CAPÍTULO 9
MORTE
A chuva tinha diminuído.
Mas o cheiro de terra molhada continuava espalhado pelo Morro da Divisa.
Eu observava a rua enquanto Alana desaparecia na esquina.
Ela nem olhou para trás.
Teimosa.
Orgulhosa.
Difícil.
Soltei um suspiro baixo.
— Essa menina não tem medo de você mesmo não.
A voz ao meu lado me fez desviar o olhar.
Seu Geraldo estava sentado na cadeira de plástico em frente à própria casa, segurando uma caneca de café.
Devia ter quase setenta anos.
Talvez mais.
Ninguém sabia ao certo.
Ele morava na Divisa desde antes de eu nascer.
Desde antes de muita gente nascer.
Conhecia cada viela daquele lugar.
Cada família.
Cada história.
Inclusive a minha.
— Boa noite, Seu Geraldo.
— Não muda de assunto não.
Revirei os olhos.
— O senhor tá sem nada pra fazer?
— Tô velho. Minha função agora é cuidar da vida dos outros.
Aquilo arrancou um sorriso involuntário.
Pequeno.
Rápido.
Mas aconteceu.
— E ela continua sem medo de você.
— Ela tem juízo demais pra ter medo.
— Ou coragem demais.
Balancei a cabeça.
Seu Geraldo riu.
— Eu conheço esse olhar.
— Que olhar?
— O mesmo que você fazia quando era moleque e tava aprontando.
Bufei.
— Faz muito tempo.
— Pra mim não.
Ficamos em silêncio por alguns segundos.
A chuva caía fraca no telhado das casas.
Lá longe uma moto cruzou a rua principal.
O restante da comunidade parecia tranquilo.
Pelo menos por enquanto.
— Lembra quando você roubava manga do quintal da Dona Célia?
Fechei os olhos.
— Pelo amor de Deus.
— Ela corria atrás de você com uma vassoura.
— Eu tinha oito anos.
— E corria igual um condenado.
Aquilo me fez rir de verdade.
Coisa rara.
Muito rara.
— O senhor tem memória demais.
— Alguém precisa lembrar que você já foi criança.
A frase me atingiu de um jeito estranho.
Porque a maioria das pessoas olhava para mim e via apenas a Morte.
Mas aqueles moradores mais antigos…
Eles lembravam.
Lembravam do Miguel.
Do menino magro.
Do garoto correndo descalço.
Do irmão mais velho tentando proteger o Lucas.
Eles tinham visto tudo.
O começo.
Antes de tudo ficar complicado.
Antes da violência.
Antes do poder.
Antes das perdas.
— Sua avó ficaria feliz de ver você rindo.
Olhei para ele.
— Não exagera.
— Não tô exagerando.
Seu Geraldo tomou mais um gole de café.
— Você anda carregando o mundo nas costas.
Aquilo me fez desviar o olhar.
Porque ele não estava errado.
E eu odiava quando os velhos estavam certos.
— Todo mundo carrega alguma coisa.
— Mas nem todo mundo escolhe carregar sozinho.
Silêncio.
O vento frio atravessou a rua.
Fiquei observando as luzes espalhadas pelo morro.
Cada casa tinha uma história.
Cada janela escondia uma luta.
E, de alguma forma, aquilo tudo acabava chegando até mim.
Problema de água.
Problema de energia.
Família brigando.
Gente precisando de ajuda.
Todo mundo queria alguma coisa.
Todo mundo precisava de alguma coisa.
Às vezes eu sentia que passava mais tempo resolvendo problemas do que vivendo minha própria vida.
— Tá pensando demais.
— O senhor fala demais.
Ele riu.
— Isso também.
Me despedi alguns minutos depois.
Quando subi na moto, ainda ouvi ele gritar:
— E para de assustar a enfermeira!
Balancei a cabeça.
Velho infernal.
Mas a verdade era que aquelas conversas me faziam bem.
Mesmo que eu nunca admitisse.
Enquanto pilotava pelas ruas da comunidade, a imagem da Alana voltou à minha cabeça.
