CAPÍTULO 2
ALANA
No Morro da Divisa, a gente aprende cedo que silêncio demais é perigoso.
Porque silêncio normalmente vem antes dos tiros.
Abri os olhos assustada com o som seco de disparos ecoando pela comunidade. Meu corpo já acordava em alerta automático fazia anos. Nem precisei olhar o relógio pra saber que ainda era madrugada.
Mais tiros.
Suspirei irritada encarando o teto descascado do meu quarto.
Normal.
Tudo naquela comunidade era normal até deixar de ser.
Virei pro lado tentando voltar a dormir, mas o rádio alto vindo da rua já misturava com barulho de moto subindo o morro e cachorro latindo sem parar.
Desisti.
Sentei na cama passando a mão no rosto cansado.
Meu quarto era pequeno. Simples. Parecia apertado demais pro tanto de peso que eu carregava dentro da cabeça. A janela tava aberta deixando entrar vento frio e o cheiro de chuva que sempre dominava a Divisa de madrugada.
Peguei o celular.
Cinco da manhã.
Perfeito.
Levantei devagar sentindo o corpo dolorido. Tinha acabado meu plantão tarde da noite anterior, mas descanso no Morro da Divisa era artigo de luxo.
Principalmente pra quem trabalhava no posto.
Prendi o cabelo ondulado num coque frouxo enquanto me olhava rapidamente no espelho rachado perto do guarda-roupa.
Vinte e quatro anos com cara de quem já viveu demais.
Olheiras fundas.
Pele cansada.
Uma cicatriz pequena no queixo que ganhei tentando separar uma briga no posto meses atrás.
Bonita?
Talvez.
Mas a vida no morro arranca rápido qualquer delicadeza da mulher.
Coloquei o uniforme azul claro já sabendo que o dia seria longo.
Sempre era.
Na cozinha pequena, minha mãe dormia sentada no sofá com a televisão ligada baixo. Ela fazia faxina em duas casas no asfalto e chegava destruída quase toda noite.
Cobri ela com a manta devagar antes de pegar café.
O cheiro forte preencheu a cozinha enquanto eu escorava na pia olhando pela janela.
Lá fora a comunidade começava a acordar.
Mulher lavando calçada.
Moto passando rápido.
Homem voltando bêbado do baile.
Criança chorando em algum barraco distante.
E lá no alto…
Os meninos da boca já estavam posicionados armados.
Fuzil pendurado no peito.
Olho atento em cada entrada do morro.
Aquela imagem me dava um aperto estranho desde pequena.
Porque eu conhecia muitos deles antes da arma.
Conhecia correndo descalço na rua.
Empinando pipa.
Jogando bola.
Depois o morro engolia.
Sempre engolia.
Bebi o café quente lentamente tentando afastar o cansaço.
Minha infância inteira foi assim:
barulho de tiro misturado com rotina.
Minha mãe me criou praticamente sozinha depois que meu pai morreu numa bala perdida quando eu tinha oito anos.
Pelo menos foi o que disseram.
Aqui ninguém nunca sabe de verdade de onde veio o tiro.
Só sabe quem ficou no chão depois.
Lembro da minha mãe ajoelhada no enterro tentando segurar o choro enquanto eu abraçava ela sem entender completamente o que tava acontecendo.
Depois disso a vida apertou.
Muito.
Teve mês da gente dividir um pacote de arroz por semanas. Teve noite da minha mãe fingir que já tinha comido pra eu repetir mistura.
Foi ali que decidi virar enfermeira.
Não porque eu tinha sonho bonito igual as meninas da escola falavam.
Eu virei porque cansei de ver gente morrer sem ajuda.
Cansei de ver mãe desesperada segurando filho baleado sem ter ambulância subindo o morro.
Cansei de ver corpo coberto por lençol no meio da rua enquanto a comunidade seguia vivendo ao redor.
No Morro da Divisa, a morte fazia parte da paisagem.
E eu odiava isso.
Peguei minha bolsa e saí de casa enquanto o céu ainda tava cinza.
As vielas estavam molhadas da chuva da madrugada. Passei por um grupo de vapores encostados perto da escadaria principal e eles abriram espaço automaticamente.
— Bom dia, Alana.
Assenti de leve.
Eu conhecia quase todos.
Alguns tinham estudado comigo.
Outros eu mesma já tinha atendido baleados.
A realidade da Divisa era c***l desse jeito.
Você cuidava das mesmas pessoas que depois apareciam armadas no jornal.
Quando cheguei no posto, Camila já tava organizando remédio atrás do balcão.
— A noite foi pesada — ela falou sem me olhar.
— Ouvi os tiros.
Ela bufou.
— Deram entrada em dois baleados de madrugada. Um morreu antes da ambulância chegar.
Fechei os olhos por um segundo.
Mais um.
Pendurei a bolsa na cadeira tentando afastar o peso no peito.
Não dava pra sentir demais naquele trabalho.
Se sentisse, enlouquecia.
As primeiras horas da manhã passaram corridas.
Idoso passando m*l.
Criança com febre.
Gestante precisando de atendimento.
Discussão de casal.
O posto parecia respirar caos o tempo inteiro.
Por volta das dez, eu já tava exausta.
Foi quando Vanessa entrou.
Salto alto.
Roupa apertada.
Perfume forte demais pro calor do morro.
Ela parou na minha frente mastigando chiclete.
— Menina, cê viu a movimentação ontem?
Nem respondi.
Continuei preenchendo ficha.
Vanessa adorava fofoca mais do que a própria vida.
— Dizem que a Morte matou outro traidor.
Meu maxilar travou automaticamente.
