Melanie narrando
O silêncio caiu pesado. Abri os olhos devagar, o corpo todo rígido, esperando o pior. O rosto dele se transformou.
Não foi surpresa. Foi ódio puro.
- Sua desgraçada! ele rosnou , dando um passo pra trás, me encarando com cara de nojo , como se eu tivesse feito aquilo por provocação. - Tu é doente, p***a?
Minhas pernas falharam. Eu tremia tanto que m*l conseguia ficar em pé. A mão suja por ter tentado segurar , os produtos no chão . A garganta ardendo , os olhos marejados de tanto pavor.
- Eu… eu to passando m*l… me desculpa… minha voz saiu fraca, quebrada, quase um sussurro. Ele riu curto, seco e perigoso.
- Passando m*l e um c*****o! sua gorda maldita . Fez de propósito. cuspiu as palavras como se quisesse me ferir com cada sílaba. A Lua que estava atrás dele deu um passo pra longe, o rosto fechado, cara de nojo e começou a fazer ânsia, o cheiro não estava dos melhores , meu Deus me livra dessa situação. O medo era a pior que o constrangimento.
- Que nojo, Biro. Manda essa garota embora daqui AGORA ! ela gritou , ajeitando o cabelo, como se eu fosse um lixo no chão da sala. Ele continuava me encarando os olhos frios, calculistas , parecia imaginar mil formas de me matar.
- Limpa essa p***a sua nojenta ele me grudou pelo cabelo , o coque alto comecou a desmachar a força dele puxando meu cabelo fazia arde o couro cabeludo. Senti minhas pernas serem golpeadas e fui de cara no chão a poucos centímetros do vômito. - Limpa isso sua maldita , agora ou então eu te mato .
- Se eu fosse você biro ... eu fazia ela Lamber . comecei a negar desesperadamente com a cabeça, minha voz não saia , as lágrimas escorrendo sem parar . - Vai biro faz ela limpar com a língua .
- Não por favor não faz isso comigo, eu vou limpar tudo, eu vou deixar tudo um brilho como você gosta , só não faz isso por favor ...minha voz saiu como uma prece .
- Cala a boca sua filha da p**a . eu calei na hora, fechei o olho e ela voltou a segurar meu cabelo.- Levanta sebosa ... eu fui levantando conforme ele me puxava.
- Vai Biro faz ela Lamber. eu ouvia ela falando , colocando pilha pra ele me humilhar ainda mas .
- Cala a p***a dessa boca vagabunda . Senti quando ele me empurrou as minhas costas bateram no encosto do sofá. Eu inverguei.
- Vai some . Some da minha frente sua filha da p**a , antes que eu perca a paciência de vez. falou cada palavra pesava como ameaça. E agradece que hoje eu tô com visita. Não esperei repetir. Me virei cambaleando, o coração batendo tão forte que parecia querer rasgar meu peito.
Firmei o passo só quando cheguei na área de serviço, longe dos olhares deles de ódio e nojo. Não era vergonha.Era sobrevivência.
Eu não tinha forças pra gritar, nem pra reagir. Só pra sair inteira por fora. Porque por dentro…mais um pedaço tinha sido arrancado.
Entrei na área de serviço e fechei a porta com cuidado, qualquer barulho pudesse chamar de novo a fúria dele. Minhas mãos tremiam tanto que eu precisei apoiar na pia pra não cair. Respirei fundo uma, duas, três vezes… mas o ar parecia não chegar direito nos pulmões. Abri a torneira e deixei a água correr. O som constante me ajudava a não ouvir a voz deles ecoando na minha cabeça. Lavei as mãos devagar, esfregando a pele como se pudesse arrancar junto o medo, a humilhação, o nojo que tinham jogado em mim. A água fria escorria, misturada com minhas lágrimas, pingando no ralo.
Me olhei no reflexo do vidro da janela. O coque desfeito, alguns fios grudados no rosto molhado, os olhos vermelhos e inchados. Por um segundo, quase não me reconheci. Engoli em seco.
-Aguenta… só aguenta mais um pouco . sussurrei pra mim mesma.
