Víbora narrando...
Eu não sei o que passou na cabeça do Peixe, mas ele deixou declarado a Guerra, eu ainda só não entendi o porquê disso tudo agora, a gente nunca se fechou, mas era ele lá e nós cá, ai do nada, essas palhaçadas... Mas como eu disse, se ele quer guerra, ele vai ter, bala e disposição eu tenho de sobra!
Víbora: Ele tá pedindo pra morrer. — falei, cerrando os dentes, sentindo o meu sangue borbulhar de ódio, Lunática deu aquele sorriso torto, aquele que eu conheço bem sorriso de quem já tá imaginando o estrago que vai fazer.
Lunática: Peixe é abusado, tá achando que vai ficar latindo pra cima de nós e vai sair ileso? — ela passou a mão na cara, respirando fundo, segurando aquela raiva que ela sabe bem como transformar em ação.
Chamei no radinho o Clebinho e mandei ele colar na minha sala, depois de alguns minutos ele apareceu, a cara assustada, o medo estava nítido, e eu também estaria, já que foi ele quem trouxe a caixa.
Clebinho: Patroa, mandou me chamar? — confirmei e ele entrou na sala, olhou para mim e para a Lunática e deu um leve sorriso, ele estava sem jeito.
Víbora: Onde foi que ele entregou isso? — perguntei, olhando firme.
Clebinho: Não foi ele não patroa, foi um entregador normal, ele entregou na entrada do Morro. — respondeu, de forma firme. — Ele desceu e pediu para falar com a senhora ou a Lunática e eu neguei na hora, disse que não era assim que às coisas funcionavam e então ele me alcançou a caixa e disse "O Peixe mandou isso", olha eu não conheço esse Peixe, só fui pago e tô fazendo o meu trampo, entrega para uma delas por favor. E então ele saiu, além de ele falar, na caixa tem o vulgo dele aí, patroa. — Lunática deu uma risada debochada, daquelas que arrepia.
Lunática: Ele quer sumir, né? Pois eu mesma vou desenhar o mapa... — disse, olhando pra mim. — Bora fazer aquele movimento? — assenti, puxando o cigarro de maconha e acendendo com aquele estalo seco do isqueiro.
Víbora: Bora, tá liberado Clebinho... Só que antes, a gente vai jogar o jogo como se deve, inteligência primeiro, depois vem o bote. — ela cruzou os braços, respirando fundo.
Lunática: Tá certo... — balançou a cabeça. — Mas que dá vontade de meter logo o louco, dá.
Víbora: Também dá, mas a gente não pode errar agora. Peixe tá se criando, e tem milícia na espreita, se a gente pisar em falso, vira banquete pros urubu.
Ela concordou, e então metemos marcha para a Laje, ficamos sentadas, compartilhando o cigarro de maconha e olhando pro horizonte da favela, aquele mar de telhado, antena torta, bandeira do bonde tremulando no alto... O mundo que a gente defende, e que a gente mata e morre se precisar.
Víbora: E tem outra coisa... — falei, olhando de canto. — Não sei se você percebeu, mas desde aquele corre do Chavoso falando da mãe dele, os morro anda meio pesado. Energia estranha, tá rolando coisa que a gente não tá vendo. — Ela franziu a testa.
Lunática: Você acha...?
Víbora: Não acho, tenho certeza. — soltei a fumaça devagar. — Tem gente querendo minar a gente por dentro, a gente sempre segura a bronca e consegue ajeitar às coisas, mas agora com o Peixe, tá mais complicado, ele tá se criando... Tá estranho, isso, ele sempre ficou na dele, e agora tá vindo contra.
Lunática ficou em silêncio por uns segundos, depois me encarou.
Lunática: Então bora se organizar, fala com o Chavoso pra reforçar as contenções, sobe os olheiros, revisa o rádio... E me põe alguém na cola daquele Peixe também...
Víbora: Já coloquei um vapor na entrada do Morro, quero saber pra onde ele anda, quem ele come, onde dorme, onde caga, tudo. — falei sorrindo. — E logo vou achar alguém para infiltrar naquele Morro.
