Sonho é o anseio. Não posso dizer que anseio estar longe do meu pai, só queria que ele me deixasse viver em paz. Igual quando eu era bem pequena. Quero liberdade só para viver sem responsabilidades, voltar a fazer coisas que não me levarão a nada. Nunca tive sonhos ou desejos. O meu coração e a minha mente são vazios, opacos. Li tanto, aprendi tanto, mas nada nunca me prendeu.
Lembro do rosto de Eliza sorrindo ao dizer que o seu sonho se realizou e conseguiu reformar a casa da sua mãe. Lembro de Ciro, o cozinheiro, ele dançou ao dizer que conseguiu realizar o seu sonho de ter uma taverna, ele me agradeceu por tudo e se demitiu com um belo sorriso. Raul, o guarda, disse ter o desejo de ter filhos e ficou feliz ao casar-se com uma mulher que também quer ter muitos filhos. Posso citar várias outras pessoas com sonhos que a deixam extremamente contentes.
Sonhos e desejos são para a felicidade. Eu não anseio nada. Só quero fazer o que eu sempre faço e mandar os príncipes caçarem outra carniça, no caso, outra princesa para disputar.
Ajeito a tiara de ouro no meu cabelo. Olho-me no espelho, o vestido dourado é o que Eliza mais acha bonito. Acho que eu vou mandar fazer um para ela, ela ficaria linda usando vestidos caros. Disse que se ficasse bonita o suficiente poderia arrumar um homem rico para casar, esse é mais um dos sonhos dela. Saio do meu quarto já arrumada para o café da manhã. Vejo Louis com o livro de Osório na mão. Respiro fundo e sorrio.
— Bom dia, senhor Louis. Está gostando do livro?
— Bom dia, alteza. O senhor Santos fez experimentos interessantes e explica os procedimentos de uma forma fácil de entender. É como um diário do que ele viveu como médico. Estou a gostar e espero ter tempo para lê-lo por completo. Acompanhe-me até a biblioteca?
— Sim.
Começamos a andar. O chão é minha visão e ouço apenas os nossos passos até que ele para de andar. Paro também.
— Peço humildemente que me perdoe caso tenha a ofendido ontem quando fui ao seu quarto e quando falei sobre algo pessoal que não desrespeita a mim.
— Está perdoado — digo ainda olhando para o chão. Voltamos a andar.
Louis tem o meu perdão, mas não me sinto muito bem desde ontem. Ele falou sobre a cela, eu vomitei. Falou sobre sonhos, sinto-me inconsistente, nem sei bem se é essa a palavra. As suas palavras são como estacas no meu corpo, eu sou frágil demais ou ele é forte demais.
Chegamos à biblioteca. Ele guardou o livro. Agora caminhamos até a sala de refeição.
— Não quer tomar café da manhã comigo? Apenas nós dois?
— Não posso, não no momento, mas talvez outra hora. Acho que pretendo tomar com Rafael.
— Ouvi o meu nome? — Rafael vem até nós sorrindo. — Bom dia. O céu está maravilhoso hoje.
— Vou deixá-los a sós. — Louis pega a minha mão, a beija e entra na sala de refeição.
— O que foi, princesa?
— Podemos ter apenas a companhia um do outro?
— Será uma honra. Estava ansioso para conhecer vossa alteza melhor. Já disse que os seus olhos são lindos?
— Não e obrigada. Vou preparar as coisas...
Preparei uma cesta com várias opções de café da manhã para nós e fomos para fora do castelo, no campo das lavandas. Estão floridas, são lindas e o céu azul com algumas nuvens deixam a vista ainda mais bonita.
Estendo o pano no chão e deito nele. O príncipe deita ao meu lado.
— É muito legal não ver tudo vermelho. — Ele suspira.
— Não é tudo literalmente vermelho, ou é?
— Não, mas o vermelho está em toda parte. As cores mais predominantes são o vermelho e o verde.
— O seu reino é único. Espero que esteja gostando de Eleanora.
— É um reino maravilhoso.
Viramos os nossos rostos e nos encaramos.
Será que ele possui um sonho? Há alguém além de mim que não tem sonhos? O que acontece quando o sonho é realizado? Tem que arrumar outro?
— Princesa... Princesa!
— O quê?
— Estava na Lua. Pode permitir que eu... — Ele tira o meu cabelo de frente do rosto e coloca atrás da minha orelha. — Bem melhor! Gosto de ver o seu rosto.
Fecho os olhos. Nunca me senti tão m*l com algo tão b***a.
