Em vez disso, sente um interesse crescer no peito. Quase físico. O olhar dele desce por um segundo até a boca dela, depois volta para os olhos.
— “Ela é diferente” — ele pensa. — “Não se encolhe, não gagueja, não tenta me agradar. Ou é muito corajosa… ou muito inconsequente. De qualquer forma, eu quero.”
— Você sempre responde assim? — ele pergunta em voz alta. — Tão direto?
— Quando me perguntam algo, eu respondo — ela diz. — Se quisesse ouvir só elogio, o senhor não teria perguntado o que eu acho.
Ele solta um ar pelo nariz, quase um riso.
— Está disposta a trabalhar até tarde?
— Se for remunerado, sim.
— E a atender ligações em horários inconvenientes?
— Depende do nível de inconveniente.
— Fuso horário diferente. Madrugada. Domingos.
Ela pensa por um segundo. Sabe que quer a vaga, mas não é do tipo que promete o que não pode cumprir.
— Se for algo realmente necessário, não um capricho, sim. Não tenho filhos, não tenho outro emprego, não estudo todas as noites. Posso ajustar minha vida. Mas não vou ser 24 horas por dia disponível pra qualquer coisa.
Ele fica em silêncio de novo. Thomaz, que o conhece, saberia que isso é um bom sinal. Ele não perde tempo com quem não o interessa.
— E o que você espera em troca? — ele pergunta.
— Um salário justo. — Ela sustenta o olhar. — E respeito.
Os olhos dele estreitam.
— Respeito?
— Sim. — Ela se inclina um pouco. — Eu sei obedecer, mas não sou tapete. Se fizer algo errado, quero ouvir. Se fizer algo certo, não preciso de aplauso, mas também não quero ser tratada como descartável.
Damian não está acostumado a esse tipo de resposta. A maioria tenta agradar, concordar, ser moldada. Ela não. Ela se coloca como alguém com limites.
Ele recosta na cadeira, analisando mais uma vez. O terno parece ainda mais caro, o relógio brilha sob a luz, mas, naquele momento, é outra coisa que brilha: a obsessão nascendo.
Ele pega o currículo dela, folheia mais por hábito do que por necessidade. Já sabe o que vai fazer.
— Quando pode começar? — pergunta, sem cerimônia.
Rowena pisca.
— Como assim? — ela solta, antes de conseguir ser contida.
— A vaga é para assistente executiva do Ceo. A minha assistente. Estou perguntando quando você pode começar.
Ela engole seco. Tinha se preparado para uma bateria de entrevistas, testes, talvez um retorno em semanas. Não para uma resposta na hora.
— Eu… — respira. — Posso pedir demissão hoje e cumprir aviso. Em duas semanas.
— Dois dias — ele corrige.
Ela arregala os olhos.
— Dois dias é impossível. Eu não vou largar um emprego sem aviso por ética. Não é o tipo de profissional que eu sou.
Ele a observa por alguns segundos, depois inclina a cabeça.
— Uma semana.
Ela pensa rápido. Uma semana é pouco, mas possível. E mostra a ele que ela tem palavra.
— Uma semana — concorda.
Ele se levanta. Ela também. Ele estende a mão.
— Bem-vinda à Sgriccia Corporation, senhorita Calvert.
A mão dela encontra a dele. O toque é firme. Há um choque quase elétrico que nenhum dos dois admite em voz alta.
No corredor, Desirée está esperando.
— E então? — pergunta, curiosa.
Damian passa por ela.
— Contratada. Providencie o contrato e o restante da papelada.
Desirée arregala os olhos, surpresa. Ele nunca decide tão rápido.
— C-claro, senhor.
Mais tarde, na sala de controle de operações, Thomaz está conferindo dados quando o vê entrar.
— E aí? Como foi a entrevista da nova assistente? — pergunta, sem levantar muito o olhar.
— Curta — Damian responde.
— E aí? — Thomaz insiste. — Vai mandar o RH marcar uma segunda etapa, psicotécnico, essas coisas que você adora?
— Não. Já contratei.
Thomaz finalmente ergue os olhos.
— Você nunca contrata alguém tão rápido.
— Ela é qualificada — Damian diz, como se isso explicasse tudo.
Thomaz dá um meio sorriso.
— Ela é bonita com certeza.
Damian também sorri de lado, um gesto raro.
— Quando eu quiser uma análise do meu tipo de mulher, eu peço, Thomaz. Por enquanto, eu só quero que você faça o que faz de melhor, me ajudar a manter o controle.
Thomaz apoia os braços na mesa, encara o amigo.
— E essa é a primeira vez que eu vejo você perdendo o controle por causa de uma mulher.
Damian não responde. Mas o silêncio diz tudo.
À noite, deitado na cama da mansão, ele encara o teto no escuro. Poderia estar pensando no traidor do Queens, no relatório da Europa, no acordo que o pai mencionou.
Mas o que ele vê, quando fecha os olhos, é outra coisa.
A forma como Rowena entrou na sala tentando parecer confiante, mas sem forçar. O jeito que encarou as perguntas dele sem gaguejar. A resposta sobre respeito. O toque da mão dela. A boca que ele observou por um segundo a mais.
Ele inspira fundo.
— “Ela ainda não sabe” —pensa, com uma certeza perigosa — “mas já é minha.”