Nos encaramos, aquele olhar que dispensa palavra, somos sangue, somos parceiras, somos guerra e amor, na mesma medida.
Víbora: E outra... — falei, ajeitando a blusa. — Amanhã a gente vai voltar na casa da Dona Marlene, eu quero ver aquele sorriso dela de novo, e quero deixar claro que, enquanto eu e você estivermos vivas, ela nunca vai estar sozinha. — Lunática abriu aquele sorrisão, meio mole, meio emocionada, coisa rara de ver nela.
Lunática: Namoral... — ela respirou fundo. — a gente é braba demais.
Víbora: Sempre fomos. — dei aquele soquinho no ombro dela. — Sempre fomos. — falei rindo.
Meti marcha para a minha goma e tomei um banho me jogando na cama, eu só conseguia pensar em quem eu poderia colocar no Morro do peixe infiltrado, ficava tentando pensar qual seria o próximo passo dele e se a Milícia estava com ele ou sozinha, mas algo me dizia que eles estavam juntos... Eu estava quase pegando no sono quando o meu celular tocou, peguei vendo que era o Furacão, atendi na mesma hora.
Ligação on...
Víbora: Solta a voz...
Furacão: Também recebeu uma mensagem do Peixe? — sorrio desacreditada.
Víbora: Sim, o que dizia a sua?
Furacão: Que logo o meu reinado ia acabar e o teu e o da sua irmã também, os nossos impérios iam cair e ele quem vai acabar com eles, esse filho da p.uta perdeu o medo, só pode!
Víbora: Desgraçado, ele tá brincando com o perigo, não tá ciente do que podemos fazer com ele.
Furacão: E tinha um carro rondando o meu morro hoje, acho que era a Milícia, o que me leva a crer que eles estão juntos.
Víbora: Eu tô em busca de alguém para colocar infiltrado lá no Morro dele, só não sei ainda quem.
Furacão: Tem que ser mulher e eu tenho a mulher perfeita para isso. — ele diz e eu arqueio a sobrancelha, ele tem?
Víbora: Quem? — pergunto, curiosa.
Furacão: Uma velha amiga, eu tenho certeza que ela vai ajudar. — mordi o lábio inferior um pouco incomodada com isso. — Vou falar com ela e qualquer coisa eu te aciono.
Víbora: Beleza, fé...
Ligação off...
Pelo menos teríamos uma pessoa infiltrada lá dentro, que nós passaria tudo, e por mais que eu tivesse um pouco incomodada com o fato de ele ter uma "velha amiga" eu não poderia, pois não temos nada e nunca vamos ter, tivemos apenas uma única noite e pronto, não tem nem sentido uma parada dessas me incomodar.
Peguei o meu celular e acionei a Lunática que disse que logo colava aqui na minha goma, depois de alguns minutos ela apareceu e eu atualizei ela sobre a moça que o Furacão falou, ela me olhou com a sobrancelha arqueada.
Lunática: Velha amiga? Como se sente com isso?
Víbora: Normal, ué, não tenho motivo para estar incomodada, não entendi essa tua pergunta, namoral. — falei cruzando os braços e ela apenas deu risada. — Eu não sou tu não, Lunática, que fica se fazendo de cega. — vejo a mesma engolir seco e serro os olhos para ela.
Lunática: Vou dormir aqui hoje tudo bem? — confirmei e então comecei a preparar um jantar para nós, começamos a conversar sobre tudo, ela abriu um vinho e enquanto bebiamos, nós falamos sobre a Dona Marlene, do Chavoso e ela nem percebia, mas os olhos dela brilhavam quando ela tocava no nome dele, apenas sorri, aproveitando a paz que ainda temos, pois a Guerra estava mais perto do que nunca e logo não conseguiríamos ter esses momentos... Eu sabia que o jogo estava ficando cada vez mais pesado, e sangue iria escorrer, mas não seria desse lado, pelo menos não tanto!