Sento-me ao lado da cama de Anya e pego sua mão. A energia entre nós faz Argus uivar na minha cabeça. Sei que ela também sentiu, porque me olhou de um jeito diferente. Tento ler seus pensamentos, mas sua mente está vazia.
— Você não tem medo de mim, Anya? — Pergunto, encarando-a.
— Não. O senhor me dá segurança, uma sensação que não sei explicar, mas eu gosto. — Ela responde, olhando diretamente nos meus olhos.
Aproximo meu rosto do seu, sentindo seu cheiro de coco. Vejo sua garganta subir e descer enquanto ela engole a saliva. Seus olhos azuis são como o mar em um dia calmo. Sua respiração se acelera. Minha boca está a centímetros da dela quando ouvimos um gritinho de felicidade de Victoria na porta, e nos assustamos.
— O que será que está acontecendo com ela? — Anya me pergunta. Eu já sei a resposta.
— Não sei... Mas descanse, você precisa se recuperar. — Falo e me sento no sofá.
— O senhor vai passar a noite toda aqui? Eu estou bem. Não senti nada, não sofri nada. A única coisa que me incomoda é uma leve dor no pulso. — Ela diz, e me levanto, indo até ela. Sento na beira da cama.
— Posso? — Pergunto, mostrando para seus braços. Ela me olha sem entender e levanta as mãos. Seguro seus braços delicados e abro minha boca, passando a língua nas queimaduras. A saliva de um licantropo tem propriedades cicatrizantes.
Ela me olha, assustada, enquanto sinto seu gosto. Argus está querendo me dominar, assumir o controle, mas sou mais forte. Fecho os olhos e o reprimo mentalmente, mantendo-o em seu lugar.
— Está tudo bem, senhor? — Ela pergunta, seus olhos incríveis me prendendo mais uma vez.
— Sim. — Minha voz sai mais rouca do que eu imaginava. Ela retira a mão.
— Não vou te fazer m*l. Posso te perguntar uma coisa? — Pergunto, e ela me olha.
— Sim.
— Por que você diz que é uma sem alma?
— Sou uma ômega inútil. Tenho 19 anos e não consegui minha loba. A bruma passou e ela não veio. Fui a única da matilha a não ter um parceiro. — Ela responde, triste.
"**Ainda bem.**" — Argus resmunga na minha cabeça, e não consigo evitar um sorriso com seu tom sarcástico.
— Mas eu sinto que ela está lá. Talvez você só não teve o gatilho certo.
— Minha mãe disse isso, mas eu não sinto os efeitos que todos sentem. Não tenho espasmos na bruma, fiquei normal, e isso causou essas reações nas pessoas.
— Entendo. Talvez seu companheiro não more aqui, não seja da mesma matilha que você.
— Pode ser, ou talvez eu seja assim. A Deusa sabe o que faz, talvez eu tenha nascido sem alma. — Ela fala, e eu seguro seu queixo, levantando-o.
— Nunca diga isso. Eu vejo sua alma, eu sinto sua loba. Ela está aqui. — Coloco minha mão em seu coração, e nós dois sentimos algo inexplicável. Assim que a toco, uma sensação grandiosa nos invade.
— O que foi isso? — Ela pergunta, assustada.
— Não sei. — Respondo, levantando-me da cama e indo até a porta. Matias e Victoriaestavam lá.
— Você sentiu isso? — Matias pergunta assim que me vê.
— Sim. Chame a família dela. Ela vai conosco até Callagher. Preciso que a profetiza a veja.
— Eu... Não posso... — Anya tenta argumentar, mas eu a encaro. Não sei exatamente quem é Anya Magnus, mas sei que há algo nela que preciso entender com a ajuda de outra pessoa.
Matias sai do quarto, e Victoria entra, olhando de mim para Anya e sorrindo. Matias poderia morder a língua numa hora dessas.
— Anya, você sentiu alguma coisa? — Victoriapergunta.
— Só que meu braço formigou, mais nada.
— Foi muito forte. Eu e Matias sentimos algo em nossas cabeças, como um pensamento com sensações do outro lado do corredor. Alfa, o que você fez para que isso acontecesse? — Victoriame pergunta, e olho para Anya.
— Nada. Estávamos conversando e ele só me tocou aqui, e meu corpo tremeu e meu braço formigou. — Ela diz, e Victoriame olha intrigada.
— Isso é interessante.
— Senhor, eu não quero ir para Callagher. Tenho casa, amigos, minha família. — Anya tenta me persuadir, mas não vai conseguir. Sou o Alfa, e eu decido.
Assim que sua família chega, sua mãe, a anciã, corre em sua direção.
— Filha, o que aconteceu?
— Nada, mãe...
Ela revira os olhos, e entendo por que Anya não queria que sua mãe soubesse.
— Alfa. — Seu pai me cumprimenta, e logo sua mãe faz o mesmo.
— Meu senhor, me desculpe pela minha falta de postura, mas vi minha filha e...
— Tudo bem...
— Para o senhor estar aqui a essa hora com ela, algo aconteceu. — Seu pai me pergunta.
— Anya teve um encontro com o errante que estamos procurando. Apesar de não ter sofrido ferimentos graves, algo está fora do normal, e pretendo levá-la até a profetiza em Callagher.