Durante a reunião, ele conduz a discussão, derruba ideias ruins com poucos argumentos, aprova o que presta. Rowena acompanha tudo, muda slides no tempo exato, anota decisões chave.
Quando a reunião termina, as pessoas começam a sair, conversando em pequenos grupos.
— Senhorita Calvert — a voz de Damian a chama.
Ela vai até ele.
— Sim?
— Na minha sala. Agora.
Ela sente a coluna se endireitar. Entra na sala do Ceo alguns passos atrás dele. Ele fecha a porta com calma.
— Evite sorrisos desnecessários com certas pessoas — diz, sem rodeios.
Ela franze o cenho.
— Certas pessoas, senhor?
— Homens que confundem profissionalismo com oportunidade — esclarece, olhando diretamente para ela.
Ela cruza os braços sem perceber.
— Eu só estava sendo educada.
— Não trabalhe para ninguém aqui além de mim — ele rebate. — Sua atenção é exclusivamente minha.
Rowena sente o estômago revirar, mas não é medo. É irritação.
— Não sabia que o contrato de trabalho incluía ciúmes, senhor Sgriccia.
Ele se aproxima apenas o suficiente para que ela sinta a intensidade do olhar.
— Inclui lealdade absoluta.
Ela aguenta o olhar por mais um segundo, depois desvia para o lado para conseguir respirar.
— Pode ficar tranquilo, então. Eu sou leal a quem me paga em dia. E, por enquanto, só tem um nome na minha conta.
Ele solta um “hm” que pode ser metade irritação, metade divertido.
— Volte ao trabalho.
Ela sai, mas sente o coração acelerado pelo resto da tarde.
Os dias vão criando um ritmo próprio.
Ela passa a saber quando ele vai querer café antes mesmo de ele pedir, só pelo jeito que ele larga a caneta na mesa. Aprende que ele detesta ser interrompido quando está ao telefone, mas não se importa que ela entre silenciosamente para deixar documentos em cima da mesa.
Ele passa a ajustar algumas coisas sem dizer nada, muda horários de reunião quando percebe que ela tem outra demanda pesada naquele bloco, recusa eventos desnecessários, responde “não” a convites que ela já organizou, mas sabe que a sobrecarregariam.
Os olhares entre os dois começam a ficar mais frequentes. Às vezes, ela o pega observando enquanto fala ao telefone com algum fornecedor. Outras, ele a percebe analisando um contrato com a testa franzida, mordendo de leve o lábio inferior.
Um dia, Thomaz passa pelo corredor com dois cafés na mão e comenta, em tom de brincadeira:
— Você estragou o homem. Agora ele não aceita outro café que não seja o seu.
Rowena ri.
— Não é culpa minha se ele tem gosto exigente.
— Não é só com café — Thomaz fala, mais para si do que para ela.
Em casa, à noite, Ravena percebe a mudança na forma como a irmã fala.
— Como foi o dia? — pergunta, enquanto mexe em uma panela de macarrão.
Rowena abre a geladeira, pega uma garrafa de água.
— Corrido. Ele é exigente, mas é brilhante. — Ela se encosta no balcão. — E quando ele olha pra você, parece que enxerga tudo. Até a alma.
Ravena levanta as sobrancelhas.
— Parece, não. Ele deve ser do tipo que destrincha a alma da pessoa. Cuidado.
— Eu não estou apaixonada, se é isso que está pensando — Rowena se defende, rápido demais.
— Eu não disse nada — Ravena aponta a colher para ela. — Mas se quiser confessar alguma coisa…
— Vai mexer no molho, por favor? — Rowena corta, rindo, mas com as bochechas um pouco coradas.
Numa noite de quinta-feira, o prédio já está bem mais vazio quando o relógio passa das oito. As luzes de alguns andares estão apagadas, mas o último ainda brilha.
Rowena está fechando um relatório quando ouve a voz dele.
— Senhorita Calvert.
Ela aparece na porta.
— Sim, senhor?
— Preciso que revise um contrato comigo. Deve sair amanhã. Não quero erros.
— Claro.
Ela entra na sala. Ele está de mangas arregaçadas, gravata solta, o paletó pendurado na cadeira. Parece menos inacessível assim, mas não menos perigoso.
Ele entrega o contrato, e os dois se sentam na mesa de reunião interna da sala. A cidade está acesa atrás deles, através do vidro.
Rowena lê em silêncio, marcando pontos com um marcador. Ele faz o mesmo do outro lado. A sala está tão quieta que dá para ouvir o relógio.
Em determinado momento, os dois estendem a mão para pegar a mesma folha. Os dedos se tocam.
É um toque rápido, mas a energia que passa é forte demais para ser ignorada. Ela sente um arrepio subir pelo braço. Ele sente os dedos formigarem.
Os olhos se encontram por cima do papel.
— Você não vê algo mais aqui? — ele pergunta, mas não está falando só do contrato.
Ela sabe que não está. E, mesmo assim, responde o que pode.
— Está me perguntando sobre o texto ou… está me testando, senhor Sgriccia?
Ele inclina levemente a cabeça.
— Estou me perguntando até onde você consegue manter essa postura profissional.
Ela segura o olhar, mesmo com o coração batendo rápido.
— Até onde for necessário.
Ele sorri de lado, quase imperceptível.
— Veremos, Rowena. Veremos.
Ela volta os olhos para o papel, mas as letras parecem dançar por alguns segundos. A barreira entre chefe e assistente ainda está de pé.
Mas, depois desse toque, ambos sabem que ela começou a rachar.