Capítulo 01
CAPÍTULO 1
MORTE
Dizem que homem nasce bom.
Mentira.
Homem nasce vazio.
O mundo é que decide o que coloca dentro dele.
No meu caso, colocaram fome, sangue e ódio cedo demais.
Hoje, quando alguém fala meu nome no Morro da Divisa, abaixa a voz sem perceber. As crianças atravessam a rua. Os vapores endireitam a postura. Até homem armado pensa duas vezes antes de me encarar muito tempo.
Ninguém lembra mais do Miguel.
Só da Morte.
E talvez estejam certos.
Porque o Miguel morreu faz tempo.
Acendi outro cigarro enquanto observava a comunidade pela janela do alto da boca. A fumaça subiu lenta diante das luzes espalhadas pelo morro. Barraco em cima de barraco. Música distante. Moto cortando viela. Gente tentando viver no meio do inferno de sempre.
Meu inferno.
Passei a mão pela barba baixa sentindo o cansaço preso no corpo. Fazia quase três dias que eu dormia m*l. Dormir virou luxo depois que assumi o morro.
Quem manda não descansa.
Quem manda vive esperando o próximo tiro.
Coruja entrou na sala sem bater.
— Pitbull já resolveu lá embaixo.
Assenti sem olhar.
— O corpo?
— Sumiram com ele.
Normal.
No Morro da Divisa, cadáver desaparecia mais rápido que dinheiro.
Continuei encarando a comunidade pela janela enquanto puxava outra tragada do cigarro.
Lá embaixo, os vapores contavam carga armados com fuzil na mão como se fossem adultos. Mas eu conhecia aquela expressão vazia nos olhos deles.
Eu tinha sido igual.
Entrei pro crime com doze anos.
Doze.
Na época eu ainda era só Miguel. Magro, sujo e revoltado com tudo. Meu pai chegava bêbado quase toda noite pra bater na minha mãe. Quando não tinha dinheiro pra bebida, descontava na gente.
Principalmente no meu irmão mais novo.
Lucas.
Fechei os olhos por um segundo.
Até hoje lembro do barulho da coronhada batendo no rosto dele.
Lembro da minha mãe chorando.
Lembro da fome.
A fome é uma coisa que nunca sai da cabeça de quem já passou de verdade. Ela entra no corpo igual doença. Molda você.
Naquela época eu roubava mercado pra comer.
Pão.
Bolacha.
Leite.
Coisa pequena.
A primeira arma que peguei veio antes do primeiro tênis novo.
E isso diz muita coisa sobre o lugar onde eu cresci.
— Tá viajando de novo — Coruja falou encostado na porta.
Ignorei.
Ele era o único além da minha avó que percebia quando eu mergulhava demais dentro da própria cabeça.
Joguei o cigarro no chão e pisei.
— Como tá a pista?
— Silenciosa demais.
Silêncio demais sempre me incomodava.
Em comunidade, quando tudo fica calmo é porque alguém tá planejando alguma coisa.
Peguei a pistola em cima da mesa verificando o pente automaticamente.
Movimento automático.
Respiração automática.
Violência automática.
Tudo virou instinto faz tempo.
Minha vida mudou de vez aos quinze anos.
Foi quando mataram Lucas.
A polícia subiu o morro atrás de dois caras armados. Entraram atirando em tudo igual sempre faziam. Meu irmão tava sentado no chão da cozinha comendo arroz frio.
Treze anos.
Treze.
O tiro atravessou o pescoço dele.
Ainda lembro da minha mãe gritando segurando o corpo ensanguentado enquanto eu tentava estancar o sangue com as mãos tremendo.
A polícia foi embora rindo.
Rindo.
Naquele dia nasceu a primeira parte da Morte.
Depois disso parei de sentir medo.
Só senti raiva.
Com dezesseis anos eu já trabalhava armado pra boca.
Subi rápido porque aprendia rápido.
Enquanto os outros gostavam de aparecer, eu gostava de observar.
Aprendi cedo que homem que fala demais morre cedo no morro.
Foi nessa época que conheci o antigo dono da Divisa.
Carrasco.
Filho da p**a c***l.
Mas inteligente.
Ele viu potencial em mim antes de todo mundo.
Me ensinou:
- como controlar território
- como negociar arma
- como comprar policial
- como identificar traidor
E principalmente:
me ensinou que medo vale mais que amor.
Porque amor acaba.
Mas o medo permanece.
Com dezenove anos eu já comandava metade das operações da comunidade.
Com vinte e um ganhei meu apelido.
Morte.
Uma invasão começou na madrugada. Outra facção tentou tomar a Divisa enquanto Carrasco tava fora. A guerra durou horas.
Lembro do cheiro da pólvora.
Do sangue escorrendo pela viela.
Dos corpos.
Lembro de matar o primeiro homem olhando diretamente nos olhos dele.
Ele devia ter quase minha idade.
O pior?
Eu não senti nada.
Nada.
Quando amanheceu, os caras tinham recuado.
Eu tava coberto de sangue até o pescoço.
Um dos vapores olhou pra mim e falou:
— Tu é a própria morte, menor.
O nome ficou.
Miguel começou a desaparecer ali.
Sorri sem humor lembrando disso.
Hoje ninguém nem pergunta meu nome verdadeiro mais.
Só Dona Lurdes.
Minha avó.