— O senhor tem sonhos? — Abro os olhos.
— Vários, eu sou um sonhador. Posso dizer com toda a certeza que um deles é me casar.
— Casar? — Sorrio. — Só pode estar mentindo. Está puxando saco.
— Eu quero mesmo me casar. Quero ter alguém para compartilhar os meus sonhos. Não quer isso?
Sento-me e abaixo a cabeça.
— No momento, eu quero comer. — Coloco a cesta entre nós e pego um pão.
Ele também pega. Comemos juntos e depois passeamos pelo campo. Por mais que eu tenha tentado ser agradável, não sei se consegui. Não estou nas minhas melhores condições, psicologicamente falando...
Anoiteceu e tivemos um jantar agradável, mas metade do que ele falava eu não escutava. Sinto-me até m*l por tratá-lo dessa forma. Ele não merecia.
Eu sou uma tapada. Não preciso de sonhos para viver, mas bem que eu queria. Gostaria de ter pelo menos um sonho que pudesse me trazer felicidade.
— Sinto muito por hoje. — Abaixo a cabeça e coloco a mão na maçaneta da porta do meu quarto. — Eu não fui uma companhia boa.
— Será? — Ele dá um riso. — Eleanor, ninguém é obrigado a estar bem todos os dias. Você não estava e mesmo assim se esforçou para passar o dia ao meu lado. Agora posso dar o seu presente?
— Ah! Havia esquecido. O que é? — Tiro a mão da maçaneta.
Ele tira do bolso um lindo colocar de diamantes pretos. É maravilhoso.
Ele coloca no meu pescoço. Ajeito o meu cabelo e sorrio.
— Eu adorei.
— Que bom! — Ele me abraça.
O meu coração quase sai pela boca. Fico paralisada. Nunca havia sido abraçada por um homem.
— Isso não é errado? — pergunto enquanto sinto o seu cheiro. O seu pescoço cheira à hortelã. É muito bom. — Não que eu ache errado, mas quando nos conhecemos vocês nem podiam olhar diretamente para mim. Nem mesmo falar.
— Minha mãe me disse que se eu pudesse fazer algo para tornar o dia de uma mulher mais belo, eu deveria fazer, pois, é assim que um cavaleiro age. Eu senti que você precisava de um abraço.
— É — sussurro. Escondo o meu rosto no seu ombro e começo a chorar.
Peço desculpas a mim por estar chorando, mas nem sempre dá para ser forte.
Eu nunca me importei com etiqueta, religião e os conceitos da sociedade, mas sonhar é algo tão comum e bonito. A Eliza me disse que a satisfação de ter conseguido reformar a casa da sua mãe foi indescritível.
É egoísmo eu ter inveja de alguém que tem uma vida humilde e é empregada doméstica? É sempre tão sorridente e a sua energia me contagia. O cuidado que tem comigo é genuíno. Sei que se importa de verdade e isso me deixa confortável. Ela é doce.
— Obrigada. — Afasto-me dele e limpo o meu rosto. Respiro fundo para controlar as minhas lágrimas. Olho para o lado. — Pode não contar para ninguém que eu não estou bem? Não gosto de demonstrar fraqueza.
— Não contarei.
— Vou me deitar. — Toco na maçaneta.
— Boa noite. Quando quiser conversar, pode me chamar. Ouço-te com o maior prazer.
— Boa noite, príncipe. — Abro a porta, entro e a fecho enquanto olho para ele.
Passo a mão por meu cabelo e inspiro profundamente. Após tirar a minha roupa, jogo-me na cama e me cubro completamente com o cobertor. Passo a mão pelo colar no meu pescoço.
Rafael foi muito atencioso. Tão atencioso que acredito que possa estar fingindo, mas tenho dúvida, porque ele foi muito natural o tempo inteiro e fez coisas informais correndo o risco de eu xingá-lo. O seu abraço me fez bem e eu gosto do seu jeito, mas isso não é o bastante para eu escolhê-lo. Preciso estudá-lo melhor, assim como preciso fazer com os outros príncipes e saber qual deles é a melhor opção para eu poder subir na hierarquia da sociedade e ser aceita para governar sozinha um dos reinos.
Se eu tentar dividir essa responsabilidade com o meu marido serei apagada, porque a sociedade não permite que mulheres tenham poder. Não entendo o motivo, mas eu não vou fazer o que eles querem. Eu serei uma rainha melhor que qualquer rei que já existiu e ninguém pisará nunca mais em mim.