Lunara Tokatli
Os dias passaram mais rápido do que eu imaginava. O luto oficial continua, mas o silêncio pesado que dominou o Norte após o enterro do meu pai começa a se dissipar. O peso já não é tão forte como antes. As pessoas voltam a circular, ainda cabisbaixas, mas retomando o trabalho aos poucos.
Agora, a movimentação do momento é outra: A minha cerimônia de posse.
Uma festa que vai reunir o conselho, os chefes das grandes famílias, os apoiadores, os líderes de clãs, homens de importância e herdeiros influentes. A festa que vai anunciar ao Norte e às outras regiões, que eu sou a escolha oficial do meu pai.
Ele preparou isso.
Ele desejou isso.
Ele deixou registrado.
E mesmo assim… eu estou tensa. Ninguém me preparou para subir naquele palco e assumir o lugar dele como se fosse simples. Nada aqui é simples. Para aliviar essa tensão sufocante que cresce dentro de mim, eu fiz o que nunca imaginei fazer de novo: vim para o centro de treinos básicos.
Aqui, eu coloco os óculos de proteção, a proteção no peitö e seguro a arma com firmeza.
O metal pesa.
Esfria a palma da minha mão. Traz uma sensação que eu odeio.
Eu respiro fundo.
— Você precisa relaxar os ombros. — Osman diz atrás de mim. — Não pense em nada além do alvo.
Eu não olho para ele.
Não quero.
A proximidade me causa desconforto, não só por não confiar cem por cento, mas porque ele está perto demais. Olha demais. Observa demais. Tem coisas que precisam de limites e eu estou mostrando aos poucos.
Eu ergo a arma. Miro. E erro.
Claro.
Respiro e miro de novo. Erro de novo.
— Você está apertando o cabo com força demais e isso te faz tremer um pouco. — Ele diz, se aproximando meio passo. — Assim você perde o controle.
Eu dou um passo para longe, mantendo a distância.
— Eu consigo!
Ele ergue as mãos, rendido.
— Tudo bem. Continue tentando! — E eu continuo.
Miro. Aperto o gatilho. Erro.
Miro. Aperto o gatilho. Erro outra vez.
Odiei armas a vida inteira. O peso, o som, o estrago que elas fazem. Cresci vendo o pior delas sem nunca tocá-las. Mas agora, eu me obrigo a aprender. Porque não posso ser uma líder que não sabe se defender. Isso seria humilhante. Seria perigoso.
E, no fundo, uma lembrança me impulsiona mais do que qualquer outra: Kayra Selik.
A mulher que quase se casou com meu pai. A lenda viva da Turquia.
Ela atira, luta, usa facas, se defende, sobrevive, matä. Ela é um mito. Uma sombra forte que todos respeitam e temem.
Eu não quero ser Kayra Selik. Mas quero ao menos saber um pouco do que ela sabe.
Quero ter controle. Domínio. Frieza quando necessário. Quero ser uma mulher que mostre que não é apenas uma mulher frágil. Quero me fortalecer.
Miro de novo.
Respiro exatamente como o instrutor ensinou.
Aperto o gatilho.
O som ecoa pelo espaço… E acerto o alvo.
— Boa! — Osman comenta baixinho.
Eu apenas respiro, focada. Tento de novo.
Acerto.
E de novo.
Erro mais uma vez, mas volto a acertar depois. Com o resultado, eu controlo a animação.
Eu passo horas aqui, treinando. O instrutor me observa, ajusta minha postura, mostra como firmar o braço, como controlar a respiração, como não fechar os olhos no exato momento do disparo.
Depois, ele me leva para o treinamento de facas. Isso eu gosto mais.
A lâmina é leve.
Silenciosa.
Direta.
Honesta.
Ele me ensina o básico: defesa, ataque rápido, posição das pernas, impulso certo.
Eu aprendo.
Eu absorvo.
Eu decido aqui, nesse momento, que terei treinos todos os dias. Disciplina. Foco.
Se querem uma líder forte… Então eu serei forte.
Ao final, conto mentalmente quantos alvos acertei. Quatro. Quatro alvos em horas de treino.
É pouco, mas é alguma coisa pra mim.
Saio do prédio e encontro Osman ao lado de fora, com as chaves do carro na mão. Ele abre a porta para mim. Um gesto que me deixa um pouco desconfortável. Não sei se é gentileza ou outra coisa.
O caminho até a mansão é silencioso por alguns minutos, até que ele decide puxar assunto.
