CAPÍTULO 4
MORTE
O sol nascia diferente no Morro da Divisa.
No asfalto, amanhecer devia ter cheiro de café fresco e rotina.
Na Divisa, amanhecia com fumaça de moto, som de rádio chiando e homem armado trocando plantão na contenção.
Abri os olhos antes mesmo do despertador tocar.
Cinco e quarenta da manhã.
Dormi duas horas no máximo.
Normal.
Fiquei alguns segundos encarando o teto escuro do quarto enquanto a comunidade começava a acordar lá fora. Barulho de portão abrindo. Cachorro latindo. Uma mulher gritando com criança na viela de baixo.
E um funk estourado tocando longe.
O morro nunca aprendia a fazer silêncio.
Passei a mão no rosto respirando fundo antes de levantar da cama. O quarto era grande, mas vazio. Frio demais pra alguém realmente chamar aquilo de casa.
Uma cama.
Uma televisão.
Arma em cima do criado-mudo.
Mais armas dentro do armário.
Só.
Eu não gostava de muita coisa ocupando espaço.
Aprendi cedo que tudo que a gente ama vira alvo depois.
Entrei no banheiro ligando o chuveiro gelado.
A água escorria pelo meu corpo tatuado enquanto eu encarava meu reflexo no espelho embaçado.
Cara cansada.
Olheiras fundas.
Cicatriz na sobrancelha.
Outra perto da costela.
Vinte e nove anos.
E às vezes eu tinha impressão que já tava morto fazia tempo.
Só esqueceram de enterrar.
Saí do banheiro enrolando a toalha na cintura enquanto o celular vibrava na cama.
Pitbull.
Atendi colocando corrente no pescoço.
— Fala.
— Movimento tranquilo na pista. Mas teve carro estranho rodando de madrugada.
— Placa?
— Clonada.
Claro.
Passei a mão pela barba.
— Mantém os olheiros atentos.
— Já tão.
Desliguei sem esperar resposta.
Na Divisa ninguém relaxava.
Nem em dia calmo.
Principalmente eu.
Terminei de me vestir rápido:
camisa preta,
bermuda escura,
pistola na cintura.
Automático.
Às vezes eu esquecia como era sair sem arma.
Peguei a chave da moto e desci.
Os vapores na frente da boca imediatamente ficaram retos quando me viram.
— Bom dia, patrão.
Assenti de leve.
Menor Davi tava sentado na mureta com um rádio na mão e um fuzil atravessado no peito magro.
Quinze anos.
Olho cansado igual homem velho.
Aquilo me incomodava mais do que eu gostava de admitir.
— Já comeu? — perguntei.
Ele pareceu surpreso pela pergunta.
— Ainda não.
Joguei cinquenta reais pra ele.
— Vai comer alguma coisa antes do plantão.
Os olhos dele brilharam rápido.
— Valeu, patrão.
Virei as costas antes que ele falasse mais.
Não gostava quando começavam a me olhar como salvador.
Porque eu não era.
Nunca fui.
Subi na moto e desci pelas vielas estreitas do morro observando o movimento começando. Mulher lavando calçada. Criança indo pra escola. Homem bêbado dormindo em cadeira de bar.
Vida normal.
Ou o mais perto disso que existia ali.
Enquanto passava pela principal, percebi algumas pessoas desviando o olhar rapidamente.
Outras abaixando a cabeça.
Respeito.
Medo.
Na Divisa os dois andavam juntos.
Parei a moto perto da casa da minha avó.
O portão tava aberto como sempre.
Dona Lurdes dizia que quem vivia trancado era porque devia demais pro mundo.
Talvez ela tivesse razão.
Desci da moto sentindo o cheiro de café vindo da cozinha antes mesmo de entrar.
A casa dela parecia presa no tempo.
Parede simples.
Ventilador velho.
Imagem de santo na estante.
Ali dentro o Morro da Divisa parecia distante por alguns minutos.
— Miguel?
A voz dela veio da cozinha.
— Tô aqui.
Entrei encontrando ela já colocando café na mesa.
Pequena.
Cabelos completamente brancos.
Olhar firme igual sempre.
A única pessoa naquele morro inteiro que ainda me encarava sem medo.
— Pensei que não vinha.
Sentei puxando a cadeira.
— Falei que ia tentar.
Ela colocou bolo de milho no meu prato enquanto me observava em silêncio.
Dona Lurdes tinha esse costume irritante de enxergar coisas demais.
— Cê tá com cara pior que o normal.
Bufei pegando o café.
— Bom dia pra senhora também.
Ela ignorou.
— Dormindo pouco de novo?
Não respondi.
Ela suspirou baixo.
— Miguel… dinheiro nenhum compra paz.
Olhei pela janela.
Lá fora dava pra ver parte da comunidade acordando aos poucos.
Meu morro.
Meu inferno.
— Paz não sobe morro, vó.
Ela ficou quieta alguns segundos.
Depois sentou na minha frente.
— E felicidade?
Meu maxilar travou automaticamente.
Felicidade.
Fazia tempo que aquela palavra não combinava comigo.
— Isso morreu faz tempo.
Ela me encarou firme.
— Não. Você matou.
Silêncio.
Só o barulho do ventilador girando lento na sala.
Dona Lurdes era a única pessoa viva que tinha coragem de falar comigo daquele jeito.
E talvez por isso eu ainda aparecesse ali.
Porque dentro daquela casa eu não precisava fingir que era feito de concreto.
Peguei outro pedaço de bolo tentando ignorar o peso estranho no peito.
Foi então que ouvi gritaria vindo da rua.
Instintivamente minha mão foi pra cintura.
Dona Lurdes revirou os olhos.
