POV – MAYA DUARTE LOMBARD
As setenta e duas horas seguintes à cirurgia foram um borrão de bipes de monitores, trocas de curativos e o cheiro persistente de antisséptico. Eu não saí do lado de Vinícius. Dormi em poltronas desconfortáveis e comi apenas o necessário, mantendo meu papel de médica como um escudo para esconder a mulher que queria apenas chorar de alívio toda vez que ele apertava minha mão durante o sono.
O Conselho inteiro passou por aquele quarto. Vittoria vinha todas as manhãs, o olhar carregado de uma fúria silenciosa contra os Vanchini, mas que se suavizava ao tocar o rosto do irmão. Lorenzo aparecia tarde da noite, parado à porta como uma sentinela sombria, trocando olhares de cumplicidade comigo que diziam mais do que qualquer relatório de segurança. Aurora trouxe flores e perfumes para tirar o cheiro de hospital, enquanto Benjamin chegava a tocar seu violino baixo no corredor, trazendo uma paz que a medicina não podia oferecer.
No quarto dia, Vinícius finalmente recebeu alta. Ele estava pálido, com o braço em uma tipóia rígida e ordens estritas de repouso absoluto.
— Finalmente vou sair dessa caixa branca — ele resmungou, enquanto eu o ajudava a se sentar na cadeira de rodas para levá-lo ao carro. — Eu odeio hospitais, Maya.
— Pois aprenda a não levar tiros, Vinícius — respondi, tentando manter a voz severa, mas falhando miseravelmente ao ver o brilho maroto retornando aos olhos dele.
POV – VINÍCIUS ORTEGA VITALE (Mansão-Base do Conselho)
A volta para a nossa base em Chicago foi um alívio. A mansão era uma fortaleza de luxo e tecnologia, mas agora, com o Conselho operando em capacidade total, ela parecia ter vida própria. Lorenzo havia designado a suíte mais tranquila do segundo andar para a minha recuperação, e Maya — por insistência própria e de toda a família Duarte — ficaria responsável pelos meus cuidados integrais.
A noite caiu sobre Chicago, trazendo uma chuva mansa que batia contra as janelas de vidro duplo. Eu estava sentado na cama, encostado em vários travesseiros, sentindo a ardência familiar da cicatrização no ombro. A porta se abriu suavemente e Maya entrou, carregando uma bandeja com medicamentos e materiais para o curativo noturno.
Ela não estava mais de jaleco. Usava uma calça de seda e uma regata justa, o cabelo preso em um coque desarrumado que deixava alguns fios caírem sobre o pescoço. Ela parecia... humana. Não a Dra. Lombard, mas a Maya que eu desejava desde o primeiro segundo.
— Hora da troca, Vinícius — ela disse, sentando-se na borda da cama.
Ela começou a remover a bandagem com uma delicadeza que me fazia prender a respiração. Seus dedos eram frios, mas o toque incendiava minha pele. Enquanto ela limpava a ferida, o silêncio no quarto tornou-se pesado, denso, carregado de tudo o que não tínhamos dito desde o beijo na boate de Curitiba.
— Você está sendo muito cuidadosa — murmurei, observando o modo como ela franzia a testa em concentração.
— É uma ferida de saída feia, Vinícius. Se eu não cuidar, vai infeccionar — ela respondeu, sem olhar para mim.
— Maya, olhe para mim.
Ela parou o movimento. Lentamente, levantou os olhos, e o que vi ali foi uma mistura de exaustão e uma vulnerabilidade que me partiu o coração.
— Eu quase perdi você — ela sussurrou, sua voz falhando. — Eu vi o seu coração parar naquela mesa. Duas vezes. Eu passei anos treinando para ser a melhor, para ser uma máquina como o Lorenzo queria, mas quando foi você naquela maca... eu percebi que não sou uma máquina.
Estendi minha mão boa e toquei seu rosto, trazendo-a para mais perto. — Você salvou a minha vida, Maya. Não foi a máquina que fez isso. Foi a mulher que não desistiu de mim.
POV – MAYA DUARTE LOMBARD
O toque da mão de Vinícius na minha bochecha foi o estopim. Toda a fachada de profissionalismo que eu tentei manter durante os dias no hospital desmoronou. Eu estava cansada de fingir que ele era apenas um "ativo do Conselho".
Inclinei-me para frente, diminuindo a distância entre nós. O cheiro dele — uma mistura de sabonete neutro e a essência natural de couro e perigo que ele sempre exalava — me envolveu.
— Eu não posso deixar nada acontecer com você — murmurei contra os lábios dele. — Porque eu não sei quem eu sou sem o seu sorriso torto me irritando todos os dias.
Desta vez, não foi ele quem tomou a iniciativa. Fui eu. Juntei nossos lábios em um beijo que começou lento e exploratório, mas que rapidamente se tornou profundo e urgente. Era um beijo que carregava o medo da perda e a euforia da sobrevivência.
Vinícius soltou um gemido baixo, e por um segundo entrei em pânico, achando que tinha machucado seu ombro, mas ele usou a mão boa para me puxar para mais perto, aprofundando o beijo com uma fome que me fez esquecer onde estávamos.
— Maya... — ele sussurrou entre beijos, sua mão descendo para a minha cintura, puxando-me para cima da cama, tomando cuidado com seus próprios pontos. — Eu morreria e voltaria dez vezes se isso significasse ter você assim.
POV – VINÍCIUS ORTEGA VITALE
O clima no quarto mudou de convalescença para pura paixão. Eu a puxei para o meu lado ileso, sentindo o calor do corpo dela contra o meu. O mundo lá fora, a guerra com os Vanchini, as ordens do Lorenzo... nada disso existia naquele momento. Havia apenas a suavidade da pele de Maya e o modo como ela suspirava meu nome.
— Você tem certeza? — perguntei, olhando-a nos olhos, querendo garantir que ela não se arrependeria quando a luz do dia voltasse e ela tivesse que ser a Dra. Lombard novamente.
— Eu nunca tive tanta certeza de nada em toda a minha vida, Vinícius — ela respondeu, e o sorriso que ela me deu foi a cura mais potente que eu já recebi.
Nossa noite foi uma coreografia de cuidado e desejo. Eu não podia me mover muito, mas Maya tomou o controle, explorando cada centímetro do meu corpo com uma curiosidade que me levava à loucura, enquanto eu a adorava com a única mão que podia usar. Foi romântico, intenso e, acima de tudo, real. Não era apenas sexo; era a fusão de duas almas que tinham sido forjadas no sangue e que finalmente encontraram paz uma na outra.
POV – MAYA DUARTE LOMBARD (Madrugada)
Acordei algumas horas depois, com a cabeça descansando no peito de Vinícius. O som do coração dele, agora forte e rítmico, era o som mais bonito do mundo. Ele estava dormindo, com o rosto relaxado, a mão possessivamente em volta da minha cintura mesmo durante o sono.
Olhei para o ombro dele. A cicatriz estaria lá para sempre — um lembrete do que quase perdemos. Mas enquanto eu o observava, percebi que aquela marca não era apenas de um tiro. Era o marco zero de uma nova vida.
Eu sabia que o Lorenzo não ficaria feliz com "distrações" dentro da base. Sabia que a Máfia Vitale e a Velha Guarda de Curitiba teriam muito a dizer. Mas, enquanto eu me aconchegava mais perto de Vinícius, senti que o Conselho de 12 acabava de ganhar algo muito mais perigoso do que armas: uma lealdade que ia além dos negócios.
Nós éramos o aço e a cura. E agora, éramos um só.