Capítulo 3

909 Words
As irmãs ficam caladas por um tempo… — Eu queria, sabe? Um emprego melhor. Um lugar onde meu trabalho realmente fizesse diferença. Onde eu não fosse só… alguém fácil de substituir. Ela encosta a tigela na mesa de centro e abraça o joelho. — Eu quero dar uma vida melhor pra gente. A gente merece mais do que dividir o mesmo casaco no inverno. Ravena também coloca o prato de lado e vira de frente para ela. — E você vai conseguir. Você é a pessoa mais dedicada que eu conheço. Enquanto eu reclamo, você estuda. Enquanto eu durmo, você está vendo aula. Uma hora alguma coisa vai abrir. Rowena olha para a irmã, emocionada. — Meu maior medo não é trabalhar demais. É me perder de mim mesma por causa de alguém. — Como assim? — Ravena pergunta. — Sei lá. Tipo me apaixonar por um cara e, de repente, toda a minha vida girar em torno dele. Esquecer meus planos, minhas metas, quem eu sou. Isso me assusta. Ravena dá de ombros. — Eu entendo. Mas também acho que, quando for a pessoa certa, ele vai somar, não apagar. Rowena franze o nariz. — Eu posso me apaixonar um dia, Rave, mas não vou deixar ninguém mandar em quem eu sou. — Você diz isso agora — Ravena provoca. — Espera o cara certo aparecer. — Se vier metido a dono, eu mando ele enfiar o ego no lugar certo — Rowena retruca, firme. As duas riem, mas no fundo Rowena está falando sério. Ela se conhece. Sabe que, quando ama, ama de verdade. E sabe que não quer se afundar em alguém que a engula. Depois do jantar, enquanto Ravena lava a louça, Rowena pega o caderno de anotações e o notebook. Senta na mesa, coloca os óculos de grau e se conecta à aula online. Ravena passa por trás dela e afaga o cabelo. — Gênio da família — brinca. — Gênio cansado da família — Rowena responde, mas sorri. Ela anota termos em coreano, revisa conceitos de administração, faz exercícios. De vez em quando, o olhar desvia para a geladeira, onde um papel escrito à mão está pregado com um ímã. — “Meta: emprego melhor até o fim do ano.” Ela respira fundo e volta a se concentrar. Já passa das dez quando o celular toca. Rowena estranha, não costuma receber ligações nesse horário. Olha o número desconhecido. — Alô? — Boa noite. Falo com Rowena Calvert? — a voz do outro lado é profissional, feminina. — Sim, é ela. — Aqui é da agência de recrutamento Hamilton & Co. Você cadastrou seu currículo conosco há alguns meses. Está disponível para falar agora? O coração dela acelera. — Estou, sim. — Temos uma vaga para assistente executiva em uma grande corporação. O Ceo é bastante exigente, mas o salário e os benefícios são muito acima da média. Seu perfil chamou atenção. Rowena se ajeita na cadeira, a mão suando um pouco. — Assistente executiva… — repete, para ganhar tempo. — Qual seria exatamente a função? A recrutadora explica, falando de agenda complexa, reuniões importantes, contato com clientes internacionais, muita responsabilidade, mas também muita oportunidade de aprender. — Se você tiver interesse, gostaríamos de marcar uma entrevista presencial para depois de amanhã — conclui. Rowena sente um frio na barriga. Olha para a irmã, que já desligou a TV e a observa, curiosa. — Eu… tenho interesse, sim. — Ótimo. Vou te enviar por e-mail o endereço, o horário, o nome da empresa e do Ceo. Boa sorte. Quando a ligação termina, Rowena fica um segundo calada, respirando fundo. — E aí? — Ravena pergunta, quase pulando no sofá. — O que foi? Rowena levanta devagar, ainda segurando o celular. — Era da agência. Marcaram uma entrevista pra uma vaga de assistente… de um Ceo importante. Salário alto. Benefícios. Parece coisa de filme. O sorriso começa a se abrir no rosto dela. — Rave… eu acho que nossa vida está prestes a mudar. Ravena dá um pulo e corre até ela. — Eu sabia! — grita, abraçando a irmã. — E eu sinto que essa mudança vai ter nome e sobrenome poderoso. — Que exagero — Rowena ri, mas o coração dispara ainda mais. Mais tarde, já na cama, Rowena não consegue dormir. Fica pensando em que roupa usar, em como se comportar, em tudo o que pode dar certo… e errado. Ela levanta, acende a luz do quarto e abre o guarda-roupa pequeno. Separa duas calças, três blusas, dois blazers. Coloca tudo em cima da cama e começa a testar combinações no espelho. — Você está parecendo adolescente escolhendo roupa pro primeiro dia de aula — Ravena comenta, encostada na porta, sonolenta. — Essa entrevista pode decidir o resto da nossa vida — Rowena responde, nervosa. — Eu preciso causar uma boa impressão. — Você só precisa ser você. O resto, o universo dá um jeito — Ravena diz, bocejando. — Agora apaga essa luz e dorme. Se não, vai chegar lá com cara de panda. Rowena ri, mas obedece. Deita de novo, abraça o travesseiro, encara o teto. Ela não sabe, mas, daqui a dois dias, nesse estado entre o medo e a esperança, vai abrir a porta de uma sala envidraçada e encontrar um par de olhos frios e intensos a esperando. Os olhos do homem que, sem saber, vai virar o eixo da vida dela de cabeça para baixo.
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