5. Thayna

891 Words
O morro parecia diferente naquele sábado. Ou talvez fosse eu que estivesse diferente. As pessoas passavam, falavam, riam, carregavam sacolas, gritavam com criança, colocavam música alta. A vida continuava normal, como se eu não estivesse descendo com o estômago embrulhado e uma decisão pesada demais dentro da bolsa. Lays me esperava perto da rua principal, encostada num muro, mexendo no celular. Quando me viu, guardou o aparelho e abriu os braços. — Amiga... — Não começa — falei, porque só pelo jeito dela eu já sabia que vinha pena. — Eu não ia falar nada. — Ia sim. Ela suspirou e ajeitou uma mecha do meu cabelo sem pedir licença. — Tu tá linda. — Não quero estar linda. — Mas tá. E isso é bom. — Pra quem? Lays não respondeu de primeira. Só me olhou com aquela cara de quem queria brincar, mas sabia que a brincadeira podia me quebrar. — Pra você sair de lá com seus cinco mil e a cabeça erguida. Soltei uma risada sem humor. — Cabeça erguida numa íntima de presídio é meio difícil, né? — Thayna... — Tô falando sério. — Eu sei. Mas tu não tá indo porque é fraca. Tu tá indo porque é mãe. A frase me atingiu de um jeito estranho. Talvez porque fosse a única coisa que fazia sentido no meio daquela loucura toda. Magrin chegou pouco depois, dirigindo um carro preto com o som baixo e o braço para fora da janela. Ele buzinou uma vez, e Lays abriu a porta de trás para mim. — Bora, cunhada de consideração — ele falou, tentando fazer graça. — Não me chama assim. Ele levantou uma das mãos. — Foi m*l. Nervosa? — Não. Morrendo de felicidade. Lays entrou na frente e olhou feio para ele. — Fica quieto, Lucas. O caminho até o presídio pareceu maior do que realmente era. Eu fui no banco de trás, olhando pela janela, vendo o Rio passar como se eu não fizesse parte dele. O sol batia forte nos vidros, deixando o carro abafado, e o perfume doce da Lays se misturava com o cheiro de cigarro velho preso no banco. Magrin falava algumas coisas, explicava documentos, horário, procedimento, mas metade entrava por um ouvido e saía pelo outro. Eu só conseguia pensar no portão. Na revista. Nos olhos das pessoas. Em Max me vendo. Será que ele sabia que era eu? Essa pergunta começou a me corroer no meio do caminho. Senti vontade de mandar parar o carro. Senti vontade de descer, correr, voltar para casa, pegar meu filho no colo e fingir que eu nunca tinha aceitado nada. Mas a palavra "cinco mil" voltou como um tapa. Olhei para as minhas mãos no colo. Elas tremiam. Quando chegamos, o presídio apareceu cinza e enorme, cercado de muros altos, arame e homens armados. O lugar parecia engolir o céu. Do lado de fora, havia mulheres esperando, algumas com sacolas, outras com criança no colo, outras arrumadas demais para aquele ambiente triste. Eu desci do carro sentindo as pernas meio bambas. — Respira — Lays falou, segurando meu braço. — Tô respirando. — Tá nada. Tu tá branca. — Eu sou preta, Lays. — Tu entendeu. Magrin se aproximou com uns papéis na mão. — Tá tudo certo com teu nome. Só segue o procedimento, não arruma confusão, responde o que perguntarem e pronto. — E depois? — Depois tu entra. "Depois tu entra." Como se fosse simples. Como se ali dentro não tivesse um pedaço do meu passado me esperando. A fila andou devagar. Devagar demais. Cada passo parecia tirar um pouco do ar do meu peito. Eu via as mulheres ao meu redor conversando como se aquilo fosse normal, como se visitar homem preso fosse só mais uma obrigação de fim de semana. Algumas riam, outras reclamavam do calor, outras ajeitavam a roupa. Eu não conseguia falar. Na hora da revista, eu desliguei um pouco por dentro. Fiz o que mandaram. Levantei braço, tirei sandália, respondi pergunta, mostrei documento. Senti vergonha, raiva, vontade de chorar, mas segurei tudo no mesmo lugar onde eu guardava as coisas que não podia sentir. Quando finalmente me liberaram, uma funcionária apontou o caminho, e eu segui. O corredor parecia comprido demais. O barulho das portas, das vozes, das chaves, tudo batia na minha cabeça. Meu corpo queria voltar, mas meus pés continuavam indo. Até que me mandaram esperar diante de uma porta. Meu estômago afundou. Eu escutei passos do outro lado. Uma chave girou e quando a porta abriu, eu vi Max. Ou melhor, vi o Urso. Ele estava mais largo, mais forte, mais duro. O cabelo baixo, a barba feita de qualquer jeito, os braços marcados, o olhar pesado. Não tinha mais quase nada do menino que eu conheci aos quinze anos. Mas os olhos eram os mesmos. E foi isso que me destruiu. Porque, por um segundo, antes da boca dele abrir, antes de qualquer palavra sair, eu vi que ele também me reconheceu inteira. Não como a mulher que estava ali por dinheiro. Não como a mãe solo desesperada. Não como a menina que foi embora. Ele me olhou como se eu ainda fosse Thayna. A Thayna dele. — Pretinha — ele falou, baixo. Meu peito apertou. Eu respirei fundo, segurei a alça da bolsa com força e entrei. — Max.
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