17-Cada detalhe

1402 Words
Kan Ruslan Eu realmente acredito que, com o tempo, vou conseguir amansar Lunara Tokatli. Dizem que ela é feita de pedra, que herdou a frieza do pai, que nasceu e vivei avostumada com certa frieza, mas eu vejo através disso. A couraça dela não é arrogância… é sobrevivência. É a única Tokatli restante, ainda por cima é uma mulher, criada em um mundo que foi construído por homens, para homens, e ela está rodeada de lobos que farejam fraqueza como sangue. Eu não a culpo pela rigidez. Eu admiro. E por isso eu sei que vou vencê-la. Com cautela. Com paciência. Com o jeito certo. Não preciso quebrar a armadura dela, só aprender onde estão as dobradiças. Passei os últimos dias pesquisando a fundo sobre ela. Dossiês, registros, movimentações políticas, até informações que não deveriam estar acessíveis. E a conclusão é tão óbvia quanto previsível: não há qualquer indício de que Lunara Tokatli já tenha sido cortejada por alguém. Nada sobre aproximações masculinas. Nada sobre alianças matrimoniais. Nada sobre uma vida pessoal além da liderança. Ela pertence inteiramente ao cargo que herdou. E isso significa que, quando ela finalmente pertencer a alguém… será a mim. Apenas a mim! Eu cheguei primeiro, mesmo que tenha demorado. Com Lunara ao meu lado, eu posso comandar o Norte sem oposição. Posso elevar o nome Ruslan ao topo da lista dos homens mais fortes da Turquia. Posso transformar a nossa aliança em poder absoluto. Faruk não será mais o único e diferente dele, eu não precisarei fazer uma guerra e derramar sangue. Eu tomo um gole do vinho enquanto observo o salão. A música, as conversas, o brilho das joias, o cheiro de especiarias e mirra flutuando pelo ar. A festa é bonita, mas eu estou aqui por uma única razão: estudar Lunara, entender Lunara… e conquistar Lunara. Meu irmão aparece ao meu lado, com aquele sorriso provocador que ele acha encantador. — O que foi aquilo? — Ele pergunta. — A dança, Kan? Vai dizer que não foi pra chamar atenção? Eu me limito a um sorriso. — Foi algo normal, só isso. É uma festa e... as pessoas dançam. — Normal? — Ele ri alto. — Kan, você chegou há poucos dias na região. Acha mesmo que dançar com a líder mais protegida do Norte não chama atenção? — Quem não é visto, não é lembrado. — Digo, virando o rosto para o salão. Ele dá de ombros, mas sei que concorda. E é então que vejo. Não só vejo, eu sinto. Os olhares que caem sobre ela… como se Lunara fosse um cometa atravessando o salão. Há homens demais olhando, admirando, desejando. Homens que a veneram, que veem nela não só uma líder, mas um troféu político. Ou sexüal. Ou ambos. E todos eles falam a mesma coisa quando acham que ninguém está ouvindo: — Ela precisa se casar. — Uma líder sozinha não permanece sozinha por muito tempo. — Logo será prometida e quem será o sortudo? Esses idiotäs sequer percebem que estão assinando a própria sentença de insignificância. Lunara não será prometida a nenhum deles. Não enquanto eu estiver aqui. Eu continuo analisando quando sinto um olhar queimando nas minhas costas. Me viro devagar. Osman. O olhar dele não tem nada de amistoso. Não é diplomático. Não é casual. É analítico. Afiado. Carregado de algo que claramente ele acha que esconde, mas não esconde. E quando eu olho para Lunara… os olhos dele seguem. A resposta se forma imediatamente. Osman tem interesse nela. Eu quase rio, porque é ridículo. Ele deve ter uns cinquenta anos. No mínimo, mais de quarenta. Lunara tem vinte e um anos. A diferença é grotesca. Desgraçadö! Mas não é sobre romance. Nunca é. É interesse. Poder. Influência. E a ideia de Osman chegando perto dela… me irrita. Sei que ele está perto demais dela, ele mora aqui e de certa forma, tem alguma influência sobre ela. Discretamente, inclino a cabeça para meu irmão. — Preciso que você procure tudo sobre Osman. Todos os arquivos que conseguir e não deixe passar nada. — Falo olhando ao redor, disfarçando. — Osman? — Ele franze o cenho. — Por quê? — Explico depois. Só faça. É uma