Semanas haviam se passado e as poucas conversas que tinha com o Rodrigo viraram apenas meros cumprimentos. E o sentimento era de que nada mais seria igual.
Revivi por diversas vezes o amanhecer em que estávamos na praia e ainda não entendi qual era o problema. Não entendia o porquê de sua reação tão isolada; aquilo não fazia sentido algum em minha mente.
Já estava um pouco avançada no curso de inglês quando passei para um nível maior. Tive o prazer de encontrar um rosto familiar na pequena classe.
— Por que estou descobrindo só agora que você faz inglês? — perguntei.
— Porque eu também não fazia ideia de que a senhorita estaria fazendo isso.
— Juan, você é tão cínico. — dei risada.
— Ai, Mel, você machucou meu coração.
— Seu coração está muito bem guardado. A Lia está cuidando muito bem dele.
— Nisso você tem razão. — Ele riu, mas logo sua expressão mudou. — Vocês andaram se falando?
— Sempre. Por quê? — perguntei.
— Só para saber. Ela parece meio distante, não sei o que está havendo.
Aquilo era uma novidade para mim, pois Lia parecia ser a mesma de sempre. Ou talvez eu estivesse tão focada em meus próprios pensamentos que não tivesse prestado muita atenção nela.
Depois de dois dias, comecei a entender o que Juan estava falando. E sim, Lia não estava como antes. Parecia imersa em qualquer assunto, sem opinar em nada, algo que não era do seu habitual.
Convidei-a para passarmos a tarde em minha casa. Já sabia que Alice estaria na robótica e não seríamos interrompidas por ninguém, a não ser por minha mãe oferecendo um lanche a cada quinze minutos.
Assim que passamos pela porta do quarto, tranquei-a e enviei uma mensagem para minha mãe, pedindo que não fôssemos atrapalhadas.
De início, ela continuou afirmando estar bem, que era comum ficar assim. Mas garanti a ela que nada sairia daquele quarto.
— Promete mesmo? Não dizer nada a ninguém? — perguntou ela.
— Prometo.
— Vamos lá… Há cerca de cinco meses, Juan e eu começamos a sair juntos. Nossa amizade foi se aprofundando e crescendo dia após dia. — iniciou ela. — Nós já tínhamos estado com outras pessoas, então, quando transamos pela primeira vez, não foi a nossa primeira vez. Tá dando para entender?
— Hã, acho que sim. Então vocês já não eram mais virgens, certo?
— Sim. Então sabíamos exatamente o que estávamos fazendo e como nos proteger. Há um mês e meio, estávamos sem preservativos no quarto dele e pensamos: “não tem como acontecer nada”, já que eu tomo remédio. Mas, na hora… eu não lembrei que tinha trocado de medicamento… — Seus olhos encheram-se de lágrimas. — Mel… não desceu para mim desde então e não sei mais o que fazer. Comprei um teste hoje, indo para a escola, e ainda não tive coragem de fazer. Não consigo nem contar para ele.
— Mas está realmente atrasada? Quantos dias? Às vezes é hormonal, já que você está assustada. Não pode se precipitar. — Tentei não ficar irritada com o que ela falava. — E, Lia… caramba! Hoje em dia a gente sabe muito mais sobre tudo isso! Meu Deus… — respirei fundo, parando de andar de um lado para o outro. Nem tinha percebido que estava fazendo isso. — Olha, me desculpa…
Ela já não segurava mais as lágrimas. Seu rosto estava completamente vermelho e suas mãos tremiam.
— O que acha de fazermos o teste? Fico aqui te esperando e vemos o resultado juntas. Acredito que seja apenas um alarme falso. — disse a ela.
De imediato, ela demonstrou desconforto, talvez com receio do que poderia descobrir. Depois se levantou e foi até o banheiro do meu quarto.
Cinco minutos. Foi o tempo exato que pareceu uma eternidade. Parecia que a hora não passava e que tudo à nossa volta era totalmente incerto.
Peguei o teste e olhei para ela.
— Preparada?
— Não sei… pode olhar? — disse ela.
Congelei.
Era nítido.
Duas riscas.
Positivo.
