Pai, fortalece ela...

1345 Words
Chavoso narrando... A noite já tinha chegado, e eu tava ali, jogado na cama, olhando pro teto, cabeça mil grau, pensando em tudo e em nada ao mesmo tempo, o papo que eu tive com a minha coroa na varanda não saía da minha cabeça. Ela me conhece como ninguém nesse mundo, pode passar quem for pela minha vida, pode colar quem quiser, mas ninguém, ninguém, me lê do jeito que ela lê. Fiquei lembrando dela me encarando, com aquele olhar que atravessa a gente, que vê além da casca, além do sorriso, além das palavras, ela jogou na minha cara o que eu não queria pensar, pois é a verdade, eu gosto da Alicia, peguei o meu celular, desbloqueei, e como quem não quer nada, abri a galeria, fui passando foto por foto, até parar numa que eu tinha tirado dela sem ela perceber, tava rindo, toda largada, sorriso aberto, aquele cabelo preso de qualquer jeito, mas linda. Fiquei encarando aquela foto, e sem perceber, o sorriso bobo tomou conta do meu rosto, "eu tô f.udido” pensei para mim mesmo! Passei a mão no rosto, e dei uma risadinha, mas é aquilo, eu sei que ela é diferente, a Lunática não é qualquer mina. Ela é guerreira, é linha de frente, carrega o corre nas costas, cuida do morro como se fosse filho. E, sinceramente? Eu admiro isso nela. Enquanto minha mente tava viajando nesses pensamentos tortos, um barulho me tirou do transe, era a tosse da minha mãe… começou fraquinha, mas foi ficando mais forte e mais pesada... Na hora, meu peito apertou, levantei meio no susto, fui até a porta do quarto dela, encostei a orelha na porta e ouvi ela tossindo muito, aquilo me cortou de um jeito que não sei nem explicar. Voltei para o meu quarto e segurei firme no terço que sempre fica pendurado na cabeceira da minha cama, fechei os olhos e, no automático, comecei a orar baixinho... "Senhor… cuida da minha coroa, Pai… fortalece ela, dá saúde, dá força… não deixa ela fraquejar, não, Deus. Ela é tudo que eu tenho nessa vida, não me deixa perder ela, não... Por favor…” A voz embargou, senti os olhos marejar, respirei fundo, tentando não desabar, porque se eu desabasse, quem ia segurar? Quem ia segurar ela, quem ia segurar a casa, quem ia segurar tudo? Fiquei ali, sentado na cama, encarando o nada, com o terço na mão, ouvindo aquela tosse machucar quem eu mais amo nesse mundo. E juro, juro por Deus… se eu pudesse, eu trocava de lugar com ela na hora, preferia mil vezes ser eu sofrendo, do que ver minha véia daquele jeito. Quando deu umas três da manhã, o silêncio tomou conta, ela deve ter conseguido dormir, porque parou de tossir. Fiquei só olhando pro teto, pensando em como a vida é sacana. Dá, tira, testa a gente até o limite. Mas se ela pensa que vai me derrubar, ah, não vai não, porque eu sou cria de Dona Marlene, e ela me ensinou a ser forte, a não abaixar a cabeça pra vida... Não demorou muito e o sono apareceu... Acordei na manhã seguinte, o sol estava meio escondido entre as nuvens, mas já dava pra sentir que ia ser quente, levantei meio quebrado, corpo pesado, cansaço da noite m*l dormida e fui pra cozinha, e como sempre, encontrei minha coroa lá, preparando o café, fingindo que tava tudo normal, que tava tudo bem. Só que eu não sou cego, a olheira no rosto dela entregava, a pele mais pálida, o cansaço estampado, me aproximei, beijei o rosto dela e sentei à mesa. Marlene: Bom dia, meu filho… dormiu bem? Chavoso: Dormi... Mais ou menos. E tu? — perguntei, encarando, ela respirou fundo, evitou meu olhar, como quem não quer preocupar, mas eu percebi. E foi ela que puxou o assunto. Marlene: Então... hoje eu vou no hospital, Vinícius, preciso ver logo esse negócio, entender como vai ser o tratamento, saber se dá tempo de começar logo... — a