POV – LORENZO ROSSI
O ar entre mim e Vittoria estava carregado de uma eletricidade estática que fazia os pelos dos meus braços se arrepiarem. Assim que aquele rapaz desapareceu entre a multidão da boate Opium, a adrenalina do confronto começou a baixar, sendo substituída por uma consciência aguda da palma da minha mão pressionada contra a curva macia da cintura dela.
Soltei-a bruscamente, como se o toque tivesse me queimado. Ajustei os punhos da minha camisa social, recuperando a máscara de frieza que eu usava como armadura.
— Não se engane, Vittoria — eu disse, minha voz saindo baixa e rouca, tentando abafar o som das batidas graves do DJ. — A partir do momento em que você e seu irmão entraram para o Conselho, vocês se tornaram ativos deste grupo. Vocês fazem parte da minha estrutura. Você é minha, assim como o Lucas é meu, assim como a Isabella é minha. Eu protejo o que me pertence. Nada mais.
Vittoria não pareceu nem um pouco intimidada pela minha tentativa de racionalizar o que acabara de acontecer. Pelo contrário, ela deu um passo à frente, cruzando os braços e deixando um sorriso de canto brincar em seus lábios pintados de vermelho escuro.
— Você é um arquiteto fascinante, Lorenzo — ela provocou, os olhos cinzas brilhando sob as luzes neon. — Tenta colocar sentimentos em gavetas e rotulá-los como "ativos de segurança". Mas nós dois sabemos que o modo como você segurou minha cintura não foi para proteger um "m****o do grupo". Foi para marcar território contra um invasor. Você é difícil, mas eu sou o labirinto que você nunca vai conseguir mapear completamente.
Eu a encarei por um longo tempo. Ela era o caos que desafiava cada linha reta da minha vida. Eu queria odiá-la por me fazer sentir aquela possessividade primitiva, mas quanto mais ela me desafiava, mais eu sentia que o Conselho dos Herdeiros nunca estaria completo sem a insolência dela.
POV – MAYA DUARTE LOMBARD
A boate estava cheia, e o calor humano era quase sufocante. Eu estava no balcão do bar, observando o reflexo das luzes no meu copo de água tônica. Eu não era de beber; precisava estar sempre com os sentidos aguçados caso algum dos meus precisasse de mim.
Vinícius estava a poucos metros, encostado em uma coluna, observando a pista com a vigilância de um predador, mas eu sabia que os olhos dele voltavam para mim a cada dez segundos. Aquela atração silenciosa entre nós estava se tornando um grito que ninguém ousava soltar.
— Você parece sozinha para uma mulher tão deslumbrante — uma voz masculina soou ao meu lado.
Virei-me e vi dois rapazes, claramente herdeiros da elite curitibana, olhando para mim com uma confiança irritante.
— Não estou sozinha. Estou acompanhada pelos meus pensamentos — respondi, tentando ser polida, embora minha paciência estivesse no limite.
— Pensamentos são chatos. Por que não vem dançar com a gente? — o outro disse, aproximando-se e tentando tocar meu ombro. — Você tem cara de quem precisa de um pouco de diversão de verdade, Doutora.
Antes que eu pudesse responder que eu sabia exatamente onde ficava a jugular de cada um deles caso insistissem, uma sombra alta e poderosa se projetou sobre nós.
POV – VINÍCIUS ORTEGA VITALE
Eu já estava no meu limite observando aqueles dois idiotas cercarem a Maya. Eu vi o momento em que um deles tentou tocá-la. Meu sangue ferveu de uma forma que nem mesmo os treinamentos de Dom Enzo conseguiam aplacar.
Caminhei até eles, a expressão fechada em uma máscara de violência contida que fez as pessoas ao redor abrirem caminho instintivamente.
— Ela disse que não está interessada — minha voz saiu como um rosnado baixo, vindo do fundo do peito.
— E quem é você? O segurança dela? — um dos rapazes perguntou, tentando manter a pose.
Eu não respondi com palavras. Eu não precisava. Dei um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dele, e vi a cor sumir do rosto do sujeito. Mas para garantir que a mensagem fosse gravada com fogo na mente de Chicago e de Curitiba, eu fiz algo que vinha planejando desde o momento em que vi Maya na enfermaria.
Puxei Maya pela cintura, trazendo seu corpo contra o meu, e a beijei.