A única pessoa viva que ainda me olha como ser humano.
O rádio chiou na cintura de Coruja interrompendo meus pensamentos.
— Movimento estranho na entrada da pista.
Coruja respondeu rápido enquanto eu pegava a jaqueta.
— Vamos descer.
A madrugada tava fria quando saímos da boca.
A chuva fina deixava o chão escorregadio enquanto os vapores se espalhavam armados pelos becos.
Quando passei, todos abaixaram a cabeça automaticamente.
Respeito.
Ou medo.
No morro os dois andam juntos.
Pitbull apareceu sorrindo igual animal.
— Tava ficando entediado já.
Ele gostava de guerra.
Gostava demais.
Diferente de mim, Pitbull ainda sentia prazer na violência.
Eu não.
Pra mim matar virou só parte do trabalho.
E talvez isso fosse pior.
Descemos a principal observando o movimento.
Baile tocando no fundo.
Mulher bêbada dançando.
Moleque soltando foguete.
Homem armado na esquina.
Rotina.
Enquanto caminhava pela rua molhada, vi meu reflexo rápido no vidro de um carro estacionado.
Quase não me reconheci.
Um metro e noventa.
Corpo fechado de tatuagem.
Corrente grossa no pescoço.
Cicatriz cortando a sobrancelha.
Olheiras profundas.
Cara de poucos amigos.
Vinte e nove anos com rosto de quem viveu cinquenta.
A vida no crime envelhece qualquer um.
Principalmente quem chega no topo.
Porque pra virar dono do morro você precisa perder partes demais de si mesmo.
Carrasco descobriu isso tarde.
Ele morreu sentado no próprio escritório com cinco tiros no peito.
Traição interna.
Eu fui o primeiro a entrar na sala depois.
O sangue dele escorria pela mesa enquanto todo mundo esperava alguém assumir o controle.
Ninguém falou nada.
Só me olharam.
Porque já sabiam.
Coruja ficou do meu lado.
Pitbull também.
Naquela noite eu virei dono da Divisa.
E junto com o poder veio o peso.
Toda morte.
Toda invasão.
Toda criança entrando pro tráfico.
Toda mãe chorando.
Tudo caiu nas minhas costas.
Foi também quando perdi Helena.
Meu maxilar travou imediatamente só de lembrar.
Ela era diferente de todo mundo que conheci.
Me fazia rir.
Me fazia esquecer por alguns minutos quem eu era.
Helena não tinha medo de mim.
Talvez por isso eu tenha amado ela daquele jeito.
Quando descobriu a gravidez, chorou de felicidade.
Eu não.
Eu senti medo.
Porque filho de homem como eu nasce marcado.
Dois meses depois ela morreu.
Troca de tiros na pista.
Os caras queriam me atingir.
Acertaram ela.
Ainda lembro da ligação chegando de madrugada.
Do hospital.
Do lençol branco.
Do sangue.
O bebê morreu junto.
Depois disso eu nunca mais fui o mesmo.
Fiquei pior.
Mais frio.
Mais brutal.
Mais vazio.
Comecei a dormir armado.
Parei de criar apego.
Parei de acreditar em qualquer tipo de futuro.
Porque no fim tudo acaba em sangue no morro.
Tudo.
— Patrão.
A voz de Coruja me puxou de volta.
Tínhamos chegado perto do posto comunitário.
Tinha movimentação na frente.
Um carro parou cantando pneu enquanto dois caras tiravam um garoto baleado do banco de trás.
Sangue escorria pela camisa dele.
Provavelmente acerto errado.
Parei a moto observando.
Foi então que ela apareceu.
Alana.
Saiu correndo do posto já colocando luva nas mãos.
Bonita pra c*****o.
Mas não daquele jeito patricinha que os caras do asfalto gostam.
Ela era bonita de um jeito cansado.
Real.
Cabelo preso bagunçado.
Olhos fundos.
Rosto sério.
Ela ajoelhou no chão sem hesitar mesmo com sangue espalhado pelo garoto.
— Pressiona aqui! — mandou pra um enfermeiro.
A voz firme chamou minha atenção imediatamente.
No morro as pessoas costumavam tremer diante da morte.
Ela não.
O garoto gritava desesperado enquanto ela tentava estancar o sangue.
— Ei! Olha pra mim! — ela segurou o rosto dele. — Você não vai apagar agora.
Fiquei observando em silêncio.
Alguma coisa nela parecia deslocada daquele lugar.
Como se ainda existisse humanidade dentro daquele caos.
O enfermeiro percebeu minha presença primeiro e travou na hora.
Alana levantou os olhos logo depois.
Me encarou diretamente.
Sem baixar a cabeça.
Sem fingir que não me reconheceu.
A chuva fina caía entre nós.
Por alguns segundos ficou só aquilo.
O caos.
O sangue.
A comunidade respirando ao redor.
E os olhos dela presos nos meus.
Frios.
Firmes.
Aquilo me irritou.
E me interessou ao mesmo tempo.
Ela voltou pro garoto como se eu não fosse nada.
Soltei um riso baixo pelo nariz.
Corajosa.
Ou maluca.
Talvez os dois.
Liguei a moto novamente.
Enquanto subia o morro de volta, percebi uma coisa que não sentia fazia muito tempo.
Curiosidade.
E no meu mundo, curiosidade quase sempre terminava em tragédia.