Peguei um punhado de água com as duas mãos e molhei a nuca . O corpo doía, mas eu precisava ficar de pé ainda tinha um dia inteiro pela frente eu so precisava me acalmar . Sentei no banquinho encostado na parede e abracei os joelhos, tentando controlar o tremor que vinha de dentro pra fora. O medo não tinha ido embora. Ele ainda estava aqui , apertado no peito. Mas junto dele vinha outra coisa… a certeza de que eu tinha sobrevivido ao momento. O coração foi desacelerando aos poucos, como se entendesse que, por agora, não havia mãos no meu cabelo, nem gritos nos meus ouvidos .Fiquei assim por um tempo até que não ouvi mas a voz deles .
Levantei, enxuguei o rosto com a barra da blusa e ajeitei a parte amassada. Não por vaidade por dignidade. Mesmo ferida, mesmo quebrada por dentro, eu ainda sou eu. Abri a porta devagar , não tinha nenhum barulho, fui em silêncio, passos leves, cuidando pra não chamar atenção. Um pano e o rodo na mão, a poça de sujeira estava do mesmo jeito , o cheiro ja exalando por todo cômodo. Eu me abaixei limpando em silêncio, o coração ainda disparado, como se qualquer barulho pudesse chamar atenção . Quando levantei percebi a geladeira estava entreaberta. Fechei com cuidado, fui lavar o pano no tanque e mesmo com nojo eu não tinha saída a não ser limpar . Depois fui fazer as outras coisas . Lavei a pia, enxuguei o balcão, alinhei os copos .
O relógio marcava meio dia e quarenta e cinco , o estômago já dava o sinal de alarde , roncando de fome . Tinha comido apenas duas bolachas com manteiga antes de sair de casa com um gole de água e jogado tudo pra fora .O cheiro da comida estava exalando me deixando com água na boca , mas eu não tinha coragem de botar um grão na boca . Ele nunca falou que não podia , mas eu nunca quis arriscar. Qualquer estalo me fazia prender o ar.
Quando terminei encostei na bancada por um segundo. Passei a mão na barriga, num gesto inconsciente, peguei um copo e enchi de água e tomei em poucos goles . Endireitei os ombros e continuei meus afazeres coloquei tudo separadinho nas travessas e comecei a lavar as panelas , organizei o fogão, tudo sem pressa, com cuidado pra não quebrar.
Foi então que o som seco ecoou. A porta bateu . Meu corpo reagiu antes da cabeça. Dei um pulo, o pano caiu da minha mão, o coração disparou tão forte. Virei de supetão, o ar sumiu dos pulmões. Por um segundo eterno, tive certeza de que ele estava chegando pra almoçar e ia vir pra cima de mim de novo. Fiquei imóvel, esperando o pior. Então o outro som.
O ronco conhecido da moto ligando lá fora.
Coloquei a mão no meu peito veio um alívio. Não era ele entrando. Era ele saindo. Ouvi o motor acelerar, o barulho ficando mais distante , soltei o ar . Passei o olhar pelo relógio novamente e vi que já tinha passado do meu horário fez minuto eu tinha pouco tempo pra finalizar aqui , passar em casa comer alguma coisa, tomar um banho e depois pegar segundo turno do dia ir pra lanchonete. hoje era o meu dia de atender lado de fora.
Eu odeio e o dia que eu mais passo raiva , as piadas são constantes, mas eu preciso desse emprego e de onde vem o sustento lá de casa. E pouco mas e o que ajuda a não passar fome , porque se eu for depender da minha mãe, ou da pensão que a minha vó deixou pra nós que ela faz questão de dizer que é dela e torrar tudo com o vício, a gente morre de fome. A parte boa é que a Angelina é quem não me deixa desistir, minha única amiga é tá sempre me colocando pra cima , me aconselha , me deixa forte . Com ela chego até pensar que tenho alguma coisa boa em mim de tanto que ela me elogia , e eu juro que não consigo ver nada que me agrade , por fora a única coisa que vejo em mim é a parte interior, os bons ensinamentos que minha vó me deu , os princípios e a impatia com o próximo isso ninguém nunca vai conseguir ferir .