CAPÍTULO 7
ALANA
Alguns dias se passaram.
E a vida continuou.
Como sempre.
No Morro da Divisa, ninguém tinha muito tempo para ficar pensando nas coisas por tempo demais.
As contas continuavam chegando.
As crianças continuavam ficando doentes.
Os idosos continuavam precisando de remédio.
As mães continuavam preocupadas.
E eu continuava acordando cedo para trabalhar.
Naquela manhã, o despertador tocou às seis.
Abri os olhos devagar.
O corpo inteiro parecia pesado.
Mas isso também já fazia parte da rotina.
Tomei banho, amarrei o cabelo ondulado num coque improvisado e saí de casa carregando uma caneca de café.
O céu ainda estava cinza.
As ruas começavam a ganhar movimento.
Algumas lojas abriam as portas.
Mães levavam crianças para a escola.
Mototáxis subiam e desciam as vielas.
Vida normal.
Ou o mais próximo disso que existia na Divisa.
Quando cheguei ao posto, encontrei Camila tentando fechar uma gaveta.
Tentando.
Porque ela estava presa.
De novo.
— Ainda não arrumaram isso? — perguntei.
— Arrumaram.
— E por que tá quebrada?
— Porque arrumaram.
Ri.
Não consegui evitar.
Aquilo resumiu perfeitamente o lugar.
Passei pelo corredor observando as paredes descascadas.
Uma infiltração nova perto do teto.
Uma cadeira faltando para os pacientes.
Uma impressora que funcionava quando queria.
Um ventilador que fazia mais barulho do que vento.
Suspirei.
Às vezes eu tinha a sensação de que aquele posto era sustentado pela força do ódio e da improvisação.
E a verdade?
Provavelmente era mesmo.
Enquanto organizava alguns materiais, um pensamento atravessou minha cabeça.
Se existisse campeonato de gambiarra na enfermagem…
A gente ganhava disparado.
Sorri sozinha.
Porque era verdade.
E muito.
Faltava gaze.
Faltava material.
Faltava medicamento.
Faltava estrutura.
Mas os pacientes continuavam chegando.
E a gente continuava atendendo.
Porque no fim das contas, o importante era a assistência.
Era isso que eu repetia para mim mesma sempre que sentia vontade de jogar tudo para o alto.
O restante da manhã passou corrido.
Uma criança com febre.
Uma senhora precisando renovar receita.
Um adolescente com o pé machucado depois de jogar bola.
Nada fora do normal.
Perto do horário do almoço, o movimento diminuiu.
Pela primeira vez no dia consegui sentar por alguns minutos.
Estava preenchendo algumas fichas quando ouvi a porta abrir.
Não levantei os olhos imediatamente.
— Boa tarde.
Silêncio.
Estranhei.
Normalmente todo mundo respondia.
Levantei a cabeça.
E encontrei Miguel parado na entrada.
Meu coração deu uma batida mais forte.
Por pura surpresa.
Não medo.
Surpresa.
Ele estava usando uma camisa escura.
E o braço esquerdo estava coberto de sangue.
Muito sangue.
Mas a expressão dele era exatamente a mesma de sempre.
Calma.
Fechada.
Como se tivesse entrado para pedir um copo d’água.
Não como alguém sangrando daquele jeito.
— Meu Deus — Camila falou imediatamente.
Miguel nem olhou para ela.
Os olhos permaneceram em mim.
— Preciso de um curativo.
Revirei os olhos.
— Jura?
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Foi isso que me entregou?
Levantei da cadeira.
— Senta.
Miguel obedeceu.
Sem discutir.
Aquilo já era estranho por si só.
Peguei luvas.
Álcool.
O pouco material disponível.
E me aproximei.
Só então consegui observar melhor.
Era um ferimento de raspão.
Feio.
Mas superficial.
Nada que colocasse a vida dele em risco.
— O que aconteceu?
— Nada.
— Claro.
Comecei a limpar o sangue.
— Porque as pessoas normalmente aparecem baleadas por diversão.
O canto da boca dele quase se moveu.
Quase.
— Foi um tiro de raspão.
— Eu percebi.
— Então por que perguntou?
— Porque gosto de ouvir desculpas ruins.
Miguel soltou um som que parecia muito próximo de uma risada.
Muito próximo.
Mas não chegou lá.
Continuei trabalhando.
— Onde foi?
— Fora da comunidade.