Aquele apelido sempre mudava o clima do lugar.
Até no posto.
Camila olhou pros lados antes de falar baixo:
— O morro inteiro comentou.
Vanessa aproximou mais.
— Falaram que foi tiro na cabeça. Na frente de geral.
Continuei escrevendo.
— E daí?
Ela arqueou a sobrancelha.
— Nada demais. Só acho bizarro como ele faz isso e depois sobe o baile como se nada tivesse acontecido.
Porque era exatamente isso que acontecia.
O Morro da Divisa aprendia a continuar mesmo coberto de sangue.
Vanessa apoiou o braço no balcão.
— Mas vou te falar… aquele homem dá medo.
Ela não mentia.
Miguel causava uma sensação estranha até em quem nunca tinha trocado palavra com ele.
Não era só porque matava.
Era a presença.
O jeito que andava.
O jeito que olhava.
O silêncio.
Parecia que o ar ficava mais pesado quando ele aparecia.
E eu tinha sentido isso na noite anterior.
A imagem dele parado na moto ainda voltava na minha cabeça sem eu querer.
A chuva caindo.
O olhar escuro preso no meu.
A expressão fria.
Balancei a cabeça irritada comigo mesma.
Ridículo.
Homem perigoso continuava sendo homem perigoso.
Independente dos olhos bonitos ou da cara cansada.
Passei o restante da manhã tentando ignorar meus próprios pensamentos.
No começo da tarde, o movimento piorou.
Uma mãe entrou desesperada carregando um menino pequeno queimando de febre.
Atrás dela vinha outro homem sangrando no braço depois de uma briga de bar.
E no meio disso tudo o rádio da polícia começou a ecoar do lado de fora anunciando operação na pista.
Ótimo.
Mais trabalho.
O posto inteiro ficou em alerta automaticamente.
Porque operação significava:
- tiro
- correria
- gente baleada
- desespero
Sempre.
Foi perto das quatro da tarde que ouvi os primeiros disparos mais próximos.
Todo mundo congelou por um segundo.
Depois virou caos.
As pessoas começaram a correr na rua.
Comércio fechando.
Moto subindo rápido.
Meu coração acelerou automaticamente enquanto eu preparava material de emergência.
Eu odiava aquela sensação.
A espera.
Porque você nunca sabia quem entraria sangrando pela porta.
Criança.
Bandido.
Morador.
Policial.
A bala nunca escolhia direito.
Os tiros ficaram mais intensos por alguns minutos.
Depois silêncio.
Silêncio demais.
E silêncio no morro sempre assustava.
Camila apareceu na porta assustada.
— Dizem que a polícia tentou subir pela entrada da pista.
— E?
— Os homens da boca seguraram.
Claro que seguraram.
Ninguém conhecia aquelas vielas melhor que eles.
Continuei organizando gaze quando ouvi o barulho forte de moto parando na frente do posto.
Depois passos rápidos.
Olhei pra porta esperando mais um baleado.
Mas não era.
Era ele.
Miguel.
Ou melhor…
Morte.
O posto inteiro mudou quando ele entrou.
As conversas diminuíram.
As pessoas desviaram o olhar.
Até o ar pareceu prender.
Ele tava sozinho.
Roupa escura.
Corrente prata no pescoço.
Tatuagem subindo pelo braço inteiro.
Cara fechada.
Mais alto do que eu lembrava.
Muito mais.
Os olhos dele passaram lentamente pelo posto até parar em mim.
Meu estômago travou sem permissão.
Ódio.
Era isso que eu deveria sentir olhando pra um homem como ele.
Mas a verdade era que Miguel não parecia um monstro naquele momento.
Parecia cansado.
Perigosamente cansado.
— Tem remédio pra pressão da minha avó? — ele perguntou calmo.
A voz grave me pegou desprevenida.
Demorei um segundo pra responder.
— Nome dela?
— Lurdes Gonçalves.
Procurei rápido no computador tentando ignorar o jeito que ele me observava.
O posto inteiro tava quieto demais.
Porque ninguém ali acreditava que eu tava falando normalmente com o dono do morro.
Encontrei a ficha.
— O remédio chegou hoje.
Fui pegar a caixa no armário tentando controlar o nervosismo estranho crescendo dentro de mim.
Quando voltei, ele continuava parado me olhando em silêncio.
Entreguei a sacola sem encarar muito.
Os dedos dele tocaram os meus por um segundo.
Quentes.
Firmes.
Meu corpo ficou tenso imediatamente.
Ridículo.
Miguel percebeu.
Claro que percebeu.
Homem daquele tipo percebia medo rápido.
— Obrigado, enfermeira — ele falou baixo.
Levantei os olhos automaticamente.
E me arrependi na mesma hora.
Porque o olhar dele parecia me estudar.
Como se tentasse entender alguma coisa.
Aquilo me irritou profundamente.
— Seu remédio acabou? — perguntei seca.
O canto da boca dele quase se moveu.
Quase.
— Ainda não.
Então virou as costas e saiu.
Simples assim.
O posto inteiro voltou a respirar depois que ele foi embora.
Camila apareceu do meu lado imediatamente.
— Meu Deus do céu.
Vanessa, que tava sentada esperando atendimento, arregalou os olhos.
— Mulher… a Morte veio aqui pessoalmente?
Ignorei as duas tentando voltar ao trabalho.
Mas meu coração ainda batia rápido demais.
E isso me deixou com raiva.
Porque homens como Miguel destruíam tudo ao redor.
E eu sabia disso melhor que ninguém.
Mesmo assim…
Mesmo assim tinha alguma coisa nos olhos dele que parecia perigosamente humana.