Capítulo 6

863 Words
Rowena acorda antes do despertador no dia seguinte à contratação oficial. Passa um tempo olhando o teto, sentindo o peso da palavra “assistente executiva” dentro do peito. A barriga dá um frio bom e r**m ao mesmo tempo. Ela se levanta, toma banho com mais calma do que o normal, escolhe a roupa que separou com Ravena: calça social escura, camisa azul clara, blazer ajustado. No espelho, ajeita o cabelo, passa um batom discreto e respira fundo. — Você consegue — sussurra para si mesma. Na cozinha, Ravena está mexendo no café. — Pronta pra servir café pra rico — provoca. — Pronta pra organizar a vida de um homem que acha que o mundo gira no ritmo dele — Rowena responde, pegando uma torrada. — Só não deixa ele achar que manda em você também. — Já avisei pro universo, eu obedeço, mas não viro tapete. As duas riem. Depois, com um abraço apertado, Rowena sai. No prédio da Sgriccia Corporation, tudo parece ainda maior agora que ela sabe que faz parte daquilo. A recepcionista sorri de forma diferente quando ela diz que está começando. — Bem-vinda oficialmente — deseja. No andar do Ceo, uma mesa menor em frente à sala dele agora é dela. Computador, telefone, alguns blocos de anotação, uma caneca nova com o logo da empresa. Ela passa a mão pela superfície da mesa, como se firmasse um pacto. Thomaz se aproxima com uma pilha de pastas. — Bom dia, Rowena — diz, simpático. — Primeiro dia? — Isso — ela confirma, tentando não parecer tão nervosa. — Sou o Thomaz. Se precisar de algo, pergunte antes de tentar adivinhar. Vai economizar tempo — ele sorri de lado. — E ele gosta de eficiência. — Eu também — ela responde. Damian chega alguns minutos depois. O corredor muda. A conversa baixa. O ar parece mais denso. Ele olha primeiro para a própria sala, depois para a nova ocupante da mesa. — Senhorita Calvert — cumprimenta. — Bom dia, senhor Sgriccia. — Agenda — ele pede, indo direto ao ponto. Ela entrega o tablet com a programação do dia que revisou na noite anterior. Reuniões, horários, nomes, pequenas notas. Ele passa os olhos, testa. — Quem te passou esses detalhes? — pergunta, apontando uma anotação sobre um investidor que “fala demais e decide de menos”. — Li relatórios antigos. E perguntei para o pessoal do RH — ela responde. Ele devolve o tablet. — Ótimo. A partir de hoje, quero que tudo passe por você antes de chegar a mim. Ela sente uma pontada de orgulho. E outra de pressão. O dia começa. Damian é de um nível de organização que beira o exagero. Reunião às nove? Ele entra na sala às oito e cinquenta e oito. A apresentação tem que estar aberta, as pastas sobre a mesa na ordem em que serão usadas, a água sem gelo, o café forte e sem açúcar. Rowena acompanha o ritmo. Anota tudo. Ajusta. Antecipar passa a ser a palavra-chave do dia. — Não gosto de esperar mais de três toques no telefone — ele diz. Na tarde seguinte, ela já consegue atender e transferir antes disso. — Não remarco reunião mais de duas vezes com a mesma pessoa. Ela começa a lidar com as recusas e remarcações com firmeza, sem pedir desculpas demais. Aprende o tom que ele usa: educado, mas inegociável. Ele é intolerante com erros, seco nas correções. Mas, para surpresa dela, é justo. Quando ela acerta, ele não elogia em voz alta, mas passa a confiar tarefas maiores. Quando ela erra uma vez, ele corrige. Se ela não repete o erro, o assunto morre ali. E ela não repete. Isso é o que passa a irritá-lo e fasciná-lo ao mesmo tempo. Na terceira manhã, ele pede: — Café. Ela estranha, mas vai até a copa. Pega a ficha que ele preencheu no primeiro dia: tipo, quantidade, tempo na máquina. Quando volta com a xícara, coloca na mesa. Ele toma um gole, sem olhar para ela. — Exatamente como eu gosto. Nos dias seguintes, é automático, sempre que ele diz “café”, ela já sabe o que fazer. E ele passa a não pedir para mais ninguém. Em uma grande reunião com diretores, Rowena entra para registrar pontos e controlar a apresentação no telão. A sala está cheia de ternos caros, perfumes discretos e egos grandes. Ela se senta em um canto, próxima ao projetor, tablet nas mãos, atenta. Um dos executivos mais antigos, um homem de sorriso fácil, senta-se perto demais. — Nova por aqui, não é? — ele cochicha, enquanto os outros ainda estão se ajeitando. — Sim, senhor — ela responde, profissional. — Se precisar de alguém pra te mostrar os melhores restaurantes da cidade, estou à disposição — ele comenta, com um sorriso que vai além da educação. Rowena retribui um sorriso mínimo, por educação mesmo, e volta a olhar para a tela. Tenta não demonstrar incômodo. Damian entra na sala nesse momento. Vê o jeito como o executivo olha para ela, o sorrisinho, a proximidade. Vê, também, o sorriso polido de Rowena. A expressão dele endurece um pouco.
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