Capítulo 8

1669 Words
Rowena já sabia o que esperar da rotina dele. Na terceira semana, o corpo dela já se ajustava automaticamente aos horários de Damian Sgriccia. Chegava antes dele, ligava as luzes, conferia a agenda, respondia e-mails mais simples, preparava o café do jeito exato que ele gostava. Forte, sem açúcar, na medida certa, na xícara preta. Começava a entender também o humor de cada dia. Quando ele entrava no corredor sem olhar para os lados, já sabia que a manhã seria puxada. Quando passava os dedos pelo nó da gravata, significava que alguém tinha feito alguma estupidez. Quando deixava o celular em cima da mesa, virado para baixo, era sinal de reunião tensa. Do lado dele, a observação era ainda mais cuidadosa. Damian sabia quando ela estava concentrada porque ela mordia o lábio inferior sem perceber. Sabia quando ficava satisfeita ao resolver algo difícil porque o sorriso dela surgia rápido e sumia na mesma velocidade, como se ela não se permitisse festejar demais. Ele via também a forma como ela tratava as pessoas. O jeito gentil com a recepcionista, a paciência com alguém que explicava a mesma coisa três vezes, a postura firme quando um colega tentava jogar culpa em outra pessoa. Ela tinha um modo particular de defender quem era injustiçado. Não fazia escândalo. Não afrontava na frente de todos. Chamava de lado, falava baixo, mas suas palavras tinham peso. Ele gostava de ver isso. Talvez porque, no mundo dele, ninguém defendia ninguém por altruísmo. Numa manhã de quarta-feira, algo está diferente. Rowena chega no horário de sempre, faz tudo que sempre faz, mas está mais calada. Evita conversas, responde com monossílabos, não faz comentários leves como costuma fazer. Damian repara em dez minutos. Às nove, ele chama: — Senhorita Calvert. Ela aparece na porta. — Sim, senhor? — Café. Ela traz o café, coloca em cima da mesa e já vai saindo quando ele diz: — Fique. Ela para, volta dois passos. — Aconteceu alguma coisa que eu precise saber? — ele pergunta, sem levantar a voz. — Não, senhor. Está tudo bem. Ele a observa. Os olhos dela não encontram os dele com a mesma facilidade. A mão segura a pasta com mais força do que deveria. — Você sabe que não gosto de respostas vagas — ele comenta. — “Tudo bem” não quer dizer nada. Ela hesita um pouco. — Não é nada que atrapalhe o trabalho — diz, tentando encerrar ali. Ele apoia o corpo na cadeira, entrelaça os dedos. — Quem? — pergunta. Ela engole seco. — Não é… — Quem? — ele repete, mais firme. Ela fecha os olhos por um segundo. Sabe que, se não falar, ele vai descobrir de outro jeito. — O diretor de operações. — respira. — Ele levantou a voz comigo por causa de um relatório que veio errado. Mas não era meu. — Nome. — Ryan. Eles se encaram em silêncio. Damian pega o telefone. — Chame o diretor de operações na minha sala. Agora. Ryan entra alguns minutos depois. Meio careca, terno caro, barriga discreta de quem não recusa vinho bom. Ele olha para Rowena de relance, depois foca em Damian. — O senhor pediu para falar comigo? — Pedi — Damian responde, a voz tranquila. — Feche a porta. Ryan obedece. Fica em pé diante da mesa, tentando parecer seguro. Rowena permanece ao lado, com a pasta junto ao corpo. Não sabe se queria estar ali ou em qualquer outro lugar do mundo. Damian apoia os cotovelos na mesa. — Fiquei sabendo que você levantou a voz para minha assistente hoje de manhã. Ryan solta um meio riso nervoso. — Eu apenas… fui enfático sobre um equívoco no relatório, senhor. Nada demais. — Enfático — Damian repete, como se provasse a palavra. — Engraçado… porque aqui dentro, só eu posso ser enfático com ela. O diretor tosse, desconcertado. — Eu não quis desrespeitar. Só estava cobrando responsabilidade. — Responsabilidade que não era dela — Damian corrige. — O erro foi do seu analista. Eu vi a trilha dos arquivos. Você jogou na pessoa errada porque é mais fácil gritar com quem chegou depois. O rosto de Ryan muda. Ele olha rápido para Rowena, depois volta os olhos para Damian. — Eu… talvez tenha me excedido. — tenta se recompor. — Mas não foi minha intenção… — A intenção é irrelevante — Damian o corta. A voz continua baixa, mas cada sílaba é um tiro. — Na próxima vez que tiver um problema com alguém da minha equipe, especialmente com ela, você vai acertar o tom ou vai acertar a porta. Só existem essas duas opções. Ryan engole seco. — Está claro? — Está, senhor. — Ótimo. Pode sair. O homem sai quase tropeçando. A sala fica em silêncio. Rowena ainda está parada no mesmo lugar, tentando processar o que acabou de