Lunática narrando...
A manhã já tava fervendo no morro, aquele sol tímido dando espaço pras nuvens pesadas que prometiam uma chuva daquelas no final do dia, o rádio não parava, vapor avisando aqui, alerta dali, e eu na laje com a Víbora, de olho em tudo. E, claro, a mente também no Vinícius... Quer dizer, no Chavoso. Desde aquele selinho que eu dei nele, nossa amizade ficou diferente, ficou mais, sei lá, mais quente, mais próxima, mais cheia de coisa que a gente não fala, mas sente, e com as ideias da Víbora e da Dona Marlene na minha mente, eu já nem sei mais o que pensar e nem o que eu sinto.
Víbora tava do meu lado, de braços cruzados, olhando pro horizonte, aquele olhar que quem conhece sabe, ela não dá ponto sem nó.
Víbora: Tá percebendo que aquele carro prata passou três vezes aqui na entrada do Morro, já? — ela falou, semicerrando os olhos.
Eu já tinha percebido, mas tava quieta, só observando, respirei fundo, peguei o celular e liguei para o Furacão na hora.
Ligação on...
Lunática: Furacão, cola aqui no Morro, precisamos ajeitar umas coisas.
Furacão: Logo tô aí.
Ligação off...
Víbora: O que tu quer com ele? — a mesma pergunta e eu sorrio.
Lunática: Esqueceu que ele também tá sob ameaça e ele tem uma velha amiga que vai ajudar nessa? Está na hora de darmos jeito. — ela apenas confirmou e voltou a olhar o Morro e o asfalto, daqui dessa laje, tínhamos uma visão privilegiada.
Cerca de meia hora depois o Furacão chegou, subiu direto para cá e logo atrás dele, uma mina, eu a reconheci na hora.
Lunática: Tá de sacanagem... — abri aquele sorriso largo. — Camila? quanto tempo, mulher! — abracei forte, daquele jeito apertado que só quem tem história junto entende.
Camila foi cria daqui, depois foi morar no asfalto... ela está toda diferente, olhar firme, postura de quem não abaixa pra nada nem ninguém, Furacão deu aquele sorrisinho safado, cruzando os braços.
Furacão: Achei que não ia lembrar dela, nós nos cruzamos uma vez e ela me disse que era daqui, falou que conhecia você. — confirmei, eu e a Camila sempre fomos amigas, ela e a Víbora se davam bem também, mas não como eu e ela.
Víbora: Aquele carro prata já rodou aqui mais de três vezes, e além disso, Peixe não saiu do morro desde ontem, tá estranho.
Camila respirou fundo, ajeitou o boné pra trás e puxou um cigarro do bolso.
Camila: Então... sobre isso... — ela acendeu, puxou fundo e soltou a fumaça devagar. — A real é que eu vim exatamente pra isso, Furacão me chamou porque eu tenho contato lá dentro do Morro do Peixe, ele tá bolando alguma coisa, Peixe tá fechando com gente de fora, e não é só tráfico não... tem milícia no meio. — ela deu outra tragada. — E aquele carro, não é dele, mas pode ser de um dos milicianos.
Eu e Víbora trocamos aquele olhar que não precisava de palavras, só no olho, a gente já sabia que o bagulho tava feio.
Lunática: Isso não é bom. — falei, cruzando os braços. — o Peixe a gente conhece muito bem, mas os de fora, já é mais complicado.
Furacão assentiu.
Furacão: A ideia é infiltrar a Camila lá, pelo menos por uns dias, ver qual é desse movimento. Ela tem acesso livre lá, tem uma amiga que mora no Morro. — Víbora respirou fundo, olhou pro horizonte e depois encarou a gente.
Víbora: Então, que se preparem, porque se tiver coisa errada, nós vai estourar essa p.orra antes que eles pensem em pisar aqui. — Assenti, olhando pra Camila.
Lunática: Se tu vai entrar lá, é perfil baixo, hein? Sem dar bandeira, sem deixar rastro. Qualquer coisa estranha, tu puxa no rádio direto comigo. — ela deu aquele sorriso maroto e apagou o cigarro no chão da laje
Camila: Relaxa, bebê. Aqui é cria, sei me virar muito bem.