voz dela falhou no final. Eu vi que ela segurou o choro, vi que ela quis ser forte pra não me desmontar. Chavoso: Eu vou contigo, e nem adianta falar que não, eu vou e ponto. — falei firme, olhando nos olhos dela. Marlene: Que isso, meu filho… não precisa, tu tem teus corres… — tentou desconversar. Chavoso: Ô, coroa, tu acha que eu vou ficar no corre, enquanto tu tá lá, sozinha, ouvindo médico falar de exame, de tratamento, tá maluca, mãe? Eu tô contigo nessa luta. — falei e levantei, pegando o celular do bolso. Ela ficou me olhando, meio emocionada, segurando aquele sorriso de quem se sente protegida, cuidada, abri o w******p e, na hora, procurei o contato dela, Alícia. O coração já deu aquele pulo, só de ver o nome dela na tela, respirei fundo e mandei áudio, porque na escrita ia parecer mais frio. Mensagem on... Chavoso: E aí, Lunática, bom dia... então, deixa eu trocar uma ideia contigo, a minha coroa vai pro hospital hoje ver uns bagulhos do tratamento dela, e eu vou acompanhar, tá ligado? Queria saber se tu consegue me liberar do plantão hoje, só pra eu colar com ela lá... depois eu volto pro corre, suave. Mandei o áudio, mas não consegui largar o celular, fiquei ali encarando, esperando a resposta, com aquele frio na barriga que nem sei explicar se era preocupação com minha mãe ou nervoso de falar com ela, ou os dois. Mensagem off... Enquanto esperava, minha mãe veio até mim, segurou meu rosto com as duas mãos, e me olhou daquele jeito… aquele jeito que só mãe sabe olhar. Marlene: Meu filho... você é tudo pra mim. Tudo. — os olhos dela marejaram. — E eu sei que Deus me deu você porque sabia que eu ia precisar de alguém assim, forte, parceiro, amoroso, guerreiro e corajoso. Eu te amo, Vinícius. E olha, qualquer coisa que aconteça, nunca esquece disso. Na hora, não deu… segurei ela nos meus braços, apertei, e aquele abraço foi mais que um abraço, foi um pedido de proteção, foi uma oração muda, foi amor puro, sem filtro, sem barreira. Chavoso: Eu te amo, coroa, mais que tudo nesse mundo. E olha, tu não vai pra lugar nenhum não, hein, tu vai ficar boa, nós vai passar por essa juntos, tu vai ver. — falei, segurando a emoção na garganta. O celular vibrou, e quando olhei, era ela... Lunática. Mensagem on... Lunática: E aí, bonitão… — sorri, ela sempre me chamava assim... — claro que pode, pô. Tá liberado, lógico, cuida da dona Marlene aí, que ela é importante pra caramba, qualquer coisa, se precisar de mim, só chamar, tá? Fica tranquilo quanto ao corre, tá na paz. Deus abençoe ela, e vocês dois. — Só de ouvir aquela voz, aquele jeito dela falar, meu peito aqueceu, sorri de canto Chavoso: Valeu, surtadinha, de coração. Tamo junto sempre, brigadão, de verdade. Depois te dou um salve, fechou. — respondi com outro áudio, na mesma hora. Mensagem off... Guardei o celular, me sentei de volta na mesa e olhei para a minha coroa com um sorriso no rosto. Chavoso: Pronto, tá tudo certo, hoje tu não vai sozinha, não. Eu vou contigo e depois a gente volta, faz aquele café, e assiste nossa novelinha de sempre. — falei, rindo. Ela riu, limpando uma lágrima que teimava em cair, e me abraçou de novo. Marlene: Tu é meu maior orgulho, meu filho… meu maior presente de Deus. E naquele momento, ali, na cozinha da nossa casa simples, com cheiro de café fresco, com o sol entrando pela janela e iluminando o rosto dela… eu entendi que não tem nada no mundo mais valioso que isso. Que o amor, o amor salva, o amor cura, o amor fortalece, principalmente o amor de uma mãe. E se for pra eu guerrear, que seja por ela, pela minha coroa, pela mulher que me ensinou a ser quem eu sou, eu tô com ela e vamos vencer essa batalha!
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