— Seu pulso estava rígido demais. Isso atrapalha a mira.
Eu olho pela janela.
— Vou me ajustar!
— Controle a respiração também. Quando for atirar, inspire fundo, segure por um segundo e solte depois do disparo. E não tenha medo da arma.
Eu arqueio uma sobrancelha.
— Não ter medo? — Isso não faz sentido pra mim.
— O medo só existe quando o cano está apontado para você. Se está nas suas mãos, você domina. — Isso faz sentido.
Eu penso sobre isso.
Guardo as palavras.
Aprendo com elas.
O carro sobe a longa estrada que leva até a mansão. Aquelas colunas altas, cinzentas, aparecem na escuridão. A construção imponente, fria, cheia de sombras que conheço bem. Eu entro, subo para meu quarto e tomo um banho rápido. Troco de roupa, colocando um vestido longo e branco, simples, leve. Deixo os cabelos soltos do jeito que eu gosto.
Pela primeira vez em dias, sinto o corpo menos pesado.
No escritório, abro o laptop para ver as atualizações da cerimônia.
Centenas de confirmações.
O conselho inteiro estará completo. Os chefes das famílias do Norte, do Oeste, das terras mais afastadas. Apoiadores de longa data. Vários líderes de clãs.
Falta poucos responderem.
Mas uma confirmação chama minha atenção imediatamente: Grupo Anatólia Central — Presença confirmada. Líder: Kan Ruslan.
Eu encaro aquele nome por longos segundos.
Kan Ruslan.
A Anatólia Central é seca, rígida, mais religiosa, mais firme nas tradições. Meu pai trabalhou com o pai dele muitos anos atrás, em uma aliança contra o Sul.
Eu era nova demais e ele e o irmão também.
Os dois perderam os pais cedo.
Depois disso, cada grupo seguiu seu rumo, mas os negócios continuaram. Eles precisam dos suprimentos do Norte. Nós usamos muito das terras e passagens deles.
Uma dependência mútua. Antiga. Frágil.
Mas algo em mim… incomoda.
Não lembro do rosto dele. Do jeito dele. Da voz dele. Mas lembro da sensação que ele provocava nas pessoas: Respeito. Cautela. Força. Eu sei dos boatos distantes sobre eles terem se fortalecido, mas o Norte é bem maior.
Fecho o laptop só para afastar a sensação estranha que sobe pela minha coluna.
Batidas leves soam na porta.
— Entre! — Digo.
Juro que torço para não ser Osman.
Harika entra com o sorriso de sempre e fico aliviada.
— O que você pretende usar na festa de posse? — Eu franzo a testa. — Qual a cor? Quais as joias?
Eu respiro.
— Ainda não pensei.
Ela me olha chocada.
— Como não pensou, Lunara? — Ela dá um passo à frente, indignada de um jeito até engraçado. — Lunara, isso é um absurdo! É a sua posse, irá mostrar a líder que será e precisa ser algo marcante. — Eu apenas a encaro. — Mas… eu já pensei nisso.
— Claro que pensou! — Digo, sorrindo. — Me diz aí...
Ela sorri também, animada.
— Eu combinei com as servas de trazerem peças novas. Você vai escolher algo elegante, digno de uma líder mulher. Nada desses vestidos simples que você gosta. Você precisa estar… impecável. Se mostrar fina e elegante.
Eu rio baixo.
— Tudo bem. Daqui a pouco vou ver!
Ela fica animada como uma criança.
— Perfeito! Vou avisar a elas e por favor, me ajuda a te ajudar. — Eu apenas aceno.
Harika sai radiante, e eu fico sozinha.
Abro o laptop de novo. Tento focar nos documentos, nas atualizações, nos detalhes burocráticos da cerimônia.
Mas a minha mente volta para o mesmo ponto. Para o mesmo nome.
Kan Ruslan.
E a sensação estranha que não quer ir embora.
Não sei se é alerta. Não sei se é curiosidade. Não sei se é medo.
Só sei que a presença dele na minha posse… não vai passar despercebida.
E eu não consigo parar de pensar nisso.
Eu começo a tentar procurar algo que me diga mais sobre ele, mas infelizmente, não vejo nada com fotos. Eu só vejo os acordei feitos, a comunicação direta de alguns conselheiros com eles e a paz que realmente é firme. Tenho receio de perguntar a alguém e ser interpretada de forma errada.
Terei que esperar até a noite da cerimônia!