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1173 Words
O ar na estação abandonada não era apenas pesado — era opressivo, quase consciente. Como se cada partícula de poeira suspensa soubesse que aquele momento carregava um significado maior do que qualquer outro que já tivesse existido. O som metálico das estruturas antigas rangendo ecoava pelos túneis vazios, misturando-se com a respiração controlada, mas tensa, de Elias, Lara e Caio. Havia algo profundamente errado ali. Não era apenas o espaço. Era a realidade. À frente deles, Victor Salgado permanecia imóvel, como uma figura esculpida na própria certeza. Ele não parecia ameaçado. Não parecia preocupado. Pelo contrário — havia uma tranquilidade perturbadora nele, como alguém que já conhecia o desfecho daquela história. E isso… era o mais assustador. Elias sentia isso no fundo do peito. Não havia mais fuga. Não havia mais adiamento. Aquele era o ponto onde tudo se decidia. — Vocês já viram o suficiente — disse Victor, com uma calma quase antinatural. Sua voz ecoou de forma limpa, sem interferência, como se o próprio ambiente lhe desse espaço. — Viram o caos. Viram o que acontece quando o tempo deixa de ter direção. Elias manteve-se firme, mesmo sentindo o peso daquelas palavras pressionando sua mente. — O que vimos foi liberdade. Victor soltou uma leve risada. Não era de deboche. Era pior. Era de alguém que genuinamente acreditava estar certo. — Liberdade? — ele deu um passo à frente, os olhos fixos em Elias. — Aquilo não é liberdade. Aquilo é colapso. É o fim da lógica, da causalidade, da própria estrutura que sustenta a existência. Um mundo onde cada decisão cria uma realidade diferente não é um mundo… Ele fez uma pausa breve, deixando o silêncio completar a frase. — …é um erro. Caio, que até então permanecia em silêncio, absorvendo cada palavra, ergueu o olhar. — Não — disse ele, com uma firmeza surpreendente. — É um sistema complexo. Não um erro. Victor virou-se lentamente para ele. E pela primeira vez, demonstrou algo próximo de interesse genuíno. — E é exatamente por isso que precisa ser controlado. Lara deu um passo à frente, posicionando-se ligeiramente entre Elias e Victor, como se instintivamente quisesse proteger. — Controlado por ti? — Por alguém capaz — respondeu Victor, sem hesitar, sem sequer considerar a possibilidade de dúvida. Elias avançou mais um passo. Os olhos fixos. A voz mais baixa, mas mais perigosa. — Tu não queres salvar o mundo. Queres possuir o mundo. O silêncio que se seguiu não foi vazio. Foi denso. Carregado. E pela primeira vez… Victor não negou. Ele apenas inclinou ligeiramente a cabeça, como se aceitasse a interpretação. — E qual é a diferença… — disse ele lentamente — …quando o resultado é estabilidade? As palavras ficaram suspensas no ar. Pesadas. Perigosas. Porque, no fundo… Havia lógica nelas. E isso era o mais inquietante. — Um tremor percorreu o chão. Leve no início. Quase imperceptível. Mas depois… Mais forte. Mais profundo. As luzes da estação começaram a piscar violentamente, criando sombras irregulares que se moviam pelas paredes como espectros de outras realidades. Caio imediatamente baixou o olhar para o tablet. Os dedos movendo-se rapidamente. — Está a acontecer de novo… Elias virou-se. — O quê? — As linhas temporais… estão a colidir outra vez. Mas agora… — ele hesitou — …agora não estão só a cruzar-se. Lara franziu a testa. — Então o que estão a fazer? Caio engoliu em seco. — Estão a sobrepor-se. Antes que qualquer um pudesse reagir— O espaço ao redor deles distorceu-se. Não como uma ilusão. Mas como algo físico. Real. Como vidro a rachar sob pressão invisível. E então— Eles viram. Outra versão da estação. Mesma estrutura. Mesmo espaço. Mas completamente diferente. Destruída. Coberta de destroços. O ar denso com fumaça. Victor… morto no chão. Elias… de joelhos. Coberto de sangue. Lara… Não estava lá. A cena durou apenas um segundo. Mas pareceu uma eternidade. E então— Mudou. Outra realidade. Victor de pé. Vitorioso. Elias preso, ajoelhado, contido. Caio ao lado de Victor. Mas não como aliado. Como algo vazio. Controlado. Sem expressão. Sem identidade. E então— De volta ao presente. O silêncio que se seguiu foi quase insuportável. Respirações pesadas. Corações acelerados. — Isto… está a piorar — murmurou Lara, a voz falhando pela primeira vez. — Não. A voz surgiu atrás deles. Calma. Inevitável. A pessoa sem tempo. Ela estava ali novamente. Como se nunca tivesse saído. Como se sempre tivesse estado. — Isto é apenas o começo. Elias virou-se lentamente. — Começo de quê? Ela não hesitou. — Do colapso total. O silêncio tornou-se absoluto. Como se até o mundo estivesse a escutar. — As possibilidades estão a tornar-se reais ao mesmo tempo — continuou ela. — As linhas já não são separadas. Estão a fundir-se. Em breve… não haverá distinção entre escolha e consequência. Caio falou, quase sem voz: — Tudo vai acontecer… ao mesmo tempo? Ela olhou para ele. E, por um instante, houve algo quase… humano no olhar dela. — Se não escolherem um caminho… sim. Victor sorriu lentamente. Satisfeito. — Agora entendem — disse ele. — Isso não é liberdade. É destruição inevitável. Elias respondeu, com firmeza crescente: — Ou é evolução. Victor virou-se para ele. — Então escolhe, Elias. Não era apenas um desafio. Era uma exigência. Um ultimato. — O chão tremeu novamente. Mais violento. Uma rachadura abriu-se no concreto, serpenteando pelo chão como uma ferida na realidade. Caio caiu de joelhos por um instante. — Não temos muito tempo… Lara olhou para Elias. E pela primeira vez… O medo nos olhos dela não era estratégico. Era real. — Nós temos que decidir… agora. Elias olhou para cada um. Para Caio. Para Lara. Para Victor. Para a entidade. E então perguntou: — Se escolhermos um caminho… os outros desaparecem? A resposta veio fria. Direta. — Sim. Lara deu um passo à frente. — Então isso significa… — Que alguém vai perder — completou Caio. Victor cruzou os braços. — Não. Significa que o mundo será salvo. Elias fechou os olhos. E naquele instante… As memórias vieram. Lara sorrindo. Caio criança. O laboratório. Os sonhos. E depois… As perdas. As versões onde tudo dava errado. Onde ele falhava. Onde perdia tudo. Quando abriu os olhos… Ele já sabia. — Lara aproximou-se. — Elias… A voz dela era diferente agora. Suave. Vulnerável. — Nós não podemos salvar todas as versões… Ele olhou para ela. E naquele momento… Nada mais existia. — Eu sei. Silêncio. E então… Ele segurou a mão dela. Ela não recuou. — Seja qual for a escolha… — disse ela — …faz com que valha a pena. Elias entendeu. Finalmente. — — Pai… — disse Caio — …temos segundos. — Decide — disse Victor. A entidade observava. — Elias respirou fundo. E falou: — Eu escolho… O mundo começou a desmoronar. As realidades a colidir. As vozes a gritar. As possibilidades a lutar por existência. E então— Elias deu o passo. E fez a escolha. — A luz consumiu tudo. — E nada voltou a ser igual.
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