POV – MAYA DUARTE LOMBARD
O sol m*l havia nascido sobre Curitiba e a Mansão Duarte Rossi já estava em ebulição. Eu estava no jardim, revisando alguns protocolos, quando minha mãe, Beatriz Duarte, apareceu já vestida com seu traje cirúrgico, o celular no ouvido.
— Eu entendo, diretor. Preparem a sala quatro. Estarei aí em vinte minutos — ela desligou e me olhou. — Maya, querida, preciso ir. Um paciente crítico acaba de entrar em emergência no hospital. A reunião do Conselho terá que seguir sem mim por algumas horas.
— Vá, mãe. Salve essa vida — eu disse, abraçando-a. — Eu cuido das coisas aqui.
— Eu sei que cuida. Você é uma Duarte-Lombard — ela piscou e saiu em direção ao carro.
Enquanto ela saía, Aurora passava por mim, impecável como sempre, ajustando os óculos escuros.
— Eu também estou de saída, Maya. Vou visitar a filial da Duarte Festas aqui em Curitiba. Preciso garantir que o padrão de Chicago esteja sendo seguido, mesmo em solo brasileiro. Volto para o treino à tarde!
POV – LORENZO ROSSI
O campo de treinamento nos fundos da mansão era um estado da arte. Sebastián e os outros pais estavam sentados em cadeiras de vime, observando-nos com olhos de águia. Mas o clima mudou completamente quando dois carros pretos, com vidros opacos, entraram na propriedade.
As portas se abriram. Enzo Vitale, o Dom, e Valentina Ortega, a Rainha das Sombras, desembarcaram. A presença deles era magnética e aterrorizante ao mesmo tempo.
— Enzo! Valentina! — Sebastián levantou-se para cumprimentá-los com um abraço de velhos aliados.
— Viemos ver se nossos filhos estão à altura dos seus, Rossi — a voz de Enzo era como o som de trovão distante.
Vittoria já estava no centro do tatame, usando roupas de treino pretas que marcavam cada músculo. Ela olhou para mim e estendeu a mão, me chamando.
— Vamos, Arquiteto. Mostre para o seu tio e para o meu pai que você é mais do que planilhas e reuniões de diretoria.
Eu tirei a camisa, revelando as cicatrizes de treinos militares que eu nunca mostrava em Chicago. O Conselho inteiro parou para olhar. Eles sabiam que eu era o líder, mas poucos tinham me visto lutar a sério.
POV – VITTORIA ORTEGA VITALE
Lorenzo avançou. O primeiro golpe foi rápido, mas eu desviei com a memória muscular de quem foi criada por Valentina Ortega. O que ele não esperava era a minha rasteira. Ele caiu, mas rolou e se levantou com uma agilidade que me surpreendeu.
— Você é técnico demais, Lorenzo — provoquei, tentando um chute alto que ele bloqueou com o antebraço.
— E você é impulsiva demais, Vittoria — ele rebateu, segurando minha perna e me puxando para o corpo dele.
Nossas respirações estavam coladas. O suor brilhava em sua pele. Por um segundo, a luta parou e apenas a tensão existiu. Ele não dava o braço a torcer. Ele era uma máquina de combate tão eficiente quanto meu irmão.
— Acabem com isso! — Enzo Vitale gritou da lateral. — Luta não é dança!
Lorenzo me lançou um olhar sombrio e, com um movimento de alavanca, me imobilizou no chão, prendendo meus pulsos acima da cabeça.
— Xeque-mate, Rainha — ele sussurrou no meu ouvido.
Eu sorri, mesmo imobilizada. — Você ganhou o round, Lorenzo. Mas ainda não ganhou a guerra.
POV – LORENZO ROSSI (Noite em Curitiba)
A tensão do treino e a chegada dos Vitale me deixaram no limite. Eu precisava de ar. Precisava de algo que não fosse o olhar cinza da Vittoria me despindo.
— Vamos para a Opium — anunciei para o grupo. — Os doze herdeiros. Noite livre. Sem negócios. Sem máfia.
A boate era o lugar mais exclusivo da cidade. Estávamos todos lá, em um camarote VIP. Vinícius e Maya estavam em um canto, conversando baixo; Benjamin observava o DJ; Isabella e os outros bebiam o melhor champanhe.
Eu decidi que aquela era a noite de reafirmar minha liberdade. Vi um grupo de modelos em uma mesa próxima. Aproximei-me da loira mais atraente e comecei a jogar o charme que eu costumava usar antes de Vittoria entrar na minha vida.
— Você é novo por aqui? — a garota perguntou, enrolando o cabelo no dedo.
— Sou o dono da noite — respondi, inclinando-me para o pescoço dela.
De repente, a música pareceu abafada. Senti uma mão gélida no meu ombro e um perfume de sândalo que eu reconheceria no inferno.
— Sinto muito, loira, mas esse "dono da noite" já tem uma proprietária — a voz de Vittoria cortou o momento como uma navalha.
— Vittoria, o que você está fazendo? — me virei, furioso.
— Estragando seus planos medíocres — ela sorriu, segurando uma taça de Martini. — Você não vai pegar ninguém hoje, Lorenzo. Porque nenhuma dessas garotas chega aos pés do que eu sou. E você sabe disso.
A modelo saiu bufando, e eu fiquei ali, encarando Vittoria sob as luzes neon.
— Você não tem esse direito — rosnei.
— Eu tenho todos os direitos — ela rebateu.
Foi quando um rapaz alto, visivelmente herdeiro de alguma fortuna local, aproximou-se de Vittoria. Ele ignorou minha presença completamente.
— Com licença, beleza — o rapaz disse, olhando para Vittoria com desejo. — Eu estava te observando do outro lado. Quer sair daqui e ir para um lugar mais... privado? Meu carro está lá fora.
Vittoria arqueou uma sobrancelha e olhou para mim, um sorriso desafiador nos lábios. Ela não respondeu a ele. Ela estava esperando para ver se a minha "pose" de CEO indiferente resistiria a vê-la nos braços de outro.
Eu senti o sangue ferver. A "máquina" Rossi deu lugar ao homem possessivo. Dei um passo à frente, ficando entre ela e o rapaz, colocando a mão firmemente na cintura de Vittoria.
— Ela não vai a lugar nenhum com você — eu disse, minha voz saindo em um tom que fez o rapaz dar dois passos para trás. — E se você olhar para ela de novo, eu vou garantir que você nunca mais consiga olhar para nada. Suma daqui.
O rapaz empalideceu e desapareceu na multidão.
Vittoria encostou-se no meu peito, rindo baixo contra a minha gola.
— "Somente a aliança", Lorenzo? "Nada mais"? Seu ciúme está gritando mais alto que a música desta boate.
— Eu só odeio que toquem no que é meu — respondi, sem soltar a cintura dela, enquanto os outros onze herdeiros observavam a cena do camarote com sorrisos cúmplices.
A noite estava apenas começando, e em Curitiba, as máquinas estavam começando a mostrar que possuíam corações muito mais perigosos do que imaginavam.