Como todos os dias, acordei de madrugada. Vesti uma camisola e, antes de ir para a biblioteca, fui para a cozinha. Peguei um pouco de frutas e coloquei numa cesta.
— Irá alimentar um batalhão? — Eliza entra na cozinha e cruza os braços. Está de camisola, mas o seu rosto não está inchado. Suponho que não dormiu. — Princesa, se comer tanto assim irá engordar e a sua cintura irá sumir.
— Impossível! Cintura todos tem, só irá ser coberta por gordura. — Pego uma maça na cesta e a mordo.
— Que desperdício! — Ela coloca a mão no rosto.
— Eu vou comer tudo — digo com a boca cheia.
— Estou falando da sua situação social. Poderia ser reconhecida, ser um exemplo para as mulheres do reino e até do continente, mas a princesa não tem modos! — Ela bufa. — Deveria ser uma princesa honrosa. Na verdade, a senhorita tem honra e é inocente como uma criança, mas é tão m*l-educada.
— Lamente sozinha, eu que não vou deixar de comer a minha manga para virar um palitinho de dente. — Empino o nariz e saio da cozinha com a minha cesta...
Na biblioteca, procuro por um livro sobre frutas. Vejo o livro do senhor Osório no fim da prateleira. Pensando bem, por que Louis colocou o livro de volta na prateleira se ainda está lendo? Isso não faz sentido.
Alguém abre a porta. É Eliza. Nem ouvi os passos dos seus pés.
— O que foi?
— Não terminei de xingar vossa alteza! — Ela se senta no sofá e cruza as pernas. — A senhora é uma moça tinhosa e petulante. Uma princesa não sobe em árvores para colher mangas, não pega carne com as mãos, não ronca... E o pior: todas as mulheres usam roupa íntima, mas a senhora não. Isso é ultrajante!
— Espartilho, sutiã, calção... Não vejo necessidade. Já terminou? — Suspiro e volto a procurar pelo livro.
— E se um homem levantar o seu vestido?
— Por que um homem faria isso? — Não dou muita atenção para ela e continuo a procurar o livro. Espero que a sua raiva passe logo, eu quero ler em paz.
— É... Não importa o motivo! Só sei que a senhora precisa usar roupas íntimas. Principalmente com os príncipes aqui.
— Pare com isso, Eliza. — Desisto do livro e sento ao seu lado. — Não vou ser a princesa que você quer que eu seja.
— Por quê? — Ela começa a chorar.
— Eliza, você está louca. O que foi?
— Estou naqueles dias.
— Que lástima! Sinto muito. — A abraço. — Após me casar vou fazer você se casar com um homem rico. Não sei se dará para casar você com um dos príncipes, pois o interesse deles é o dinheiro. Mas talvez eu ainda possa te apresentar a alguém da realeza. Quando eu me casar, tornar-te-ei a minha dama de companhia. Vestirá lindos vestidos e será admirada por todos.
— Se fosse permitido eu gostaria de casar com o seu pai.
— Que horror! — Levanto-me.
— Diga-me, o seu pai não quer casar de novo? Todos os homens sonham em ter filhos meninos. — Ela sorri de lado e passa a mão pelo cabelo.
— Não e fique longe dele!
Nem sei o que ele faria se percebesse o interesse de Eliza por ele. O meu pai não quer casar. Eleanora foi a única mulher da vida dele e mudou o nome do reino para que todos lembrassem da rainha.
Sonho de ter filhos homens? Se possuía esse sonho, não possui mais, visto que, a sua esposa morreu. Mas, será que ele ainda tem algum sonho? Não somos próximos, então não sei. Nem sei se ele é feliz ou não.
Vejo Louis entrar na biblioteca. Ele se vira de costas. Eliza se assusta e cobre os seus p****s.
— Perdão. Eu não deveria ter...
— Feche os olhos! Fechou?
— Sim. — Ele se vira mostrando os olhos fechados.
Eliza sai correndo da biblioteca.
— Pode abrir agora. Eliza já se foi.
Ele abre os olhos e me olha de cima a baixo com um olhar sério.
— Não sente vergonha alguma?
— Eu estou vestida. — Volto a procurar o livro.
Louis se aproxima de mim, encara-me e se abaixa pegando o livro de Osório.
— Se ainda não terminou de ler, por que devolve à biblioteca?
Ele se levanta e dá um leve sorriso.