Depois da reunião, o clima ficou pesado, mas minha cabeça não parava de ir pra outro lugar... Chavoso e Dona Marlene, peguei o rádio, passei uns direcionamentos pro pessoal do corre, chequei que tava tudo sob controle, e desci. Peguei a moto e fui descendo a viela, já no pensamento deles.
O caminho até a casa dele é curto, mas hoje pareceu mais longo, coração acelerado, não sei se era ansiedade ou preocupação. Bati na porta, e quem abriu foi ela, Dona Marlene, com aquele sorriso que, mesmo meio abatido, ilumina qualquer canto.
Marlene: Olha quem tá aqui... — ela abriu mais a porta, e eu entrei. — Minha filha, que bom te ver!
Lunática: Ah, dona Marlene, eu que fico feliz, mulher... — abracei apertado, sentindo aquele cheiro de café e carinho que só casa de mãe tem, logo vi ele, Chavoso, saindo do quarto, com aquele sorriso de canto que está sempre em seu rosto.
Chavoso: E aí, surtadinha... — falou, cruzando os braços, com aquele olhar meio safado, meio carinhoso.
Lunática: Vim saber como foi no hospital... — sorri, olhando dos olhos dele pros olhos dela. — E então, como foi?
Dona Marlene se ajeitou na cadeira da cozinha, respirou fundo, e o sorriso dela ficou ainda mais largo.
Marlene: Graças a Deus, minha filha, notícia boa! O doutor disse que a doença tá no começo, o tratamento vai começar já semana que vem, e as chances são enormes. — os olhos dela marejaram. — Vai ser puxado, claro, mas tem tudo pra dar certo. — Na hora, não aguentei, segurei na mão dela e apertei forte.
Lunática: Glória a Deus, dona Marlene... — falei, sorrindo largo, sentindo o alívio invadir meu peito.
Chavoso puxou uma cadeira, sentou do meu lado, e colocou a mão na minha perna, daquele jeito leve, sem segundas intenções, mas que aquece mais que mil palavras.
Chavoso: Nós vai passar por isso juntos, surtadinha, ela não vai estar sozinha, não. — falou, olhando pra mim, depois pra mãe.
Lunática: E vocês também não. — respondi, olhando pros dois. — Porque se tem uma coisa que eu aprendi nesse mundão, é que quando a gente se junta, quando a gente segura na mão um do outro, nada, nada derruba a gente. — Dona Marlene riu, limpando uma lágrima teimosa.
Marlene: É... vocês dois são cabeça dura, mas são meu orgulho. — falou, olhando de um pro outro. — E olha... — segurou nossas mãos, uma de cada lado. — Eu sei que vocês acham que enganam essa velha aqui, mas olha, só não vê quem não quer, viu? — meus olhos arregalaram, e Chavoso soltou uma risada, meio sem graça, meio safada.
Chavoso: Que isso, coroa... — ele tentou desconversar.
Marlene: Ah, Vinícius... pelo amor, né? — ela deu aquele sorriso matreiro. — E você, Alicia... acha que eu não percebo esse jeito que tu olha pra ele, não? Eu sou velha, mas não sou cega, na realidade, os únicos cegos aqui são vocês dois. — soltei uma risada alta, escondendo o rosto nas mãos, Dona Marlene como sempre, falando na lata.
Lunática: A senhora não tem jeito, né... — falei, morrendo de vergonha e sorrindo.
Chavoso levantou, foi até o fogão, pegou a garrafa de café e serviu as três xícaras.
Chavoso: Então bora tomar esse café, porque hoje é dia de comemorar notícia boa. — falou, colocando a xícara na minha frente e piscando pra mim.
E ali, sentados naquela cozinha simples, com cheiro de pão na chapa, café passado na hora e amor transbordando pelos cantos, eu percebi que às vezes a vida bate, machuca, derruba, mas também entrega presentes que não têm preço.
E se for pra lutar, eu luto, pelo meu morro, pelos meus, e por eles. Porque quando a gente tem amor, a gente tem tudo, e olhando pra ele, ali, sorrindo, e pra dona Marlene, com aquele olhar de mãe, eu soube, de uma vez por todas, que eles também são a minha família e eu sempre estarei aqui por eles.