acontecer. — Não precisava fazer isso — ela fala, finalmente. Damian a encara. — Precisa aprender uma coisa, Rowena. — O quê? Ele não desvia. — Quem mexe com o que é meu, mexe comigo. O coração dela dispara. Ela tenta fazer piada. — “Seu”, como em… “minha assistente”? — Como em alguém que responde diretamente a mim — ele responde, deixando a frase suficientemente aberta. Ela finge que não percebe o subtexto. — Então posso entender que é uma proteção profissional. Um canto da boca dele se ergue. — Você pode entender como quiser. O fato não muda. Ela respira fundo, segura a pasta com mais força. Saindo da sala, o pensamento vem como um grito quieto: — “Ele é meu chefe. Meu chefe. Aquilo é só proteção profissional. Só pode ser.” À noite, no sofá de casa, Ravena está com um pote de pipoca no colo quando a irmã chega. — Você está com uma cara… — começa. — Não começa — Rowena avisa, largando a bolsa na cadeira. — Ai, meu Deus. Já sei. Ou foi demitida ou está apaixonada. — Eu não estou apaixonada. — Então foi demitida — Ravena conclui, tranquila. Rowena joga uma almofada nela. — i****a. — Tá, fala — Ravena insiste. — O que aconteceu? Rowena suspira, senta no sofá, pega um punhado de pipoca e começa a falar, sem olhar direto para a irmã. Conta do diretor m*l-educado, conta de como Damian chamou o homem na sala, das frases, do “quem mexe com o que é meu”. Quando termina, Ravena está com as sobrancelhas quase na linha do cabelo. — Eu não posso me apaixonar por ele, Rave — Rowena solta, quase num sussurro. — Então você já sabe o nome do problema — Ravena responde, afiada. — Ele é intenso demais — Rowena continua. — Quando olha pra mim, esqueço até meu nome. — Cuidado pra não esquecer quem você é — Ravena alerta. — Lembra do que você me disse? Que não ia deixar nenhum homem mandar em quem você é. — Eu sei. — Ela aperta os olhos. — É justamente isso que me assusta. Ele tem essa coisa de… controlar tudo. E eu tenho medo de acordar um dia e perceber que estou vivendo a vida dele, não a minha. Ravena dá um gole no refrigerante. — Então, se for pra se envolver, faz isso com consciência. Sem mentir pra si mesma. Sem amenizar o que ele é. Rowena assente. Mas, no fundo, sabe que o coração dela já está alguns passos à frente da cabeça. No escritório, Thomaz percebe o que poucos ousariam comentar. Encontra Damian no fim da noite, na sala dele, mexendo em um contrato que já revisou três vezes naquele dia. — Tem algo errado nesse documento? — Thomaz pergunta. — Está bom demais — Damian responde, seco. Thomaz se encosta na porta. — E na sua cabeça? Damian o ignora por alguns segundos. Depois solta o ar. — Você sabe que não é uma boa ideia, certo? — Thomaz insiste. — Assistente. Trabalho. Exposição. Tudo isso junto. Damian gira o copo com uísque nas mãos. — Eu sei que é inevitável. Thomaz estreita os olhos. — Vai se envolver? Damian o encara pela primeira vez nessa conversa. — Eu já estou envolvido — admite, pela primeira vez, em voz alta. — A única questão agora é… quando ela vai perceber que pertence a mim? Thomaz solta um meio sorriso preocupado. — Só lembra que ela não nasceu no seu mundo. Que tem medo dele. E que, se você jogar pesado demais, ao invés de ficar, ela vai fugir. Damian fica calado. Ele conhece bem o que é ver alguém fugir. — Não vou perder. Não dessa vez. É tarde quando o andar esvazia. Rowena já foi embora há alguns minutos. As luzes de metade do prédio estão apagadas. Só o último andar ainda brilha. Na sala de Damian, a mesa está arrumada, os papéis empilhados, o computador desligado. Ele está sentado na cadeira, girado de lado, olhando para o vidro que separa sua sala da estação de Rowena lá fora. A cadeira dela está vazia, a tela do computador apagada, uma caneca de café pela metade ao lado do teclado. Passa os dedos pela borda do copo de uísque. O gelo derrete devagar. Pensa no jeito que ela bateu a porta da sala mais cedo, irritada por ter sido “defendida”. Pensa no brilho nos olhos dela quando fala de alguma ideia nova. Pensa em como o nome dela, “Rowena”, parece encaixar na boca dele de um jeito perigoso. Ele inclina a cabeça para trás, encara o teto por um segundo, depois fala baixo, só para o vazio ouvir: — Não vou ser só o seu chefe, Rowena. Eu vou ser tudo o que você precisa. E você ainda vai agradecer por isso. Ele sabe que, naquele ponto, o limite entre chefe e assistente já não é uma linha reta. É uma corda esticada, prestes a arrebentar. E, quando arrebentar, nada mais volta a ser como era antes.
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