Ela ficou sem rumo. Seu rosto se fechou e seu olhar tornou-se extremamente sério. Logo então, a onda de choro veio.
Abracei-a sem pensar duas vezes.
— Como pude fazer isso, Melinda? Você tem noção do que meus pais farão? — Ela se levantou, aparentando estar mais agressiva. — Meu pai vai me expulsar. Sou da igreja, meu pai é o prefeito dessa cidade. O que você acha que ele vai falar? “Parabéns, Lia, por engravidar aos dezesseis anos?”… Meu Deus, meu Deus, meu Deus… Melinda… o que eu vou fazer?
— Lia… primeiro se acalma.
Ela me olhou, mas continuou andando de um lado para o outro.
— Segundo… vou chamar o Juan.
— Não, não faça isso!
— E o que você quer fazer? Vocês precisam conversar. Os dois juntos.
Ela não se opôs, então peguei meu celular e tentei ligar para ele. Foram dez ligações não atendidas e precisei recorrer ao meu último recurso, que, por surpresa, atendeu de primeira.
— Oi, Rodrigo! — falei.
— Alô! Oi, Melinda, o que foi? — Ele não parecia estar sendo grosso, mas sim apressado.
— Está com o Juan?
— Sim, ele está no treino.
— Pode chamá-lo?
— É urgente?
— Óbvio.
Não demorou muito.
— Oi, Mel. O que foi? — Juan estava eufórico.
— Poderia passar aqui em casa depois do treino?
— Claro, só estou preocupado agora.
— Te espero aqui, tá?
Desliguei antes que ele perguntasse algo a mais. Eu não era capaz de responder.
A hora não passava, mas o pôr do sol já aparecia pela janela. E foi próximo desse horário que vimos não apenas Juan, mas Rodrigo com ele também.
Minha mãe trouxe os dois até meu quarto, mas pedi para deixar Juan e Lia sozinhos. Chamei Rodrigo para descer comigo até a área externa, e ele me acompanhou sem pestanejar.
Sentamos na beira da piscina e parecia que aquele silêncio era ensurdecedor.
— Vai me contar o que aconteceu na praia? Ou vai continuar me tratando com toda essa frieza? — perguntei, sem muita enrolação.
— Não sei do que você está falando. — disse, olhando para as mãos.
— Tudo bem. — Levantei-me. — Eu não vou ficar me rastejando para que você possa se abrir para mim.
— Melinda… — comecei a andar e ele veio atrás. — Você não entende…
Ele correu até ficar na minha frente.
— Você me deu um estereótipo, e eu estou esgotado disso. Por você vir de fora, de outra realidade, achei que não seria igual. Meu pai é político, já sou muito julgado constantemente por conta das ações dele. Eu só esperei que você fosse diferente.
— Meu Deus, Rodrigo. Eu não te julguei nem nada. Só não esperava que fosse por isso. Não tinha necessidade de tudo aquilo. E, se eu soubesse, teria me desculpado no mesmo instante, se foi algo que te magoou.
Realmente me chateei.
Voltei a andar em direção à casa.
— Olha, tudo bem, me desculpa… Mas quando a gente passa a nutrir sentimentos por outra pessoa, poxa, a gente faz coisas que não entende e acaba agindo como i****a. — Ele segurou minha mão. — Desculpa por isso… Eu só não sei como agir perto de você.
— Normal. Seja você. É só isso que te peço.
— Tudo bem. — ele se aproximou mais. — Você não faz ideia do quanto eu não consigo parar de pensar em você.
Ele foi se aproximando cada vez mais, até suas mãos estarem em minha cintura e nossos rostos muito próximos.
— Rodrigo?
— Sim?
Seus olhos estavam fechados, assim como os meus também começavam a se fechar.
Não houve tempo para que eu respondesse.
Ele me beijou.
O que começou como algo leve e gentil evoluiu para algo mais intenso, com seus braços envolvendo minha cintura e minhas mãos em seu rosto.
— Mel? — chamou Alice, interrompendo-nos.
Assustei-me.
Nos afastamos imediatamente.
E não era apenas ela que estava parada ali.
Nossos outros amigos também estavam.