Não foi um beijo leve. Foi um beijo carregado de toda a tensão, o desejo e a proteção que eu vinha acumulando. Foi um beijo de posse, de reivindicação. Eu queria que aqueles idiotas — e todo o Conselho — soubessem que ela era intocável.
POV – MAYA DUARTE LOMBARD
O mundo parou. O som da música eletrônica virou um zumbido distante. O calor dos lábios de Vinícius contra os meus foi como uma explosão de sentidos. Eu, que já estive em campos de batalha, que já vi o pior da humanidade sem desviar o olhar, senti meus joelhos fraquejarem.
Eu gostei. O beijo dele tinha gosto de perigo e de uma segurança que eu nunca soube que precisava. Minhas mãos subiram para o peito dele, sentindo o coração batendo forte sob a jaqueta de couro.
Quando ele finalmente se afastou, os rapazes já tinham sumido, intimidados pela demonstração de força. Vinícius me olhou com uma intensidade que quase me queimou.
— Agora eles sabem — ele murmurou, a voz rouca.
Eu senti meu rosto arder. A vergonha me atingiu como um tiro. Eu, a Dra. Maya Lombard, a mulher que não temia sangue ou gritos de dor, estava completamente desconsertada por causa de um beijo em uma boate.
— Vinícius... — comecei, mas as palavras sumiram. Desviei o olhar, tentando reorganizar minha máscara de médica séria, mas meu coração não obedecia. — Você não deveria ter feito isso na frente de todos.
— Eu faria de novo — ele rebateu, sem um pingo de arrependimento. — Se for para garantir que ninguém chegue perto de você, eu beijaria você no meio do tiroteio mais sangrento do mundo.
POV – AURORA DUARTE ROSSI
Do camarote VIP, eu observava tudo com um sorriso de satisfação. O Conselho dos Herdeiros estava em sua glória. Arthur estava conversando animadamente com uma herdeira de uma rede de hotéis; Lucas e Davi tinham encontrado duas modelos que pareciam impressionadas com o conhecimento técnico deles sobre frotas e armas; Isabella debatia leis internacionais com um jovem diplomata; e até Benjamin estava sendo cortejado por uma violoncelista local.
— Parece que a noite em Curitiba está sendo produtiva, não acha? — comentei com Vitor e Helena, que brindavam ao sucesso da colheita deste ano.
— A união está mais forte do que nunca — Vitor respondeu. — Mas olhe para o Lorenzo e a Vittoria. Eles parecem dois leões prontos para se matarem ou para governarem o mundo juntos.
Olhei para o centro da pista, onde Lorenzo e Vittoria ainda trocavam farpas visuais, mantendo a distância, mas com os corpos alinhados.
POV – LORENZO ROSSI
Eu vi o beijo de Vinícius e Maya. Vi a vergonha dela e a audácia dele. Parte de mim, o líder, queria repreender a falta de profissionalismo. Mas o homem dentro de mim sentiu uma pontada de inveja da liberdade de Vinícius. Ele não tinha uma pose a manter. Ele era o que era.
Voltei meu olhar para Vittoria. Ela estava encostada no balcão, observando-me com aquele olhar de quem conhece todos os meus segredos.
— Você viu o seu irmão — eu disse. — O caos está se espalhando pelo meu Conselho.
— O caos não, Lorenzo — ela disse, aproximando-se novamente, o perfume de sândalo agora misturado ao aroma do champanhe caro. — O que você está vendo é a vida. Você tentou criar um exército de máquinas, mas esqueceu que máquinas não têm o que nós temos.
— E o que nós temos, Vittoria?
— Sangue nas veias, Lorenzo. E um desejo que nenhuma planta baixa pode conter.
Naquela noite, sob o céu de Curitiba e as luzes da boate, o Conselho dos Herdeiros mudou novamente. Os dez herdeiros originais e os dois Vitale não eram mais apenas aliados. As barreiras estavam caindo. A "Velha Guarda" em casa sabia o que estava acontecendo, e nós, os doze, estávamos começando a entender que o poder real não vinha apenas do dinheiro ou das armas, mas da lealdade inquebrável que nascia de momentos como aquele.
A vergonha de Maya, o ciúme de Vinícius, a audácia de Vittoria e a minha própria luta contra o inevitável... tudo isso era a fundação de algo muito maior.
O fim de semana em Curitiba estava acabando, mas a história que levaríamos de volta para Chicago seria escrita com a intensidade de quem descobriu que, no jogo do poder, o coração é a peça mais perigosa do tabuleiro.