Capítulo 4

955 Words
O elevador sobe tão rápido que Rowena sente o estômago revirar. Ela aperta a pasta contra o peito e tenta respirar fundo. — “Fale com clareza. Olhe nos olhos. Não fale demais. Não fale de menos.” Repete mentalmente as respostas que ensaiou a noite inteira. Pontos fortes, pontos fracos, experiência, por que quer a vaga. O visor do elevador marca o último andar. O coração dela bate junto com o apito. As portas se abrem. Ela dá um passo à frente e quase esquece como se anda. O hall é amplo, todo em vidro e mármore, com arranjos de flores impecáveis e uma vista absurda da cidade. Tudo brilha. Tudo cheira a dinheiro e poder. Funcionários passam apressados, bem vestidos, falando baixo. Ninguém perde tempo ali. Uma recepcionista de sorriso treinado se levanta. — Bom dia. Posso ajudar? Rowena ajeita a pasta nas mãos. — Bom dia. Eu sou a Rowena Calvert. Tenho uma entrevista para a vaga de assistente executiva. A mulher confere algo no computador, assente. — Sim, claro. O RH já avisou. — Ela pega o telefone, fala algumas palavras e, em seguida, sorri de novo. — Pode se sentar um instante. Vão te chamar. Rowena se senta na poltrona branca, mas não relaxa. As costas ficam eretas, as mãos suadas seguram a pasta. Ela olha em volta, absorvendo detalhes: quadros discretos nas paredes, o brilho do chão, a forma como ninguém cochicha, como tudo parece sob controle. — “É outro mundo” — pensa. Uma mulher de terninho cinza se aproxima alguns minutos depois. — Rowena Calvert? — Sim. — Sou Desirée, do RH. Pode vir comigo, por favor? Rowena se levanta, ajeita o blazer emprestado da irmã e acompanha Desirée pelo corredor. Cada passo ecoa. O som do salto dela parece mais alto do que realmente é. — Fica calma, tá? — Desirée diz, em tom mais humano. — Ele é exigente, mas direto. Responda o que ele perguntar. Sem florear. “Ele.” O Ceo. O homem da vaga. O homem do sobrenome pesado que ela viu no e-mail e pesquisou no Google. Damian Sgriccia. Chegam a uma porta de madeira escura. Desirée bate duas vezes, firme. — Entre — a voz masculina responde lá de dentro. Desirée abre a porta e dá espaço para Rowena passar. A sala é enorme, com uma parede inteira de vidro, mostrando Nova York do alto. A mesa é grande, mas não cheia de coisas. Há poucos objetos, todos alinhados. Cada coisa no seu lugar. Damian está em pé, ao lado da janela. Terno escuro, gravata perfeita, ombros largos, postura reta. Ele parece a continuação do ambiente: frio, caro e completamente no controle. Quando ele se vira, o mundo de Rowena desacelera. Os olhos dele encontram os dela. Escuros, intensos, sem pressa de desviar. Por um segundo, ela esquece o que tinha ensaiado. Esquece até de respirar. — Senhor Sgriccia, esta é Rowena Calvert, candidata à vaga de assistente — diz Desirée, quebrando o silêncio. Ele não olha para Desirée. Não olha para pasta, currículo, nada. Continua olhando para Rowena. — Pode nos deixar a sós — responde, calmo. Desirée faz um aceno quase imperceptível e sai, fechando a porta atrás de si. Agora são só os dois. Rowena engole seco. — “Profissional. Seja profissional.” — Dá um passo à frente. — Bom dia, senhor Sgriccia — diz, com a voz mais firme do que esperava. Ele observa por um instante, avalia. Então caminha até a mesa e se senta na cadeira, indicando a outra com um gesto discreto. — Sente-se, senhorita Calvert. Ela se senta, coloca a pasta no colo, tenta não apertar demais. Por alguns segundos, ele não fala nada. Apenas a observa. O silêncio é incômodo, pesado. Parece um teste. — Leu sobre a empresa? — ele pergunta, finalmente. — Sim. — Ela se inclina levemente para frente. — A Sgriccia Corporation é líder em investimentos e fusões internacionais. Nos últimos três anos, cresceu vinte e cinco por cento mesmo em um cenário instável. O senhor assumiu como Ceo há alguns anos e desde então fechou acordos importantes com grupos europeus. Ele ergue uma sobrancelha. — Decorou a página institucional? — Analisei os relatórios públicos — ela corrige, sem se encolher. — Se eu vou trabalhar para alguém, quero saber onde estou me metendo. Um canto da boca dele se move, quase um sorriso, quase nada. — Fale da sua experiência. Ela fala do emprego atual, das funções, das responsabilidades que assumiu sem que ninguém pedisse, dos sistemas que aprendeu a usar sozinha, dos cursos que faz à noite. Não se diminui, mas também não exagera. Dá exemplos concretos. Fala com calma. Ele escuta, sem interromper. Os olhos não saem do rosto dela. — E por que acha que pode lidar comigo, senhorita Calvert? — pergunta, por fim, entrelaçando os dedos sobre a mesa. Rowena demora um segundo para responder. Sabe que essa pergunta não é sobre horário, e-mail ou agenda. É sobre ele. Sobre a fama dele. — Porque já lidei com gente difícil antes, senhor Sgriccia — diz, escolhendo as palavras. — Chefes explosivos, clientes grosseiros, pessoas que confundem hierarquia com falta de respeito. E nenhum deles era tão assustador quanto a sua fama. O silêncio que se segue é diferente. Mais denso. Ele inclina levemente a cabeça. — Assustador? — As pessoas falam — ela dá de ombros. — Dizem que o senhor é frio, inflexível, que ninguém dura muito na sua sala. Eu não costumo acreditar em tudo o que ouço, mas não posso fingir que não ouvi. Qualquer outra candidata teria tremido, pedido desculpas, tentado se corrigir. Ela não. Ela encara. Com educação, mas encara. Ele deveria mandá-la embora ali.
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