A biblioteca passou a ser um lugar incrível depois que aprendi a ler com 10 anos. A antiga cozinheira que me ensinou por dó. As crianças começam a aprender a ler e escrever com 4 anos, eu estava muito atrasada, mas aprendi rápido.
Ouço passos no corredor vindo em direção à biblioteca. Levanto-me do sofá e olho pela janela. Em breve será dia.
Alguém abre a porta da biblioteca, é Louis.
Ele me olha e se vira de costas.
— O que foi?
— Trajes íntimos.
Íntimos? Olho para o meu vestido branco, ele não tem volume algum, o tecido é fino, mas não é transparente. Não mostra nada de mais.
— Eu durmo com ele, mas não é íntimo. Só é simples.
— O formato do seu b***o.
Busto? Suponho que ele não quis dizer b***o. Mas qual o problema nisso? A minha cintura deve ser vista nos vestidos, mas meus p****s não podem por quê?
— Acho isso frescura. Vire-se e olhe para os meus olhos.
Ele se vira. Encara-me.
— Não está cedo demais para estar acordada?
— Eu acordo sempre cedo demais e venho para cá. — Assopro a vela na mesa. A luz já entra pela janela. — Veio ler algo específico? — Fecho o livro em cima da mesa, pego-o e o coloco na prateleira.
— Pensei que no seu reino pudesse ter um livro de medicina ou biologia que nunca li antes.
— Humana ou animal? — Abaixo-me e olho para os livros brancos.
— Humana.
Pego um livro branco e olho o autor na capa.
— Já leu o do senhor Osório Santos?
— Não. — Ele se aproxima de mim, levanto e dou o livro.
— Vou para o meu quarto me trocar, com licença. — Passo por ele.
— Espere! — Ele para na minha frente. — Quero pedir que hoje a vossa alteza jante comigo para podermos nos conhecer melhor. Se não quiser, não há problema.
— Vamos jantar hoje. — Passo novamente por ele e saio da biblioteca.
Louis se interessa por biologia. Seria bom se ele quisesse ser médico. Um rei não pode ser médico e um médico não pode ser rei. Governar ou cuidar dos enfermos? Se ele escolhesse a medicina, eu poderia cuidar do seu reino. Seria perfeito...
Após me arrumar, fui tomar café da manhã com todos.
— Bom dia, altezas. — Sorrio e eles se levantam. — Desculpe a demora. — Bom dia, papai.
Sento-me e eles voltam a se sentar. Esperamos o meu pai começar a comer e então também começamos.
Pego um pedaço de bolo.
— Princesa, se importa de responder uma pergunta? — O príncipe Elenek me olha enquanto come o seu pão. — Anteontem e ontem ficou com o príncipe Victor. Com quem jantará hoje? Também passará dois dias com esse príncipe?
— Não sei. Só saí ontem com Victor por eu ter sido... rude. Hoje jantarei com Louis.
O príncipe Rafael levanta a mão.
— Podemos nos encontrar amanhã? Tenho algo para a alteza. — Suas covinhas aparecem. É uma graça, pena que não posso escolhê-lo pelas covinhas.
— O que é?
— Mostrarei amanhã.
— Certo. — Olho para o meu pai. — Parece que não vamos poder passar muito tempo juntos, papai.
— Você tem as suas obrigações a cumprir, minha flor. — Ele suspira. — Ah, as crianças crescem tão rápido. Já é uma mulher e em breve se casará.
— Não se preocupe, serei sempre a sua menina. — Toco o meu coração e lacrimejo. Não de emoção, estou apenas me esforçando para não rir...
À noite, Eliza montou uma mesa de jantar no jardim. A Lua está cheia e o céu estrelado. A maioria das flores noturnas são brancas, adoram a Lua.
— A noite é linda daqui. — Ouço a voz do príncipe Louis. Viro-me e o vejo com um buquê com flores que nunca vi antes. A sua cor é azul, mas há manchas de cor branca. — Será ser mais bonita que essa flor? São petúnias. A cor e as manchas fazem parecer um céu estrelado.
— É muito linda. — Pego o buquê e cheiro a flor. — Onde encontrou?
— Mandei que trouxessem do meu reino.
— Não é muito longe?
— Um dia e meio de viagem. Sabia que iria gostar, então pedi que a sua jardineira, Tesla, plantasse dela.
— Obrigada. — Coloco o buquê em cima da mesa. Nos encaramos por um tempo. — O senhor gosta de medicina?