— Não gosto de deixar os livros fora do lugar após ler. O lugar dele não é no meu quarto. O que procura?
— Quero um livro que fale sobre frutas.
— Agricultura?
— Exato.
— Quando nos encontraremos novamente?
— Depois que eu conhecer o restante dos príncipes. Seja paciente. — Sorrio. — Ainda teremos tempo.
— Como desejar. Eu vou para o meu quarto. Até mais. — Ele sai da biblioteca.
Não sei se quero vê-lo tão cedo. Não tem culpa de nada, mas sua presença me traz vergonha de não ter um sonho.
Eu poderia conversar com Rafael sobre, pedir a sua opinião, mas... Não quero contar sobre os meus sentimentos. Poderá acabar querendo se aprofundar no assunto, saber mais sobre a minha vida, acabaria por saber dos meus medos, receios e da minha linda relação com o meu pai.
Tem alguém que eu tenho um certo interesse em saber como pensa, pois, apesar das nossas diferenças, ele não parece ter sonhos ou desejos. Apesar de ter receio, eu quero perguntar...
Abro a porta do quarto do meu pai. Ele está roncando. Aproximo-me e me ajoelho na sua frente. Sinto o seu bafo e me levanto.
— Pai! — Cutuco o seu braço várias vezes. — Pai!
Já que é assim... Subo em cima da cama e começo a pular. Ele acorda assustado e caí no chão. Paro de pular e saio da cama.
— Bom dia, meu querido progenitor. Dormiu bem?
— Eu deveria te matar... — Ele se levanta e boceja. — O que quer?
— Você tem um sonho? Ou sonhos?
— Sonhos, ambições... — Ele senta na cama e revira os olhos. — Que triste pergunta. Sabe que quando você casar poderá acabar sendo rainha de Eleanora antes de ser rainha do outro reino. O seu marido irá governar, mas eu ainda odeio a possibilidade de você ser rainha de Eleanora. O meu sonho é que você engravide, abdique o direito ao trono e deixe o seu primogênito reinar. Seria bom se o seu marido concordasse em fazer isso. Se acaso engravidar antes de ser rainha, será uma alegria ver o meu neto ser rei e a mãe dele nunca ter colocado a coroa que era da mãe.
— Quer que eu abdique e faça o meu marido também abdicar? — Sorrio mesmo com tristeza. — É incrível como me odeia sem eu ter feito nada para você. A verdade é que a culpa de tudo de r**m que acontece na minha vida é sua e você agora vem dizer que quer que eu não me torne rainha? — Dou um riso de desgosto. — Eu não tenho sonhos, não sou feliz, nem tenho motivos para existir. A minha vida não tem sentido e a culpa é sua! — Seguro-me para não chorar de ódio.
— É mesmo? — Ele boceja novamente e cruza os braços.
O que eu estou a fazer? Não faz sentido eu falar essas coisas se não o afetam. Agir assim é inútil.
Respiro fundo.
— Esqueça tudo que eu disse. Perdoe-me pela inconveniência. Vossa majestade pode voltar a dormir. — Saio do quarto dele e fecho a porta.
Ando para o meu aposento. Eu sinto vergonha de mim. Tive sorte dele não ter se irritado.
Entro no meu quarto e olho os meus vestidos. Qual usar hoje? Amarelo, cinza ou beje?
— Um branco em nome ao crescimento que eu vou ter. Talvez um preto em respeito a queda que o meu pai terá. — Olho-me no espelho e sorrio de lado.
Nunca, nunca senti tanta força emanar de mim. Vem do coração e me deixa eufórica. Nunca senti tanto desejo por poder. Eu quero a coroa de Eleanora e eu vou tê-la.
Papai me deu esperança, um sonho, um anseio terrível que pode me trazer consequências drásticas, mas que se eu conseguir ser rainha minha vida nunca mais será a mesma. Uma rainha só quer o melhor para o seu povo. Vou ter sempre objetivos, vou melhorar o reino. Terei um reinado glorioso, o meu nome será ouvido por séculos e farão livros grossos sobre a minha trajetória.
— Doravante... — Vou para a janela e vejo o alvorecer. — Eu tenho um sonho. Vou ganhar a confiança do povo, tirar aquele homem do trono e ser rainha. Vou estudar muito e o reino crescerá, será mais poderoso e mais rico. Aproveite o seu reinado, meu pai, porque em breve a sua filha o arrancará de você.