Estava determinado a viver bem, assim como a garota havia sugerido, não iria decepcionar a única pessoa que cuidou dos seus machucados pela primeira vez.
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Essa era a lembrança mais bonita de toda a vida de Ethan, mesmo que vivesse por anos, jamais esqueceria aquele dia.
Conhecer Penélope foi a sua salvação, ela o salvou a anos atrás, mesmo que não soubesse disso, ela trouxe para a vida dele o que tanto precisava, luz, foi a luz que ela trouxe e desde aquele dia sempre que pensava em fugir, ou sumir de muitas situações, Ethan pensava que jamais iria decepcionar a mulher que amava.
Foi aquele o seu primeiro e ainda atual amor.
E como de costume, o primeiro amor sempre será inesquecível.