Capítulo 7

902 Words
Durante a reunião, ele conduz a discussão, derruba ideias ruins com poucos argumentos, aprova o que presta. Rowena acompanha tudo, muda slides no tempo exato, anota decisões chave. Quando a reunião termina, as pessoas começam a sair, conversando em pequenos grupos. — Senhorita Calvert — a voz de Damian a chama. Ela vai até ele. — Sim? — Na minha sala. Agora. Ela sente a coluna se endireitar. Entra na sala do Ceo alguns passos atrás dele. Ele fecha a porta com calma. — Evite sorrisos desnecessários com certas pessoas — diz, sem rodeios. Ela franze o cenho. — Certas pessoas, senhor? — Homens que confundem profissionalismo com oportunidade — esclarece, olhando diretamente para ela. Ela cruza os braços sem perceber. — Eu só estava sendo educada. — Não trabalhe para ninguém aqui além de mim — ele rebate. — Sua atenção é exclusivamente minha. Rowena sente o estômago revirar, mas não é medo. É irritação. — Não sabia que o contrato de trabalho incluía ciúmes, senhor Sgriccia. Ele se aproxima apenas o suficiente para que ela sinta a intensidade do olhar. — Inclui lealdade absoluta. Ela aguenta o olhar por mais um segundo, depois desvia para o lado para conseguir respirar. — Pode ficar tranquilo, então. Eu sou leal a quem me paga em dia. E, por enquanto, só tem um nome na minha conta. Ele solta um “hm” que pode ser metade irritação, metade divertido. — Volte ao trabalho. Ela sai, mas sente o coração acelerado pelo resto da tarde. Os dias vão criando um ritmo próprio. Ela passa a saber quando ele vai querer café antes mesmo de ele pedir, só pelo jeito que ele larga a caneta na mesa. Aprende que ele detesta ser interrompido quando está ao telefone, mas não se importa que ela entre silenciosamente para deixar documentos em cima da mesa. Ele passa a ajustar algumas coisas sem dizer nada, muda horários de reunião quando percebe que ela tem outra demanda pesada naquele bloco, recusa eventos desnecessários, responde “não” a convites que ela já organizou, mas sabe que a sobrecarregariam. Os olhares entre os dois começam a ficar mais frequentes. Às vezes, ela o pega observando enquanto fala ao telefone com algum fornecedor. Outras, ele a percebe analisando um contrato com a testa franzida, mordendo de leve o lábio inferior. Um dia, Thomaz passa pelo corredor com dois cafés na mão e comenta, em tom de brincadeira: — Você estragou o homem. Agora ele não aceita outro café que não seja o seu. Rowena ri. — Não é culpa minha se ele tem gosto exigente. — Não é só com café — Thomaz fala, mais para si do que para ela. Em casa, à noite, Ravena percebe a mudança na forma como a irmã fala. — Como foi o dia? — pergunta, enquanto mexe em uma panela de macarrão. Rowena abre a geladeira, pega uma garrafa de água. — Corrido. Ele é exigente, mas é brilhante. — Ela se encosta no balcão. — E quando ele olha pra você, parece que enxerga tudo. Até a alma. Ravena levanta as sobrancelhas. — Parece, não. Ele deve ser do tipo que destrincha a alma da pessoa. Cuidado. — Eu não estou apaixonada, se é isso que está pensando — Rowena se defende, rápido demais. — Eu não disse nada — Ravena aponta a colher para ela. — Mas se quiser confessar alguma coisa… — Vai mexer no molho, por favor? — Rowena corta, rindo, mas com as bochechas um pouco coradas. Numa noite de quinta-feira, o prédio já está bem mais vazio quando o relógio passa das oito. As luzes de alguns andares estão apagadas, mas o último ainda brilha. Rowena está fechando um relatório quando ouve a voz dele. — Senhorita Calvert. Ela aparece na porta. — Sim, senhor? — Preciso que revise um contrato comigo. Deve sair amanhã. Não quero erros. — Claro. Ela entra na sala. Ele está de mangas arregaçadas, gravata solta, o paletó pendurado na cadeira. Parece menos inacessível assim, mas não menos perigoso. Ele entrega o contrato, e os dois se sentam na mesa de reunião interna da sala. A cidade está acesa atrás deles, através do vidro. Rowena lê em silêncio, marcando pontos com um marcador. Ele faz o mesmo do outro lado. A sala está tão quieta que dá para ouvir o relógio. Em determinado momento, os dois estendem a mão para pegar a mesma folha. Os dedos se tocam. É um toque rápido, mas a energia que passa é forte demais para ser ignorada. Ela sente um arrepio subir pelo braço. Ele sente os dedos formigarem. Os olhos se encontram por cima do papel. — Você não vê algo mais aqui? — ele pergunta, mas não está falando só do contrato. Ela sabe que não está. E, mesmo assim, responde o que pode. — Está me perguntando sobre o texto ou… está me testando, senhor Sgriccia? Ele inclina levemente a cabeça. — Estou me perguntando até onde você consegue manter essa postura profissional. Ela segura o olhar, mesmo com o coração batendo rápido. — Até onde for necessário. Ele sorri de lado, quase imperceptível. — Veremos, Rowena. Veremos. Ela volta os olhos para o papel, mas as letras parecem dançar por alguns segundos. A barreira entre chefe e assistente ainda está de pé. Mas, depois desse toque, ambos sabem que ela começou a rachar.
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