— Acho interessante. O corpo humano é extremamente interessante. O dos animais também, mas eu tenho uma apresso pela anatomia humana.
— Se pudesse, tornar-se-ia médico? — Sento-me de um lado da mesa e ele se senta do outro.
— Não, o meu dever é ser rei.
Mordo a parte interna da minha boca. Preciso atiçar a imaginação dele para dizer o que eu quero ouvir.
— Imagine esta situação: o senhor pode escolher entre ser da realeza e governar ou se tornar um médico renomado. Qual escolheria? — Cruzo as pernas e coloco o meu cabelo atrás da orelha. Ele fica calado. Só atiça a minha curiosidade.
— Governar, obviamente.
Ah, que lástima!
— Por quê?
— Interesso-me muito por biologia, mas não tenho interesse de ter uma profissão relacionada. Quero ser rei e governar Trindade.
— Entendi. — Sorri e contenho um suspiro de decepção.
— Eleanor — diz em um tom de voz mais alto.
— Sim? — Estreito os olhos.
— Os seus olhos estão melhores hoje.
— Como é? — Estreito os olhos.
— Ontem, a alteza havia tentado esconder com maquiagem, mas percebi suas olheiras. Já está sumindo. Espero que o seu pai não faça mais aquilo com uma mulher tão doce e sincera.
O meu coração começa a bater forte. Ajeito-me na cadeira e ergo a cabeça. Pode ser apenas um jogo para arrancar de mim a verdade ou ele realmente sabe o que houve.
— Não entendi. Seja claro, por favor.
— Espero que o seu pai não te tranque mais na prisão. Victor tratou m*l o seu empregado e a princesa agiu de forma certa ao expulsá-lo. Aquele homem é grosseiro e consigo ver no seu olhar que não é um príncipe de respeito. — Ele está tão sério que consigo sentir um certo ódio ao falar de Victor. O que ele enxerga nos olhos de Victor será o mesmo que eu enxergo? — Aquele castigo foi terrível. Eu já vi a cela do castelo. É imunda, cheira m*l e abrigou pessoas asquerosas. A princesa nunca deveria nem ter ouvido falar daquele lugar.
Lembro do cheiro nojento, daqueles insetos imundos caminhando por cima de mim... Coloco a mão na boca. De repente, eu lembrei de uma forma tão horrenda... Corro para dentro da cabana de ferramentas de jardinagem, ajoelho-me no chão e vomito num balde.
Pelo menos eu fui forte ao aguentar ficar naquele local. Eu ainda vou ser mais forte, nada vai me abater.
Bato no chão com as mãos fechadas.
Louis não é burro. É gentil, formal, mas também astuto e acredito que não deixa nada passar. Talvez soubesse desde o começo a minha verdadeira relação com o rei.
— Minha princesa! — Eliza me levanta e passa a mão pelo meu cabelo. — O príncipe do reino Trindade me chamou para não constranger vossa alteza ao vê-la nesse estado. Vamos, eu vou cuidar de você...
Respiro fundo ao me jogar na cama macia. Lavei minha boca com tanta força que sinto gosto de sangue. Abraço o cobertor peludo e fecho os olhos.
Preciso ficar esperta com Louis. A sua sinceridade me diz que ele quer algo a mais. Louis é um estrategista, está jogando. É inteligente demais. Isso até que me deixa empolgada, intrigada.
Dou um sorriso fechado.
— Boa noite, princesa. Já está nos seus trajes de dormir — Louis diz.
Sento-me na cama rapidamente.
— Não faça isso de novo! — Coloco a mão no peito. Meu coração quase subiu para a garganta.
— Sinto muito. Eu não queria assustá-la. Posso? — Ele aponta para a cama.
— Sente-se. — Cruzo as pernas. Ele se senta de lado na cama. — O que deseja para vir escondido ao meu quarto?
— Saber como está.
— Pode até ser um dos motivos, mas não o principal.
— Tem razão. — Ele me encara por alguns segundos. — Tem um sonho?
Sonho? Eu nunca tive sonhos.
Uma angústia invade o meu peito.
Por que eu tinha que ser assim? Eu deveria ter algo dentro de mim, um desejo que fizesse o meu coração palpitar de emoção como acontece com todos.
— Saia do meu quarto, por favor — sussurro e me viro de costas.
— Claro. Só saiba que se me escolher nunca sofrerá e eu realizarei todos os seus sonhos.
Pelo menos eu sei que ele não é um adivinhador, do contrário estaria frustrado com o seu plano, pois não irá dar certo.