Mais uma vez.
Aquilo estava ficando irritante.
Porque ela não tinha medo.
Todo mundo tinha.
Alguns escondiam melhor.
Outros pior.
Mas tinham.
Ela não.
Ela olhava nos meus olhos.
Discordava.
Respondia.
Questionava.
Se qualquer outra pessoa falasse daquele jeito comigo, provavelmente teria aprendido rápido a medir as palavras.
Mas com ela era diferente.
E eu ainda não sabia se aquilo era bom ou r**m.
Cheguei ao prédio onde costumava passar a maior parte dos dias.
Coruja já estava me esperando.
Bastou olhar para a cara dele para saber que alguma coisa tinha acontecido.
— O que foi?
— Três problemas.
— Só três?
— Até agora.
Entrei.
O lugar estava cheio.
Gente entrando.
Gente saindo.
Telefone tocando.
Conversas acontecendo ao mesmo tempo.
Caos.
Como sempre.
Sentei na cadeira atrás da mesa.
— Fala.
Coruja começou.
Uma família precisava de ajuda porque parte do telhado tinha cedido por causa da chuva.
Uma senhora estava sem energia há dois dias.
E um comerciante queria autorização para ampliar o próprio negócio.
Problemas.
Problemas.
E mais problemas.
Passei quase duas horas resolvendo tudo.
Telefonemas.
Conversas.
Decisões.
Quando finalmente consegui um minuto de silêncio, já era noite.
Pitbull entrou largando uma garrafa de água sobre a mesa.
— Cansado?
— Não.
— Mentira.
Ignorei.
Ele sentou.
— Você tá estranho.
— Eu sempre fui estranho.
— Não desse jeito.
Aquilo chamou minha atenção.
— Como assim?
Pitbull me encarou.
— Distraído.
Bufei.
— Tá imaginando coisa.
— Tô não.
Coruja apareceu na porta justamente naquele momento.
E pelo jeito da expressão dele, estava ouvindo a conversa.
Ótimo.
— Vocês dois combinaram alguma coisa?
— Não.
— Então para de agir como se eu tivesse morrendo.
Pitbull começou a rir.
— Relaxa.
Ainda tá longe disso.
Peguei uma caneta e joguei na direção dele.
Ele desviou.
Continuando a rir.
Idiota.
Mas aquilo ajudou a aliviar um pouco a pressão.
Por alguns minutos ficamos conversando sobre coisas simples.
Coisas normais.
Coisas raras.
Depois Pitbull saiu.
E sobrou apenas eu e Coruja.
O silêncio tomou conta da sala.
Coruja sempre foi bom em silêncio.
Melhor do que qualquer pessoa que conheci.
— Fala logo.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Eu não falei nada.
— Mas tá pensando.
— Talvez.
Revirei os olhos.
— Então fala.
Coruja cruzou os braços.
— Você tá mudando.
Quase ri.
— Que frase dramática.
— Não é drama.
— Então é o quê?
— Observação.
Fiquei quieto.
Ele também.
Coruja me conhecia há anos.
Décadas praticamente.
Conhecia o Miguel.
Conhecia a Morte.
Conhecia tudo que existia entre os dois.
— Tá imaginando coisa.
— Pode ser.
Mas o jeito que ele falou deixou claro que não acreditava na própria resposta.
E aquilo me incomodou.
Porque talvez ele estivesse vendo alguma coisa.
Alguma coisa que eu ainda não queria enxergar.
Depois que ele saiu, fiquei sozinho.
A comunidade brilhava lá fora.
Luzes espalhadas pela escuridão.
Vida acontecendo.
Problemas esperando.
Responsabilidades acumulando.
A mesma rotina de sempre.
Mas, pela primeira vez em muito tempo, alguma coisa parecia diferente.
Pequena.
Quase imperceptível.
Como uma rachadura surgindo numa parede que parecia inquebrável.
E o pior era que eu começava a suspeitar exatamente quando aquilo tinha começado.
No dia em que uma enfermeira teimosa decidiu olhar para mim como se eu fosse apenas um homem.
E não a Morte.