Amor, luta e resistência...

1304 Words
Dona Marlene narrando... O sol já tava se pondo, e eu aqui sentada na varanda da minha casa, observando a favela do Santa Marta, cada viela, cada canto… tudo carrega uma história, uma memória. E por mais que muita gente de fora só enxergue tragédia, violência, eu enxergo amor, luta e resistência. Sou mãe, e ser mãe na favela é carregar o peso do mundo nas costas, sabe? Quando meu filho nasceu… ah, o meu menino, eu jurei pra mim mesma que ia fazer de tudo pra ele ter uma vida diferente, para ele não se perder no meio desse caminho torto que a vida oferece pra quem nasce onde a gente nasce. Mas, quem mora aqui sabe que nem sempre a gente escolhe, né? Tem coisa que é a vida que escolhe pela gente. O meu Vinícius... ele é o orgulho da minha vida, um homem de coração bom, justo, trabalhador, amigo, sempre foi. Desde pequeno, eu via nele uma luz diferente, sempre solícito, sempre pronto pra ajudar quem precisasse, mas também, a realidade daqui nunca foi fácil. As oportunidades não chegam, as portas não se abrem, e eu sabia... sabia, no fundo da minha alma, que ele tava fadado a cair pro corre. Não porque quis, não porque sonhou com isso, mas porque a vida não deu escolha. E se é pra cair, que seja no certo, né? No comando que olha pelos nossos, que respeita, que protege a comunidade, porque aqui, graças à Víbora, o Santa Marta é sossegado. Ela tem pulso firme, ela sabe conduzir, não deixa a polícia invadir, não deixa facção rival fazer graça. E eu, como mãe, agradeço... agradeço todos os dias. Porque se é para o meu filho tá no movimento, que pelo menos ele tenha uma líder que se importa com os dela... Víbora e a Lunática são mulheres incríveis, eu as vi crescer e sempre admirei a força delas, Lunática é mais comunicativa, alegre e demonstra, já a Víbora é uma menina de ouro também, mas é mais fechada, centralizada e de poucas palavras, elas fazem de tudo pela comunidade e eu sei que a mãe delas estaria muito orgulhosa das mulheres fortes e maravilhosas que elas se tornaram... Hoje à tarde, recebi uma visita maravilhosa… a Lunática e a Víbora vieram aqui em casa tomar um café comigo, às duas são meninas de fibra, que seguram o corre com uma força que pouca gente entende, a Víbora, nem se fala, aquela ali nasceu pra ser chefe. E a Lunática, ah, essa menina tem um brilho no olhar que é difícil explicar. Tem uma coisa nela, uma força, uma leveza ao mesmo tempo, e olha, por mais que ela e meu filho vivam naquele jogo de só amizade, no fundo eu sei, eu vejo e eu sinto, tem sentimento ali. E eu, de mãe, percebo, e percebo de longe, assim como a Víbora. Fiz um bolo, passei um cafezinho, e ficamos na resenha, falando da vida, rindo, como se o mundo lá fora não existisse, como se tudo fosse normal, como se não tivesse esse peso todo que a gente carrega todo dia. Foi leve, foi gostoso e eu precisava disso, precisava distrair a mente, e elas me ajudaram bastante. Depois que elas foram embora, vi o meu menino chegando, ele vinha sorrindo, daquele jeito dele que ilumina qualquer canto, se tem coisa que me deixa feliz nessa vida… é ver aquele sorriso no rosto dele. Porque, olha, ele merece. Marlene: Chega mais, meu filho, senta aqui comigo. — bati no banco da varanda, dando espaço pra ele, o mesmo se sentou, sorriu e jogou o boné pro lado, me olhando meio sem entender. Chavoso: Que foi, mãe? Tá me olhando desse jeito por quê? — ele perguntou, sorrindo e eu cruzei os braços, encarando. Marlene: Tô te olhando sabe por quê? Porque tu