No sábado, eu acordei antes mesmo do Thales chorar.
Na verdade, acho que nem dormi direito. Passei a noite virando de um lado para o outro no colchão, com meu filho enfiado no meu braço, respirando tranquilo, como se o mundo fosse um lugar bom. E talvez, para ele, ainda fosse. Talvez esse fosse o meu papel: fazer com que, pelo menos para ele, o mundo demorasse um pouco mais para mostrar as garras.
Fiquei olhando para o teto por alguns minutos, sentindo o coração bater de um jeito esquisito. Não era só nervoso. Era vergonha, medo, culpa, desespero e necessidade, tudo misturado dentro do peito como se alguém tivesse enfiado a mão ali e bagunçado tudo.
Cinco mil reais.
Eu repetia esse valor na cabeça como se fosse uma oração. Cinco mil reais pagavam dívida, compravam fralda, leite, remédio, comida. Cinco mil reais me colocavam mais perto de sair daquela casa, daquele morro, daquela vida onde eu precisava agradecer até migalha, mesmo quando a migalha vinha suja.
Mas cinco mil reais também significavam entrar num presídio para encontrar o Max.
O Urso.
Eu ainda não conseguia juntar as duas pessoas na mesma imagem. Na minha cabeça, Max era o menino mais velho que eu, com olhar sério demais para a idade, que aparecia no beco de moto e fazia meu coração bater errado. O menino que segurou minha mão uma vez como se ela fosse uma coisa importante. O menino que me chamava de "pretinha" baixinho e me fazia sentir bonita quando eu nem sabia direito o que era ser desejada.
Urso era outra coisa.
Urso era o homem que virou dono do morro, que mandava e desmandava, que tinha nome sussurrado com medo e respeito. O homem que, segundo o povo, não perdoava traição, não aceitava desobediência e não gostava de ser contrariado.
E eu estava indo encontrar esse homem numa visita íntima.
Fechei os olhos com força e respirei fundo.
— Meu Deus, me perdoa — sussurrei, quase sem voz.
Thales se mexeu no meu braço, resmungando baixinho, e aquilo foi suficiente para eu abrir os olhos de novo. Ele estava ali. Pequeno, quente, vivo. Minha razão e minha sentença. Meu começo de novo.
Levantei com cuidado para não acordar ele e fui até a bacia no canto do quarto lavar o rosto. A água estava fria, mas não o bastante para tirar aquela sensação grudada em mim. Parecia que eu estava suja antes mesmo de fazer qualquer coisa.
Minha vó já estava acordada quando saí do quarto. Ela mexia no fogão com o corpo curvado, o cabelo branco preso num coque frouxo, e a panela de café soltava um cheiro forte pela cozinha.
— Já vai sair cedo assim? — ela perguntou, sem me olhar de primeira.
Parei na entrada da cozinha, ajeitando a blusa no corpo.
— Vou. A Lays disse que é melhor ir cedo por causa da burocracia.
Minha vó virou o rosto devagar, me olhando por alguns segundos. E eu odiei aquilo. Odiei porque parecia que ela enxergava mais do que eu queria mostrar.
— Esse trabalho é direito mesmo, Thayna?
Minha garganta fechou.
Eu poderia mentir bonito. Poderia dizer que sim, que era uma entrevista, que era uma faxina, que era qualquer coisa. Mas minha vó já tinha vivido demais para acreditar em qualquer história m*l costurada.
— É uma oportunidade, vó — respondi, pegando a xícara que ela me ofereceu. — Eu preciso desse dinheiro.
Ela ficou em silêncio. Só isso. E às vezes o silêncio pesa mais que uma bronca.
— Cuidado com as oportunidades que parecem grandes demais, minha filha. Às vezes elas cobram caro depois.
Abaixei os olhos para o café escuro dentro da xícara.
— Eu sei.
— Sabe mesmo?
Não respondi.
Porque a verdade era que eu não sabia. Eu só sabia que estava cansada de não ter escolha. Cansada de olhar para o meu filho e calcular fralda por fralda, gota por gota, moeda por moeda. Cansada de ouvir meu pai gritando pela casa, de sentir medo dele vender alguma coisa minha, de pensar que um dia ele podia encostar no Thales como já tinha encostado em todo o resto que não prestava para ele.
Bebi o café queimando a língua e deixei a xícara na pia.
— O Thales mamou de madrugada. Se ele acordar, a mamadeira já tá pronta. Tem fralda limpa na bolsa dele e a pomada tá em cima da cômoda.
— Eu sei cuidar de criança, Thayna.
— Eu sei, vó. É que...
— É que você é mãe — ela completou, mais doce. — Mãe sai de casa leva o corpo, mas a cabeça fica.
Engoli seco.
— Cuida dele pra mim.
— Cuido.
Voltei para o quarto e encontrei meu filho acordando, abrindo os olhinhos devagar. Ele fez aquele biquinho antes de chorar, e eu me apressei para pegar ele no colo. O corpinho dele se encaixou no meu peito como se tivesse sido feito para morar ali.
— Mamãe já volta, tá? — falei baixinho, beijando a testa dele. — Você vai ficar com a bisa, meu amor. Comporta, hein? Nada de dar trabalho.
Ele me olhou sem entender nada, mexendo a boquinha. Aquilo acabou comigo.
Porque eu sabia que, se ele entendesse, talvez eu não tivesse coragem de ir.
Troquei ele, dei de mamar, embalei até ele ficar molinho de sono de novo. Depois deixei ele nos braços da minha vó e fui me arrumar.
A Lays tinha me explicado tudo. Roupa simples, mas bonita. Nada muito vulgar, porque não podia no presídio. Perfume pouco, cabelo arrumado, unha limpa, documento na mão e cabeça baixa quando precisasse. Ela falava como se estivesse me preparando para uma entrevista, não para entrar num presídio e encontrar um homem que eu nem sabia mais quem era.
Coloquei uma calça jeans que ainda servia apertada na cintura, uma blusa preta justa o bastante para valorizar, mas não o bastante para parecer desespero. Prendi metade do cabelo e deixei o resto cair nas costas. Passei um gloss na boca, olhei no espelho rachado e quase não me reconheci.
Não porque eu estivesse bonita.
Mas porque eu parecia calma.
E eu não estava.
Quando saí, meu pai estava jogado no sofá, com os olhos vermelhos e a mesma cara de nojo de sempre. Ele me olhou dos pés à cabeça, rindo pelo nariz.
— Vai pra onde toda arrumadinha assim? Arrumar macho?
Senti minha mão fechar na alça da bolsa.
— Vou trabalhar.
— Trabalho agora chama assim?
Minha vó apareceu na porta da cozinha antes que eu respondesse.
— Deixa a menina em paz.
Ele riu mais alto, mas eu não fiquei para ouvir. Beijei a cabeça da minha vó, beijei meu filho uma última vez e saí antes que minha coragem acabasse na porta.