ordem! — Tá, tá… vou ver o que eu descubro. Eu volto a observar o salão, agora com atenção redobrada. Tudo parece normal, mas minha mente está trabalhando rápido. Sei apenas que Osman foi muito próximo do pai dela antes de sumir por anos. Depois, quando Halit ficou doente, ele reapareceu como se fosse uma sombra ressuscitada. Coincidência? Não existem coincidências nesse mundo. Continuo circulando entre as pessoas, troco algumas palavras que não significam nada, tomo mais um gole de vinho, mas não tiro os olhos dos pontos estratégicos do salão. O conselho todo toma conta da festa e há rituais de tradição local. Mas, quase nem olho para isso. O meu interesse é outro. E é assim que vejo: Osman está perto dela. Perto demais. Ele não sai do lado dela. Lunara conversa, sorri levemente, mas não o suficiente para parecer íntima. Ainda assim, ele permanece lá, como se tivesse algum direito. Eu seguro o copo com mais força do que deveria. Me esforço para manter a paciência. Não posso estragar o que estou construindo. Meu irmão surge novamente, mas agora está sorrindo como um idiotä. Sigo seu olhar e vejo Harika, a amiga de Lunara. Ele observa a moça com um brilho nos olhos. — Já está caidinho pela moça... cuidado! — Murmuro. — Vai se ferrär! — Ele devolve, mas com o sorriso de quem foi pego no flagra. Mas então vejo Lunara levantar-se. Ela olha em volta, discreta, como alguém que precisa se afastar. Há uma tensão na postura dela, algo que não estava ali antes. Ela sai pela lateral do salão. E eu penso rápido. Me misturo às pessoas como se fosse em direção à entrada principal, mas desvio assim que tenho chance. Conheço bem o layout da mansão. Bom, pelo menos nessa parte. Sei quais corredores levam a salas menores, salas usadas por convidados importantes… ou por quem precisa apenas respirar. Eu sigo pela lateral, entre as cortinas pesadas. Silencioso. Invisível. E então vejo: ela entra em uma sala. Espero apenas alguns segundos antes de ir atrás. Abro a porta sem fazer barulho e fecho atrás de mim, trancando-a. E ali está ela. Apoiada na mesa, ambas as mãos firmes sobre o tampo, o corpo inclinado, a respiração rápida. Pálida. Muito pálida. — Lunara. — Decido falar. — Você está bem? Ela vira imediatamente, com um susto tão real que seus olhos brilham. — O que você está fazendo aqui? — Ela dispara. Eu dou alguns passos adiante. — Notei algo estranho... e... — Saia!!! — Você está pálida. — Respondo, aproximando-me mais. — E sua respiração não está normal. Ela tenta erguer o corpo, mas apoia-se de novo, como se o peso do próprio nome estivesse esmagando-a. — Eu mandei você sair, Kan Ruslan. — Não vou sair. — Digo, a observando mais de perto. — Tem algo errado. Os olhos dela se estreitam, irritados, orgulhosos, mas eu também vejo… outra coisa. Um brilho de dor talvez. Ou confusão. Ou medo. Ela não quer que eu veja. Não quer que ninguém veja. Mas eu vejo. Dou mais um passo. Ela tenta recuar, mas não tem para onde. A respiração dela treme. Os dedos apertam a mesa. E por um instante, só um, ela parece frágil. É quase chocante. Quase impossível de acreditar. Lunara Tokatli, a mulher que o país inteiro enxerga como indestrutível, está lutando contra algo que eu ainda não entendo de cara. Eu me aproximo mais. — Ei.... — Digo lentamente. — Se você desmaiar aqui dentro e eu sair, ninguém vai encontrá-la por horas. — Eu disse que estou bem. — Não está. — Kan… — Ela fecha os olhos por meio segundo. — Saia... para o bem de todos. Ninguém... pode nos ver aqui. Vai embora! Eu não movo um centímetro. Ela abre os olhos novamente, e a força dela ainda está ali, mesmo que o corpo esteja traindo. Eu poderia perguntar mil coisas. Poderia tentar tocar nela. Poderia insistir até quebrar essa barreira. Mas não faço. Fico aqui observando. Guardando cada detalhe. O rosto dela está mais pálido que antes, mas os olhos continuam ferozes. Pelo jeito, com certeza é algum ataque de ansiedade ou algo parecido. Mas, por quê?
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