As irmãs ficam caladas por um tempo…
— Eu queria, sabe? Um emprego melhor. Um lugar onde meu trabalho realmente fizesse diferença. Onde eu não fosse só… alguém fácil de substituir.
Ela encosta a tigela na mesa de centro e abraça o joelho.
— Eu quero dar uma vida melhor pra gente. A gente merece mais do que dividir o mesmo casaco no inverno.
Ravena também coloca o prato de lado e vira de frente para ela.
— E você vai conseguir. Você é a pessoa mais dedicada que eu conheço. Enquanto eu reclamo, você estuda. Enquanto eu durmo, você está vendo aula. Uma hora alguma coisa vai abrir.
Rowena olha para a irmã, emocionada.
— Meu maior medo não é trabalhar demais. É me perder de mim mesma por causa de alguém.
— Como assim? — Ravena pergunta.
— Sei lá. Tipo me apaixonar por um cara e, de repente, toda a minha vida girar em torno dele. Esquecer meus planos, minhas metas, quem eu sou. Isso me assusta.
Ravena dá de ombros.
— Eu entendo. Mas também acho que, quando for a pessoa certa, ele vai somar, não apagar.
Rowena franze o nariz.
— Eu posso me apaixonar um dia, Rave, mas não vou deixar ninguém mandar em quem eu sou.
— Você diz isso agora — Ravena provoca. — Espera o cara certo aparecer.
— Se vier metido a dono, eu mando ele enfiar o ego no lugar certo — Rowena retruca, firme.
As duas riem, mas no fundo Rowena está falando sério. Ela se conhece. Sabe que, quando ama, ama de verdade. E sabe que não quer se afundar em alguém que a engula.
Depois do jantar, enquanto Ravena lava a louça, Rowena pega o caderno de anotações e o notebook. Senta na mesa, coloca os óculos de grau e se conecta à aula online. Ravena passa por trás dela e afaga o cabelo.
— Gênio da família — brinca.
— Gênio cansado da família — Rowena responde, mas sorri.
Ela anota termos em coreano, revisa conceitos de administração, faz exercícios. De vez em quando, o olhar desvia para a geladeira, onde um papel escrito à mão está pregado com um ímã.
— “Meta: emprego melhor até o fim do ano.”
Ela respira fundo e volta a se concentrar.
Já passa das dez quando o celular toca. Rowena estranha, não costuma receber ligações nesse horário. Olha o número desconhecido.
— Alô?
— Boa noite. Falo com Rowena Calvert? — a voz do outro lado é profissional, feminina.
— Sim, é ela.
— Aqui é da agência de recrutamento Hamilton & Co. Você cadastrou seu currículo conosco há alguns meses. Está disponível para falar agora?
O coração dela acelera.
— Estou, sim.
— Temos uma vaga para assistente executiva em uma grande corporação. O Ceo é bastante exigente, mas o salário e os benefícios são muito acima da média. Seu perfil chamou atenção.
Rowena se ajeita na cadeira, a mão suando um pouco.
— Assistente executiva… — repete, para ganhar tempo. — Qual seria exatamente a função?
A recrutadora explica, falando de agenda complexa, reuniões importantes, contato com clientes internacionais, muita responsabilidade, mas também muita oportunidade de aprender.
— Se você tiver interesse, gostaríamos de marcar uma entrevista presencial para depois de amanhã — conclui.
Rowena sente um frio na barriga. Olha para a irmã, que já desligou a TV e a observa, curiosa.
— Eu… tenho interesse, sim.
— Ótimo. Vou te enviar por e-mail o endereço, o horário, o nome da empresa e do Ceo. Boa sorte.
Quando a ligação termina, Rowena fica um segundo calada, respirando fundo.
— E aí? — Ravena pergunta, quase pulando no sofá. — O que foi?
Rowena levanta devagar, ainda segurando o celular.
— Era da agência. Marcaram uma entrevista pra uma vaga de assistente… de um Ceo importante. Salário alto. Benefícios. Parece coisa de filme.
O sorriso começa a se abrir no rosto dela.
— Rave… eu acho que nossa vida está prestes a mudar.
Ravena dá um pulo e corre até ela.
— Eu sabia! — grita, abraçando a irmã. — E eu sinto que essa mudança vai ter nome e sobrenome poderoso.
— Que exagero — Rowena ri, mas o coração dispara ainda mais.
Mais tarde, já na cama, Rowena não consegue dormir. Fica pensando em que roupa usar, em como se comportar, em tudo o que pode dar certo… e errado.
Ela levanta, acende a luz do quarto e abre o guarda-roupa pequeno. Separa duas calças, três blusas, dois blazers. Coloca tudo em cima da cama e começa a testar combinações no espelho.
— Você está parecendo adolescente escolhendo roupa pro primeiro dia de aula — Ravena comenta, encostada na porta, sonolenta.
— Essa entrevista pode decidir o resto da nossa vida — Rowena responde, nervosa. — Eu preciso causar uma boa impressão.
— Você só precisa ser você. O resto, o universo dá um jeito — Ravena diz, bocejando. — Agora apaga essa luz e dorme. Se não, vai chegar lá com cara de panda.
Rowena ri, mas obedece. Deita de novo, abraça o travesseiro, encara o teto.
Ela não sabe, mas, daqui a dois dias, nesse estado entre o medo e a esperança, vai abrir a porta de uma sala envidraçada e encontrar um par de olhos frios e intensos a esperando.
Os olhos do homem que, sem saber, vai virar o eixo da vida dela de cabeça para baixo.