— Que ótimo.
— Por quê?
— Porque pelo menos hoje não vou precisar atender metade do morro junto.
Ele me encarou.
Eu continuei limpando o ferimento.
Sem desviar o olhar.
Sem me intimidar.
Porque sinceramente?
Eu estava mais preocupada com a falta de material do que com ele.
Abri uma gaveta.
Nada.
Outra.
Quase nada.
Suspirei.
— Problema?
— Vários.
Peguei uma caixa improvisada.
Miguel observava tudo.
Em silêncio.
Acabei utilizando um material que normalmente não era minha primeira escolha.
Mas era o que tinha.
Ou melhor.
O que não tinha.
— Isso é protocolo? — ele perguntou.
Olhei para ele.
— Não.
— Então por que tá usando?
Voltei a trabalhar.
— Porque o protocolo acabou.
— Como assim?
— Acabou.
— Acabou?
— É.
— E ninguém repôs?
Dessa vez fui eu quem arqueou a sobrancelha.
— Bem-vindo ao posto de saúde do Morro da Divisa.
Miguel ficou quieto.
Continuei.
— Às vezes falta gaze.
Às vezes falta luva.
Às vezes falta remédio.
Semana passada faltou até esparadrapo.
Silêncio.
— E vocês fazem o quê?
Sorri sem humor.
— Milagre.
Pela primeira vez desde que entrou, ele desviou os olhos.
Observando o ambiente.
As paredes.
As infiltrações.
Os armários velhos.
Os equipamentos desgastados.
Como se estivesse enxergando tudo pela primeira vez.
Talvez estivesse mesmo.
Porque a maioria das pessoas só percebia um problema quando precisava dele.
Terminei o curativo alguns minutos depois.
— Pronto.
Miguel olhou para o braço.
— Ficou bom.
— Eu sou enfermeira.
— Achei que fosse mágica.
Revirei os olhos.
— Engraçadinho.
— Não me chamam assim.
— Imagino.
Pela primeira vez, um sorriso verdadeiro ameaçou aparecer.
Pequeno.
Rápido.
Mas apareceu.
E aquilo me pegou desprevenida.
Porque mudou completamente o rosto dele.
Por um segundo, ele pareceu mais jovem.
Menos cansado.
Menos duro.
Depois desapareceu.
Como se nunca tivesse existido.
Miguel levantou.
— Quanto eu devo?
Quase ri.
— Isso é posto público.
— Então quanto eu devo ao posto?
Cruzei os braços.
— Você tá tentando fazer caridade?
— Talvez.
— Péssima ideia.
— Por quê?
— Porque eu não gosto de dever favor.
Os olhos dele permaneceram nos meus por alguns segundos.
Longos demais.
Depois assentiu lentamente.
— Entendi.
Pegou a jaqueta.
Virou as costas.
E saiu.
Simples assim.
Sem despedida.
Sem explicação.
Sem nada.
Observei ele desaparecer pela porta.
Camila surgiu do meu lado segundos depois.
— Eu tô ficando maluca ou vocês discutem como um casal de cinquenta anos?
Quase engasguei.
— Cala a boca.
Ela começou a rir.
Passei o restante da tarde tentando esquecer aquela conversa.
Tentando.
Sem sucesso.
Porque, pela primeira vez, eu tinha visto Miguel olhando para alguma coisa além de si mesmo.
Além dos próprios problemas.
Além da própria vida.
Ele tinha observado aquele posto.
Observado de verdade.
E alguma coisa me dizia que aquilo não tinha passado despercebido.
Só não imaginava que descobriria tão cedo.
No dia seguinte, quando cheguei para trabalhar, encontrei três caixas novas na recepção.
Fiquei parada olhando.
Sem entender.
Camila apareceu atrás de mim.
— Chegaram cedo.
— Quem enviou?
Ela deu de ombros.
— Não disseram.
Abri a primeira caixa.
Gaze.
A segunda.
Luvas.
A terceira.
Materiais que estavam faltando havia semanas.
Meu coração desacelerou.
Porque eu já sabia.
Não tinha nome.
Não tinha bilhete.
Não tinha assinatura.
Mas eu sabia.
E aquilo me irritou.
Porque era exatamente o tipo de coisa que me impediria de continuar enxergando tudo apenas em preto e branco.
E eu estava começando a odiar o quanto Miguel parecia disposto a complicar as minhas certezas.