é meu orgulho, meu filho. E eu fico feliz de te ver assim, rindo, leve. — falei, sentindo o coração apertar, ele abaixou a cabeça, riu de canto, meio sem jeito. — As meninas passaram aqui hoje, sabia? — comentei, olhando de lado. Ele levantou o olhar na hora, e aquele sorriso… aquele sorrisinho safado que só ele sabe dar, brotou no rosto. Chavoso: Passaram? — respondeu, com o sorriso ainda no rosto. Marlene: Sim, a Víbora e a Lunática... E tu gosta dela, né, da Lunática? — soltei, direta, ele arregalou os olhos, deu uma risada e balançou a cabeça. Chavoso: Que isso, mãe, da onde tu tirou essa parada? para com isso, somos só amigos. — tentou desconversar, mas eu, que pari, conheço. Marlene: Tu acha que engana quem, moleque? De onde eu tirei essa parada? — falei rindo e neguei com a cabeça. — Tu acha que eu não vejo esse brilho no teu olho quando fala dela? — provoquei, cruzando os braços. — Eu que te coloquei no mundo, Vinícius... — Ele ficou quieto, sorriu e olhou pro lado, mordendo o lábio. Chavoso: Sei lá, mãe… ela é diferente, a Lunática é outra fita… — confessou, meio baixinho, mas com sinceridade. E o meu coração apertou, eu sei que vida de mulher no corre não é fácil, mas também… quem sou eu pra julgar? Eu sei que quando o amor chega, não tem manual, não tem regra. Marlene: Só cuida do teu coração, meu filho… — falei, passando a mão no rosto dele. — Porque a vida já é dura demais pra gente perder tempo com coisa que não vale, mas se for amor de verdade, aí sim, vale tudo, mas sendo honesta, eu acho que é recíproco, acho que existe sentimento do lado dela também. — disse e ele me olhou, com um brilho nos olhos e sorriu. Chavoso: Existe não, coroa, aquela ali me vê só como um amigo mesmo. Marlene: Veremos... — falei sorrindo e ele segurou minha mão, beijou, e esse momento, ah... esses momentos ao lado do meu menino não tem preço! Quando a noite caiu, senti o corpo pesar, aquela tosse que já vem me castigando há dias apertou, começou baixinha, meio espaçada, mas foi ficando mais forte. O peito ardia, parecia que tinha fogo por dentro, fui para a cama mais cedo, mas não teve jeito, a tosse não deu trégua. Me virei de um lado, me virei do outro, e nada, o peito apertando, o ar faltando. Segurei no terço que fica na cabeceira da cama, rezei baixinho, pedindo força. “Senhor… segura na minha mão, me dá força pra eu continuar, porque eu sei… eu sei que essa batalha não vai ser fácil, mas eu quero lutar e quero vencer.” Lá pelas três da manhã, consegui cochilar um pouco, mas o cansaço já tinha tomado conta, eu sei muito bem o que é, não sou boba. O corpo fala, e a gente aprende a escutar, essa doença já vem me dando fortes sinais... amanhã mesmo eu vou no hospital resolver a situação sobre... eu preciso saber direitinho como vai ser esse tratamento, porque eu não posso deixar o meu filho sozinho nesse mundo. Não agora, não enquanto eu puder lutar. A favela silencia na madrugada, só o som dos grilos, uns cochichos de vez em quando, demonstrando que tá tudo certo no plantão. E eu aqui, olhando pro teto, pensando na vida, no quanto a gente luta, no quanto a gente apanha, mas também no quanto a gente ama, até porque, no fim das contas, é isso que mantém a gente de pé, o amor. O amor pelos nossos, o amor pelo que a gente constrói, pelo que a gente defende, e se for pra ir, que eu vá sabendo que o meu filho tá cercado de amor, de cuidado, e, quem sabe, até de um amor que ele nem percebe que já tem nas mãos.
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