Capítulo 2

940 Words
O despertador toca às seis e meia, mas quem realmente desperta as duas é o barulho da chaleira apitando na cozinha. — Rave, o café vai ferver demais! — Rowena grita do quarto, com a cara enfiada no travesseiro. — Se você levantar, ele não ferve — Ravena retruca, já de pé, com o cabelo preso de qualquer jeito. O apartamento é pequeno, mas cheio de vida. Um sofá velho com uma manta colorida, uma TV que às vezes trava, plantas na janela tentando sobreviver, uma mesa de dois lugares lotada de livros, cadernos e canecas. A parede tem fotos das duas em várias fases: crianças, adolescentes, recém-chegadas em Nova York. Rowena sai do quarto puxando a camiseta, com o pijama amarrotado e o cabelo em um coque torto. — Você colocou açúcar no café? — pergunta, desconfiada. — Eu não sou um monstro — Ravena responde, ofendida. — Coloquei sim. E uma pitada de canela, do jeito que você gosta. Rowena se aproxima e rouba a caneca da mão da irmã. — Isso é amor verdadeiro — ela fala, dando o primeiro gole. — Amor verdadeiro seria você pagar o aluguel inteiro esse mês — Ravena rebate. — A gente combina que amor verdadeiro é dividir — Rowena ri. As duas se cruzam pela cozinha estreita, esbarrando uma na outra, mas o movimento é tão automático que quase parece coreografia. Dividem o espelho do banheiro para escovar os dentes, empurram o ombro uma da outra com carinho, reclamam do pouco espaço e riem da própria vida. — Você vai com aquela calça de novo? — Ravena pergunta, olhando a irmã de cima a baixo. — Essa calça está ótima. E é confortável — Rowena responde, ofendida. — Ela já apareceu em mais fotos do que eu. Tem até fã-clube — Ravena provoca. Rowena revira os olhos e entra no quarto para trocar. Quando volta, está com uma calça social simples, uma blusa branca e um blazer emprestado da irmã. — Melhor? — pergunta, girando. — Agora parece que você manda em alguém, não que vai ser mandada — Ravena aprova. Na hora de se maquiar, começa a guerra. — Esse batom é meu — Ravena reclama, vendo Rowena pegar um vermelho. — Mas eu comprei junto com você — Rowena responde, já abrindo a tampinha. — Eu que botei no carrinho! — Eu que passei no caixa. As duas se encaram no espelho, sérias por dois segundos, até que começam a rir. — Você ainda vai ser assistente de um Ceo rico e mandão, tenho certeza — Ravena diz, puxando o batom de volta. — Se for pra aturar macho arrogante, que ele pelo menos pague bem — Rowena responde, rindo. Rowena trabalha em um escritório temporário de atendimento ao cliente. Não é o emprego dos sonhos, mas paga parte das contas. O prédio não tem nada de luxuoso, as cadeiras rangem, o computador trava, o ar-condicionado ou congela ou não funciona. Mesmo assim, ela chega cinco minutos antes do horário. Cumprimenta a recepcionista pelo nome, pergunta do filho do porteiro, segura a porta para a colega que está com as mãos cheias de papéis. — Bom dia, Ro — diz Carly, largando a bolsa na mesa ao lado. — Preparada para mais um dia sendo explorada de forma legalizada? — Pelo menos hoje tem pagamento — Rowena lembra, tentando ver o lado bom. Ela senta na estação de trabalho e abre o sistema. Em poucos minutos, já está respondendo e-mails, resolvendo pepinos que não eram dela, atendendo ligações que ninguém quer pegar. — Rowena, consegue ver esse relatório pra mim? — um colega pede, sem olhar na cara dela. — Rowena, tem um cliente na linha pedindo alguém que saiba explicar melhor — outra chama, esticando o telefone. — Rowena, você pode ficar até mais tarde hoje? — o supervisor pergunta, já esperando um “sim”. Ela segura a vontade de suspirar. — Posso — responde, com um sorriso educado. Ela é aquela pessoa que todos procuram quando algo dá errado. A que resolve. A que organiza. A que respira fundo e não desconta o mau humor nos outros. Ninguém dá parabéns por isso. No máximo, um “obrigado” apressado. Na hora do almoço, ela come um sanduíche rápido na copa, com o caderno de anotações aberto. Faz um curso online à noite e usa qualquer brecha para revisar conteúdo. Idiomas, organização, técnicas de gestão, tudo o que acredita que pode ajudar a abrir uma porta melhor no futuro. O celular vibra com uma mensagem de Ravena. — “Se esse emprego te matar, quero sua calça social de herança.” Rowena ri sozinha e responde: — “Você só quer a calça. Falsa.” À noite, o apartamento parece ainda menor, mas mais aconchegante. As duas se jogam no sofá, cada uma com uma tigela de macarrão fumegante no colo. A TV está ligada em algum programa aleatório, mas o som está baixo. O foco é a conversa. — Hoje uma mulher surtou comigo porque recebeu o reembolso com um dia de atraso — Rowena conta. — Eu expliquei com calma, resolvi o problema, e no final ela ainda mandou: “Você devia sorrir mais”. Ravena faz uma careta. — Eu sorriria mais se não tivesse que aguentar gente assim. — Eu só fiquei pensando que, se um dia eu for chefe, nunca vou falar com ninguém como ela falou comigo hoje. — Você vai ser chefe, sim — Ravena diz com convicção. — E eu vou ser a assistente da chefe poderosíssima da minha irmã. Rowena ri, mas a expressão suaviza.
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