— Nem aqui você relaxa.
Levantei indo até a janela.
Era só discussão de vizinho.
Normal.
Mesmo assim continuei observando até ter certeza.
Paranoia.
Meu cérebro nunca desligava.
— Cê tá vivendo igual bicho acuado — minha avó falou atrás de mim.
Talvez eu estivesse mesmo.
Mas homem no meu lugar morria rápido quando esquecia do perigo.
Me despedi dela meia hora depois.
Antes de sair, Dona Lurdes segurou meu rosto entre as mãos.
Coisa rara.
— Você ainda tem salvação, Miguel.
Ri sem humor.
— A senhora reza demais.
Ela não riu.
E aquilo me incomodou mais do que deveria.
Voltei pra moto tentando tirar aquela conversa da cabeça.
Passei pela principal novamente observando a comunidade agora completamente acordada.
Comércio aberto.
Som alto.
Cheiro de comida misturado com esgoto.
A Divisa era feia.
Mas era minha.
Parei involuntariamente perto do posto comunitário.
Meu maxilar travou na mesma hora.
Involuntariamente.
Mentira.
Eu sabia exatamente por que tinha parado ali.
Vi Alana antes mesmo de descer da moto.
Ela tava sentada na escada da entrada do posto segurando uma menina pequena no colo enquanto fazia curativo no joelho dela.
O cabelo ondulado preso alto deixava algumas mechas soltas no rosto cansado.
Ela falava baixo tentando fazer a criança parar de chorar.
— Pronto… acabou. Tá vendo? Nem doeu tanto.
A menina fungou.
— Doeu sim.
Alana riu fraco.
Primeira vez que vi ela sorrindo.
Aquilo mexeu comigo de um jeito estranho.
Porque parecia errado existir coisa leve naquele lugar.
Continuei observando sem perceber.
Ela tinha paciência.
No Morro da Divisa, paciência era artigo raro.
A maioria das pessoas sobrevivia no automático.
Ela não.
Ela ainda se importava.
Isso me confundia.
A menina saiu correndo logo depois e Alana finalmente percebeu minha presença.
O sorriso morreu na hora.
Ela levantou devagar me encarando.
Fria.
Sempre fria comigo.
Desci da moto sem tirar os olhos dela.
Algumas pessoas perto da rua imediatamente ficaram tensas observando a cena.
Como se esperassem problema.
Talvez com razão.
Alana cruzou os braços.
— Sua avó passou m*l?
Direta.
Sem medo.
Aquilo continuava me irritando.
— Não.
— Então por que tá aqui?
A pergunta quase arrancou um riso meu.
Porque fazia tempo que ninguém falava comigo sem medir consequência.
Aproximei lentamente.
— Cê fala assim com todo mundo?
Ela sustentou meu olhar.
— Só com homem que acha que o morro inteiro pertence a ele.
Pesado.
Gostei.
Perigoso gostar.
Observei ela mais de perto.
Bonita.
Mas cansada.
Os olhos dela carregavam o mesmo peso que eu via em gente muito mais velha.
— E pertence? — perguntei baixo.
Ela arqueou a sobrancelha.
— O morro?
Cheguei mais perto.
— O medo.
Silêncio.
O barulho da comunidade parecia distante naquele momento.
Alana me encarou séria.
— Isso não é respeito.
Desviei os olhos por um segundo observando uma viatura lá longe na entrada da pista.
— Respeito não mantém homem vivo.
Ela ficou quieta.
E pela primeira vez percebi que ela tentava me entender.
Aquilo era novidade.
As pessoas normalmente só:
- me odiavam
ou
- me temiam.
Ela parecia procurar alguma coisa além disso.
— Quantas pessoas já morreram por causa dessa lógica? — ela perguntou baixo.
Pergunta errada.
Meu corpo endureceu imediatamente.
Porque a resposta era:
muitas.
Demais.
Olhei diretamente pra ela.
— Cê trabalha aqui há quanto tempo?
Ela estranhou a mudança de assunto.
— Cinco anos.
— Então já devia saber que o mundo não funciona do jeito que queria.
Alana descruzou os braços devagar.
— E você já devia saber que violência nenhuma resolve tudo.
Quase ri.
Quase.
A inocência dela era irritante.
Mas estranhamente bonita.
— Violência resolve muita coisa, enfermeira.
Ela deu um passo na minha direção.
Corajosa demais.
— Não resolveu você.
Aquilo bateu forte.
Forte demais.
Meu maxilar travou imediatamente enquanto o silêncio crescia entre nós.
Ela percebeu.
Claro que percebeu.
Alana observava as pessoas igual quem tentava costurar feridas invisíveis.
E naquele momento ela tinha acertado exatamente onde doía.
Afastei o olhar primeiro.
Primeira vez em muito tempo.
Peguei o capacete da moto tentando encerrar aquilo antes que continuasse estranho demais.
— Cuida da minha avó direito.
A voz saiu mais baixa do que eu queria.
Ela demorou alguns segundos pra responder.
— Ela merece coisa melhor que esse lugar.
Subi na moto lentamente.
Antes de ligar, encarei ela mais uma vez.
O vento bagunçava algumas mechas do cabelo dela enquanto o movimento do morro seguia ao redor.
Caos.
Barulho.
Vida.
E ela ali no meio.
Como se ainda acreditasse que dava pra salvar alguma coisa.
Balancei a cabeça quase irritado comigo mesmo.
Então acelerei saindo dali.
Mas durante o resto do dia inteiro, a voz dela continuou presa dentro da minha cabeça.
“Violência nenhuma resolveu você.”
E talvez aquele fosse exatamente o problema.
Ela tava começando a enxergar partes minhas que nem eu queria olhar mais.